De Karl Marx ao Marxismo: Luta de classes, luta de duas linhas e linha de massas (Parte VI)

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Introdução

Nas partes anteriores do presente artigo procuramos demonstrar como o desenvolvimento do marxismo, enquanto ideologia científica do proletariado, esteve diretamente vinculado aos principais acontecimentos da luta de classes na Europa entre os anos de 1848 e 1871. Buscamos, também, demonstrar que as formulações marxistas só foram possíveis porque Karl Marx não apenas participou, mas foi o principal dirigente das organizações revolucionárias mais avançadas do proletariado naquela época, a Liga dos Comunistas (1848-1852) e a I Internacional (1864-1872).

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Junto a Engels, Marx foi o fundador do socialismo científico
Junto a Engels, Marx foi o fundador do socialismo científico

Como chefatura dessas organizações, Karl Marx vanguardeou a Fração Vermelha na luta de duas linhas contra as posições oportunistas no seio do movimento operário internacional. O marxismo, portanto, se desenvolveu em meio a essa luta de duas linhas, da qual se destacam a luta contra o proudhonismo no período da Liga dos Comunistas e a luta contra o anarquismo de Bakunin na I Internacional. A essas se junta também a luta por derrotar outras variantes do socialismo pequeno-burguês como a de Lassalle, na Alemanha, ou posições burguesas como as de Mazzini, na Itália.

Por sua vez, o desenvolvimento do marxismo, como uma ideologia científica do proletariado, não poderia se dar de maneira desligada da experiência política e revolucionária da classe operária da Europa. Karl Marx, como nenhum outro de seu tempo, manejando a linha de massas, soube retirar as mais ricas lições das lutas revolucionárias do proletariado pelo Poder político. Tiveram particular importância as lutas proletárias na França, tanto a Insurreição Operária de junho de 1848, quanto a inesquecível Comuna de Paris, de março de 1871. Ao realizar o balanço desses levantamentos, Marx soube colher grandes ensinamentos, que foram sistematizados cientificamente e passaram, então, a compor o valioso tesouro de aço da ideologia todopoderosa do proletariado.

Nas partes antecedentes deste artigo, buscamos também demonstrar que o marxismo se desenvolveu em duas fases: primeiramente, como pensamento marx, e depois como marxismo. Entre essas fases não ocorre, de forma alguma, qualquer “ruptura epistemológica” ou coisa que o valha: são apenas fases que indicam um maior aprofundamento e uma maior universalidade da ideologia revolucionária do proletariado. O pensamento marx já surge internacional, pois não tratava apenas da revolução na Alemanha e sim em toda a Europa Ocidental. Esse pensamento surge com suas três partes constitutivas: filosofia marxista, economia política marxista e o socialismo científico. As obras que fundamentam essas três partes, quando do pensamento marx, são: na filosofia, Miséria da filosofia (1847); na economia política, Trabalho assalariado e capital (1847); e, no socialismo científico, o Manifesto do Partido Comunista (1848) e As lutas de classes na França (1850).

Do ponto de vista teórico, o que marca a passagem do pensamento marx ao marxismo é a publicação, em 1867, da monumental obra O Capital – Crítica da economia política, cujo Livro Primeiro1 foi o “maior canhonaço do proletariado contra a burguesia”, nas palavras de Engels. Enquanto O Capital trata da comprovação científica da inevitabilidade da destruição do sistema capitalista, a Comuna de Paris, quatro anos depois, foi a demonstração de sua possibilidade prática. Por sua vez, o Congresso de Haia, de 1872, que expulsou os anarquistas bakuninistas da I Internacional, foi a vitória ideológica do socialismo científico sobre o socialismo pequeno-burguês. Essa vitória do proletariado teve como principais armas teóricas justamente O Capital e a Mensagem do Conselho Geral da Internacional, que fazia o balanço preciso da Comuna de Paris e demonstrava, dentre outras coisas, a necessidade prática da ditadura do proletariado como condição indispensável para a vitória da revolução socialista.

As três partes constitutivas do marxismo se apresentam em um primeiro momento como filosofia marxista e economia política marxista em O Capital (1867) e como socialismo científico na Mensagem do Conselho Geral (1871). Como poderemos analisar a seguir, será em meio a duras lutas de duas linhas, desta vez na direção do Partido Operário Social-Democrata da Alemanha, que pela primeira vez será elaborada e publicada uma formulação sistemática das três partes constitutivas do marxismo. Tal obra, escrita por Friedrich Engels, ficou conhecida como Anti-Dühring, e foi publicada entre os anos de 1877 e 1878. Veremos também como Engels, ao longo dos últimos dez anos de vida de Marx, foi assumindo cada vez mais a condição de chefatura do Movimento Comunista Internacional (MCI), numa nova condição da luta de classes, período caracterizado pelo camarada Lenin como “relativamente pacífico” de desenvolvimento do capitalismo. Analisaremos como, neste período, a tarefa orgânica mais importante era a luta pela constituição de partidos marxistas com grande base de massas em cada país como condição para o surgimento de uma nova Internacional. Veremos também o manejo de Marx e Engels da linha de massas, tirando lições, sobretudo na Alemanha e na Rússia, dessa nova condição da luta de classes, dentre elas, a importância de aprender a combinar o trabalho legal e ilegal num período de descenso da luta revolucionária de massas e da promulgação da Lei Anti-Socialista, que colocou o Partido Operário Social-Democrata da Alemanha na ilegalidade.

