Condições desumanas contra detentos no Plácido de Sá Carvalho

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Em novembro de 2018 detentos do Instituto Penal Plácido de Sá Carvalho, localizado no Complexo de Gericinó, Zona Oeste do Rio, gravaram um vídeo de dentro da cadeia denunciando a direção por diversas irregularidades cometidas, como a autorização para entrada de drogas, implementação da tortura, negligência e entre outras. Desde então, a equipe de AND mantém contato com os familiares e teve acesso a relatos de visitas, as quais reiteram que as condições carcerárias e dos detentos permanecem péssimas e de forma cada vez mais agravada. 

Suelly e Alberta1 denunciaram com detalhes em entrevista exclusiva para o AND situações desconhecidas por muitas pessoas que ocorrem em uma das masmorras do velho Estado brasileiro.

Do presídio, um empreendimento

As relações entre agentes e detentos são baseadas em propina, relata as familiares dos detentos. As necessidades humanas fundamentais só podem ser saciadas com negociatas e sob as condições impostas pelos carcereiros.

— É tudo tão precário que nem animal consegue viver naquelas condições. As pessoas que cometeram crimes estão pagando pelos seus erros uma vez sendo presas, o que já as coloca em uma situação delicada. A situação se agrava quando os agentes pioram a condição deles de sobrevivência, retirando toda a humanidade em suas ações. Qual a necessidade disso? — questiona Suelly.

— Quando há revista na cela e um detento é pego com o celular, para funções criminosas, todos acabam pagando a punição e muitas das vezes está incluído tomar tudo o que foi conseguido com muito esforço pelos familiares dos presidiários, como material de higiene e limpeza, ventilador, colchão, ao ponto dos objetos não terem mais condições de serem usados novamente. Sendo que os próprios agentes penitenciários vendem aparelho e chip para os presos. Quando não quebram os pertences deles, vendem. E, quando falam em “devolver”, os agentes negociam, mediante a cobrança de dinheiro para a “devolução” dos pertences — denuncia.

— Quando os objetos não são devolvidos [por falta de pagamento], os agentes também se vingam agredindo os detentos, ou colocando mais presidiários em uma cela já superlotada — conta Suelly.

Além disso, toda a estruturação das celas fazem do ambiente um inferno. A temperatura nas celas são altíssimas, elas são construídas com ventilação precária ou nula. Os internos sempre sofrem com o calor e os ventiladores são comprados lá dentro ou levados pelos familiares.

— Ter ventiladores é um direito dos presos. É um sacrifício para conseguir entrar com um e deixar lá, os agentes dificultam para que paguemos a “autorização da entrada” —  explica Suelly, referindo-se ao suborno cobrado pelos agentes.

Incentivo às drogas e homicídio indireto

Enquanto o velho Estado diz combater o narcotráfico, na unidade Plácido de Sá Carvalho o consumo e circulação de drogas é incentivado.

— Há distribuição de drogas no local por parte de agentes e detentos, tanto os primeiros quanto os segundos lucram com isso. De certa forma a direção endossa esse tipo de coisa, porque não é possível que ela não saiba desses esquemas. Lá dentro tem abertamente uma banquinha, vendendo todo tipo de droga, os próprios agentes levam para lá. O próprio sistema libera tudo à base do dinheiro — expõe Suelly.

— Esse lugar [cadeia] não recupera ninguém, a pessoa sai pior do que quando entra. Muitos detentos vão presos por traficar drogas ou simplesmente usá-las, chega lá dentro o Estado incentiva a permanecer no vício, aquele que se sente fragilizado e/ou desamparado vai consumir — reflete Suelly.

Além disso é perceptível a precária assistência à saúde física e mental dos presos. Os familiares relataram à nossa equipe que os detentos convivem em uma mesma cela com as mais variadas enfermidades, como sarna, micose, doenças de pele e respiratórias, tuberculose, pneumonia, feridas por todos os cantos, tanto físicas quanto mentais, na forma de problemas psicológicos e psiquiátricos.

Os filhos das duas entrevistadas sofrem de tuberculose, um deles tem transtorno de ansiedade e claustrofobia. Segundo elas, só com muita luta foi possível conquistar um tratamento digno para eles. Muitos outros encarcerados chegam a morrer.

Dados obtidos no portal Justificando2 mostram que, em pesquisa de 2017 referente ao ano de 2016, pelo menos 32 presos morreram dentro do Plácido de Sá por não terem qualquer acesso a saúde básica.

— Quando os presos passam mal, os agentes não prestam socorro. O detento só é levado para o ambulatório quando já está em estágio muito debilitado, alguns não resistem — denuncia.

— Como castigo, até mesmo as roupas dos detentos são destruídas. O meu filho, por exemplo, só está com a roupa do corpo, chegaram até a destruir o chinelo para o preso ficar descalço, estando sujeito a doenças pela condição insalubre. O preso já paga pelo crime estando ali e eles ainda humilham e tiram a dignidade das pessoas — protesta Suelly.

Mensuração de comida e objetos

— Determinados tipos de comida não entram e isso geralmente é sinalizado sem qualquer antecedência e durante a fila para entrar — diz Alberta. Além disso com base nos depoimentos à nossa equipe, percebe-se que não há nenhum documento oficial que mencione os alimentos permitidos ou não. Os critérios estão em constantes modificações, sem uma justificativa plausível, a bel-prazer dos carrascos: — Essas medidas são aplicadas pela direção e depende da “boa vontade” dos mesmos para que certos alimentos entrem ou não na hora — prossegue Alberta.

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