'A polícia mata para mostrar serviço, isso é revoltante'

Entrevista com Sandra, mãe de professor de jiu-jitsu morto no Alemão

Era uma terça-feira, dia 14 de abril, quando Jean Rodrigo da Silva Aldrovande, de 39 anos, chegava a uma das ruas de acesso ao Complexo do Alemão, onde daria aulas de jiu-jitsu para crianças em um projeto social na localidade conhecida como Casinhas. Policiais chegaram ao local atirando e Jean teria se escondido atrás de um veículo estacionado para procurar abrigo. Policiais dispararam na direção do professor, que morreu na hora. Revoltados, moradores ergueram barricadas para impedir o avanço da polícia e garantir que o corpo de Jean fosse periciado. Nesse momento, a mãe de Jean, Sandra Mara, já havia chegado ao local, onde foi confortada por amigos e alunos do filho.

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Dois meses após o crime, a equipe de reportagem de AND entrou em contato com a mãe de Jean para saber mais sobre o que aconteceu naquela fatídica tarde de terça-feira. Ao telefone, Sandra falou sobre o amor e a admiração que tinha pelo filho, sobre a luta de Jean pelo esporte e pelas crianças do Complexo do Alemão; e de sua revolta com a frieza e a crueldade dos agentes do Estado que o executaram.

— Eu fiquei sabendo do que tinha acontecido com o Jean pelo meu outro filho, o Diego. Foi ele que me deu a notícia mais trágica das nossas vidas. Com ele eu fui até o local. Os amigos dele que estavam ali, os alunos, me disseram que a polícia veio atirando. Inclusive, disseram que um PM atirou até debaixo do carro. Meu filho se jogou no chão para se proteger e eles abaixaram e atiraram no Jean por debaixo do carro. Além disso, disseram que os policiais queriam tirar o corpo dele de lá antes da chegada da perícia e as pessoas que estavam ali não permitiram e colocaram fogo em um lixo para chamar a atenção. Nessa hora, a polícia deu mais tiros para cima das pessoas. Eu tenho um vídeo deles jogando spray de pimenta em pessoas de idade, é um absurdo, uma desumanidade. Eu não sei se esses PMs são pessoas ou animais — diz Sandra.

Sandra disse também que seu filho era um pai dedicado aos quatro filhos e à família e que fazia tudo pelos seus alunos, para quem dava aulas de jiu-jitsu e a quem dava conselhos para a dura vida nas favelas do Complexo do Alemão. Emocionada, ela falou das inúmeras qualidades de Jean.

— Meu filho era o melhor ser humano que eu conheci. Ele ganhava uma ajuda de custo por esse trabalho social que ele fazia dando aulas de jiu-jitsu e ele gastava esse pouco dinheiro que ganhava com as crianças para quem ele ensinava, pagava lanches, levava água, gelo, fazia o trabalho de educar e instruir essas crianças para a vida. Ficava com fome, mas não deixava uma pessoa com fome na rua, usuários de drogas, pedintes, moradores de rua. Ele estava sempre cuidando de mim, me ajudando com tudo, preocupado comigo, com o meu bem-estar, com a minha saúde. Além disso, era um pai dedicado, dava mamadeira, trocava fralda, não deixava faltar nada aos filhos. Era uma pessoa maravilhosa, que dedicava a vida a tirar crianças do caminho das drogas e do crime e mostrar o esporte a essas crianças — frisa.

Quando perguntada sobre a situação no Complexo do Alemão, Sandra explicou que pouco sabia, além do que seu filho lhe dizia e das notícias que via nos noticiários. O suficiente para conhecer bem o modus operandi das polícias desse Estado genocida.

— Eu nunca morei em comunidade, nem meus filhos, mas Jean dava aula em uma ONG localizada em uma rua de acesso. A polícia, ao invés de ficar lá dentro do Complexo do Alemão, fica nas esquinas, até porque os policiais sabem que os bandidos estão lá dentro preparados para enfrentá-los. Então eles ficam dando tiros a esmo dessas esquinas, acertando casas e quem está andando pela rua, como a gente vê nas reportagens. O  que eu vejo é uma falta de sentimento desses policiais pelas pessoas, é inexplicável como eles não têm empatia. Porque esse policial não matou só o meu filho: matou a mim, meu outro filho,  os meus quatro netos, minha nora, agora viúva; matou os alunos de jiu-jitsu do meu filho, matou muita gente. E será que esse policial se arrepende? Acho que não — afirma Sandra.

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