I. O limiar de uma nova época

“O Manifesto Comunista, de Marx e Engels, publicado em 1848, oferece já uma exposição completa e sistemática desta doutrina [a marxista, nota nossa], que continua a ser a melhor até os nossos dias. De lá para cá a história universal divide-se nitidamente em três períodos principais: 1) da revolução de 1848 até a Comuna de Paris; 2) da Comuna de Paris até a revolução russa (1905); 3) a partir da revolução russa. (...). Em fins do primeiro período (1848-1871), período de tempestades e de revoluções, o socialismo pré-marxista morre. Nascem partidos proletários independentes: a I Internacional (1864-1872) e a social-democracia alemã. (...). O segundo período (1872-1904) distingue-se do primeiro pelo seu caráter ‘pacífico’, pela ausência de revoluções. O Ocidente acabou com as revoluções burguesas. O Oriente ainda não estava maduro para elas. O Ocidente entra na fase de preparação ‘pacífica’ para a época das transformações futuras. Formam-se por toda a parte partidos socialistas de base proletária, que aprendem a utilizar o parlamentarismo burguês, a criar a sua imprensa diária, as suas instituições educativas, os seus sindicatos, as suas cooperativas. A doutrina de Marx alcança uma vitória completa e cresce em extensão. (...) A dialética da história é tal que a vitória teórica do marxismo obriga os seus inimigos a mascararem-se de marxistas. O liberalismo, interiormente podre, tenta reanimar-se sob a forma de oportunismo socialista. Eles interpretam o período de preparação das forças para as grandes batalhas como uma renúncia a essas batalhas. (...) Não tinham ainda os oportunistas acabado de congratular-se com a ‘paz social’ e a desnecessidade de tempestades sob a ‘democracia’ quando uma nova fonte de grandes tempestades mundiais se abriu na Ásia. À revolução russa seguiram-se a turca, a persa e a chinesa. Vivemos precisamente na época dessas tempestades e da sua ‘repercussão’ na Europa. Qualquer que seja o destino da grande república chinesa, pela qual afiam hoje os dentes diversas hienas ‘civilizadas’, nenhuma força no mundo restabelecerá a velha servidão na Ásia e nem varrerá da face da Terra o democratismo heroico das massas populares dos países asiáticos.” (camarada Lenin, Destinos históricos da doutrina de Karl Marx, 1913; os negritos, no original, estão em itálico).

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Essas palavras do camarada Lenin traçam de maneira muito precisa o panorama da Revolução Proletária Mundial nos dois primeiros períodos, 1848-1871 e 1872-1904, e, ao mesmo tempo, de maneira brilhante antecipa os grandiosos acontecimentos históricos do terceiro período, de 1905 em diante. A história confirmou essas palavras de Lenin, e dirigidas por Partidos Comunistas em outubro de 1917 e de 1949 triunfaram, respectivamente, as Grandes Revoluções Russa e Chinesa. Os acontecimentos que se seguiram à revolução democrático-burguesa derrotada na Rússia em 1905 (ou seja, as lutas revolucionárias na Turquia, no Irã e na China) foram expressões na luta de classes do fenômeno econômico sistematizado por Lenin em 1916, que é o desenvolvimento do capitalismo em seu estágio último e superior: o imperialismo.

O período de 1872 a 1904 foi “relativamente pacífico”, e destaquemos as aspas. Era um período de preparação para as batalhas futuras, de desenvolvimento das bases da concepção do partido de novo tipo. O fato de neste período ter se formado a primeira expressão do revisionismo, especificamente na social-democracia alemã, não pode nos obscurecer as vistas e nos impedir de tirar as grandiosas lições que o proletariado teve nesse momento. Trata-se de um período de extremos paradoxos: combinação, por um lado, de uma grande expansão capitalista, sobretudo na Alemanha e no USA, e de extensão das liberdades democráticas burguesas ao proletariado, de consolidação do sufrágio universal e dos parlamentos nacionais; e, por outro lado, intensifica-se a repressão ao movimento revolucionário, de onde destaca-se a aprovação da Lei Anti-Socialista na Alemanha, que empurrou à ilegalidade, de 1878 a 1890, o Partido Operário Social-Democrata. Esta Lei tornava ilegal o Partido, a imprensa socialista e as organizações sindicais, enquanto permitia as candidaturas ao parlamento dos membros deste mesmo Partido. O Estado alemão, no qual se combinavam liberdades aparentes e o incremento repressivo, foi assim caracterizado por Marx, em 1875:

“(...) um Estado que não passa de um despotismo militar de arcabouço burocrático e blindagem policial, guarnecido por formas parlamentares, de mistura de ingredientes feudais e já influenciado pela burguesia (...).” (Karl Marx, Crítica ao Programa de Gotha).

