No limiar de grandes acontecimentos

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Bolsonaro chega ao quinto mês de governo carregando os piores índices de aprovação e as maiores manifestações de descontentamento contra um presidente no primeiro ano de mandato desde a chamada redemocratização, pelo menos. Engana-se, contudo, quem só enxerga trapalhadas onde há, de fato, um projeto político já alinhavado.

Ellan Lustosa/AND
As ações e a luta dentro do governo precipitarão o levante das massas. Rio de Janeiro, 15/05.
As ações e a luta dentro do governo precipitarão o levante das massas. Rio de Janeiro, 15/05.

Este projeto, sobre o qual tem reiterado AND desde o segundo turno das últimas eleições, consiste em afundar o País no caos; em governar não em prol de uma maioria amorfa, e sim, de uma minoria ativa constantemente mobilizada; e em denunciar toda oposição ao governo – incluindo Congresso, Supremo, tudo – como “velha política” ou, pior, “comunismo”. Para quê? Para implementar o único regime em que de fato acredita Bolsonaro: uma reedição daquele instaurado com o golpe de março de 1964, mais radical ainda na razia ideológica, se possível, segundo vaticina seu guru Olavo de Carvalho.

O que se oculta sob a contradição entre as hostes olavo-bolsonaristas, de um lado, e o generalato, de outro (bajulado pelos monopólios de imprensa, pelos partidos burgueses e, mais discreta, mas inequivocamente, pelo PT e seus satélites), não é o conteúdo mesmo das medidas de guerra aplicadas contra o povo, tais como as “reformas” trabalhista, previdenciária e o feroz ataque à educação pública. O que disse o sr. Mourão, por exemplo, acerca dos imensos protestos do último dia 15? Apenas que o governo “comunicou mal” a necessidade do corte de verbas, eufemisticamente chamado por ele de “contingenciamento”; disse, também, que as manifestações, desde que pacíficas, são um natural exercício de insatisfação. E esta mísera “concessão” ao direito de espernear – de resto, apenas o que está inscrito em lei – é interpretada por muitos como profundo democratismo! Esquece-se que, há poucos meses, o Alto Comando do Exército fazia às vezes de poder moderador, emparedando via twitter o STF, e o próprio Mourão dizia pérolas do tipo: “A partir do momento em que a família é dissociada, surgem os problemas sociais. Atacam eminentemente nas áreas carentes, onde não há pai e avô, é mãe e avó. E, por isso, torna-se realmente uma fábrica de elementos desajustados que tendem a ingressar nessas narco-quadrilhas”.

O fato de tal figura, cujas teses sobre a formação do povo brasileiro descambam para o racismo, ser agora encarada como “fiadora” da democracia revela apenas uma coisa: as tais “regras do jogo” demoliberal já foram rasgadas há tempos no Brasil. Desçamos das declarações ao terreno, e aí veremos as polícias e grupos paramilitares com licença – e encorajamento – para matar como nunca se viu, mesmo partindo dos nossos elevadíssimos índices pregressos. Esta já é a nossa realidade.

Bolsonaro semeia ventos. Como, na sua ideologia fascista, não são as massas o motor da história, e sim os aparelhos de repressão e um punhado de “chefes”, ele subestima os efeitos incontroláveis que suas provocações e a escalada das crises econômica, política e militar irão provocar. Ora, uma vez desatado o tufão da revolta popular, toda a truculência posta em circulação por ele e seus comparsas voltar-se-á, com fúria redobrada, contra eles, como num bumerangue. Seu rebotalho de matadores, rufiões e trambiqueiros, embora barulhento e potencialmente numeroso, então nada valerá diante do Hércules que se levantará para combatê-lo. Terminarão como o traste Mussolini.

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Os que, por outro lado, estão a pregar “sensatez” ao governo também se equivocam, pois partem da premissa de que este sistema político que aí está é, de alguma forma, governável. De fato, não o é. Na visão positivista que caracteriza a formação dos militares, por exemplo, nação é alguma coisa vaga, cujo desenvolvimento vago depende de uma igualmente vaga ordem de coisas. Para sua estreita lógica, é impossível compreender que todas as ordens são transitórias e que o elemento constitutivo essencial de uma nação, o parâmetro do seu desenvolvimento, é o seu povo. E este povo brasileiro, ao longo de toda a história e, em particular, desde 2013, já deu sinais de que não aceita mais arreios e tutelas, e sobre isso já ultrapassou há muito o ponto de não retorno. É este levantamento inevitável que eles temem, e não o protagonismo de Bolsonaro em si.

Os recentes protestos em defesa da educação pública não foram sinal, mas demonstração patente de que este processo está em marcha. Não há nenhuma possibilidade da nossa gente aceitar sacrificar seus já mínimos direitos à educação pública, aposentadoria, emprego. Os chicago-boys podem torrar quantos bilhões quiserem em propagandas de chantagem pública que isto não irá mudar. O que está em jogo no Brasil de 2019 são, de fato, interesses inegociáveis e inconciliáveis. Os protestos foram tão massivos porque catalisaram insatisfações profundas e generalizadas, que ultrapassam, em muito, o já grave problema da educação. Uma vez que estes problemas são insanáveis, tanto a crise como os protestos irão inevitavelmente escalar.

Numa palavra: errarão os que tiverem os olhos presos às idas e vindas do governo, que já acabou sem ter ainda começado. De fato, o que está em jogo não é mais o governo, mas a própria ordem, ou seja, quem detém o poder político. Não receemos o futuro, porque deste passado nada temos que faça falta. Olhemos à frente, como dizia Virgílio a Dante, na travessia do Inferno: “Pensa que devemos subir muito mais alto e que foi pouco o haver saído desse abismo”.

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