Por um cinema que registre a alegria do povo

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Entrevista com o escritor e documentarista André Queiroz

Nota da Redação: O filme, objeto da entrevista, chama-se O caminho fica longe, o qual trata do reencontro do fotógrafo João Roberto Ripper com algumas comunidades quilombolas tradicionais que vivem do extrativismo na Serra do Espinhaço, Minas Gerais.

Os povos vivem tensões oriundas de vários interesses, dentre eles, a instalação do Parque Nacional das Sempre Vivas, que recentemente cercou as comunidades, impedindo-as de ter acesso aos recursos naturais, especialmente impedindo a extração das flores Sempre Vivas, o quase único recurso econômico e de grande importância social aos quilombolas. Além disso, avança na região a concentração de terras no “agronegócio”, tudo para cultivo de eucalipto, pondo em risco a vida econômica das comunidades.

O filme está na etapa de captação de recursos para sua culminação e o projeto prevê sua conclusão em julho.

O que você quer sugerir, apontar, lançar no título “O caminho fica longe”?

Quero apontar diversos longes. As distâncias da Serra do Espinhaço — conhecida como a Cordilheira brasileira — que atravessa Minas Gerais e sobe até o Nordeste. De Diamantina, por exemplo, até certas comunidades (das que escolhemos registrar) são três horas de carro em estradas de barro. Se chover, estás ilhado. Numa delas, para chegar, passamos de carro dentro de dois rios. Mas têm outras esferas de sentidos, os longes. O das temporalidades - suas incongruências com os ritmos da urbe. Suas práticas e saberes, sua umbilical relação com o território (muitíssimo mais profunda do que a relação com a terra). Dizer longe é também remeter à invisibilidade. Uma das lideranças, que nos recebeu, contava: “a invisibilidade nos salva e nos condena”. E, em definitivo, outra referência ao nome do filme é porque remete ao título do primeiro livro do Vergílio Ferreira, o grande escritor português do século XX, que introduziu a literatura realista em Portugal —  e que me é imensamente caro.

Por que você escolheu o Espinhaço e a temática rural/camponesa?

Porque um dos dispositivos disparadores do filme é o de seguir de perto o trabalho do fotógrafo João Roberto Ripper, que há quarenta anos se dedica a fazer o registro das vozes silenciadas no Brasil – sejam os povos ribeirinhos e, constantemente, desterrados pelas arbitrariedades do conluio entre o poder público e os agentes privados, seja o trabalho escravo enquistado em diversos quadrantes do território nacional. No caso das comunidades  extrativistas, colhedoras de Flores Sempre Vivas, nos chamou atenção que elas tivessem sido impedidas de ter acesso a sua principal fonte de recurso econômico por razões supostamente neutras como a da defesa da biodiversidade por gestões de cunho ambientalista.

Da questão rural, camponesa. Porque já era algo que nos debruçamos desde o trabalho de pesquisa que resultou no filme Araguaia, Presente!. Quando encerramos este projeto, eu tinha (e continuo tendo) interesse em contar a história de luta e resistência da Liga dos Camponeses Pobres (LCP). Eles ficaram muito comovidos com a referência a eles no final do Araguaia. E eu fiquei comovido com a comoção deles. Todavia, eles decidiram, à ocasião, que não lhes seria interessante e pertinente que a história deles fosse contada neste momento. Ainda pretendo ter a oportunidade de fazer o registro da luta e da riqueza das formas de vida que eles tocam. Mas o pistão da hora de largada tem que ser dado por eles. Este é um compromisso ético e militante imprescindível. Caso contrário, o cinema documental, a tarefa histórica de registrar, se torna auto-referente e oportunista. O que é dizer, noutras palavras, tonta e torpe.

Houve tensões de criação em relação a estas paisagens (humanas, vegetais, animais...) e o filme (no momento das filmagens)?

Muitas. Inclusive algumas que não posso nomear. Várias questões: estamos com o filme em curso. Tivemos uma semana de desenvolvimento do projeto. Conhecendo o que me era apenas uma visagem ficcionada. Conheci as gentes, estou destilando as personagens, o que vale a pena ser contado, o que as gentes não querem que seja revelado – por autodefesa face a uma condição de vulnerabilidade. E este ponto de respeito é fundamental: se trata de um comum acordo - contar o que eles querem que seja contado, o que lhes parece mais urgente e imprescindível para a luta que eles, cotidianamente, estão tocando. Como no dispositivo utilizado pelo João Roberto Ripper: as fotografias são escolhidas pelos representados. Afinal, como diz Ripper, trata-se de uma auto-representação. É o retratado, o personagem coletivo, todo um povo, que deve escolher a forma de se fazer ver. Sob este mesmo princípio, vou seguindo na colcha de histórias particulares, na tessitura dos relatos. Eles escolhem o que vão contar. São, de algum modo, co-roteiristas no processo de construção do filme. Não estou buscando o furo impróprio, impertinente, desorganizador de um jornalismo amesquinhado, servil e canhestro. Importante atentar que a trama poética é o que dá a linha e trama os pontos.

E que tipo de desejo/pensamento surgiu no processo de montagem?

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