Se, especialmente na Alemanha, este período estava repleto dessas contradições, na Rússia czarista a situação era bem clara: despotismo monárquico, ausência de eleições e de um parlamento. Por outro lado, grandes transformações econômicas também gestavam-se no Império Russo, particularmente com o decreto de fim da servidão, em 1861. Era o desenvolvimento irrefreável do capitalismo naquele país, o que, inevitavelmente, provocaria a crise na monarquia czarista e em seu Estado autocrático.

Mas é importante ver, como Lenin aponta, que este segundo período não foi um período de lutas massivas, abertas e violentas, diferentemente de 1848-1871, que foi um período marcado por insurreições populares em todos os países da Europa Ocidental, por guerras civis como em 1848, como a Comuna de Paris em 1871, a guerra civil no USA de 1864-18652, e até por guerras entre potências europeias como a Franco-Prussiana3 (1870-1871). Já após 1872, na Inglaterra, França e Alemanha consolida-se o sufrágio universal (masculino) e a formação de parlamentos nacionais. Essa estabilidade estava repleta de contradições em crescente antagonismo que iriam se manifestar alguns anos depois na I Guerra Mundial (1914-1918) e, sobretudo, na Grande Revolução Socialista de Outubro (1917).

Por isto, esse segundo período (1872-1904) foi o limiar de uma época na qual também atuaram os fundadores do comunismo, Marx e Engels, e cuja atuação foi decisiva para criação das condições subjetivas para a Revolução Proletária. Será da experiência política da social-democracia alemã e da luta de duas linhas de Marx e Engels contra as posições socialistas pequeno-burguesas que o camarada Lenin irá se apoiar para fundamentar os elementos políticos da sua teoria do partido de novo tipo. A concepção leninista do Partido bolchevique já aparece em sua forma teórica completa na grande obra Que fazer?, escrita ainda em 1902. Estava ali sistematizada toda a formulação de Lenin sobre um partido cujo objetivo era realizar a propaganda política revolucionária e não apenas a política sindicalista; de que o mais importante a se forjar no proletariado era a consciência política da necessidade da luta pelo Poder como questão principal e não de uma luta econômica de resistência sindical. Todos esses aspectos Lenin pôde extrair da experiência da social-democracia alemã, particularmente da direção de August Bebel, sob o comando de Marx e Engels.

Marx (1818-1883) e Engels (1820-1895) dedicaram seus últimos anos, principalmente, a levar a luta de duas linhas com a direção social-democrata alemã sobre diferentes aspectos da construção do partido e procuraram aportar contribuições para a compreensão das contradições econômicas e políticas na Rússia. Isto porque, o centro do movimento operário que, antes a 1848, esteve na Inglaterra, passando depois à França até 1871, à Alemanha até 1905, deslocara-se para a Rússia.

II. Marx e perspectivas para a Rússia

Depois do Congresso de Haia da I Internacional (1872), as condições de saúde do grande Karl Marx pioraram gradativamente. Por isso a sua atuação direta no MCI se restringiu, principalmente, aos trabalhos de elaboração teórica; afinal, estava pendente e era extremamente aguardada a publicação da parte restante de O Capital. A elaboração do material de todo o Livro Primeiro, bem como da maior parte dos Livros Segundo e Terceiro se completaram no ano de 1865. No entanto, de 1873 a 1883, Karl Marx deu continuidade a uma série de estudos complementares para enriquecer a parte restante de sua obra principal. Como Engels afirma, no Prefácio do Livro Terceiro de O Capital, durante a década de 1870 e 1880, a atenção de Marx se voltou prioritariamente para a situação da Rússia. Na década de 1860, como vimos nas partes anteriores de nosso artigo, Marx já havia dedicado parte importante de seus estudos à situação da Rússia, para isso aprendeu o idioma russo e pôde ler em fonte direta os autores democráticos e a copiosa literatura populista4.

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Engels aponta no referido Prefácio ao Livro Terceiro que:

“Dada a variedade das formas de propriedade fundiária e de exploração dos trabalhadores agrícolas na Rússia, cabia a esse país desempenhar, na parte relativa à renda fundiária, o mesmo papel que, no Livro Primeiro, a Inglaterra desempenha no tocante ao trabalho assalariado industrial. Infelizmente, não foi possível a Marx executar esse plano.” (Engels, Prefácio ao Livro Terceiro de O Capital).

Esse plano, no entanto, seria cumprido por um admirável jovem marxista russo, Vladimir Lenin que, em 1899, escrevera a grande obra O desenvolvimento do capitalismo na Rússia, aplicando de maneira criadora o marxismo na “análise concreta da situação concreta” daquele país. Essa obra de Lenin obviamente estava fundamentada tanto nas conclusões do Livro Terceiro, como numa série de artigos de Marx e Engels sobre a Rússia, que haviam sido publicados justamente nos últimos dez anos de vida de Marx.

Excetuando a Crítica ao Programa de Gotha (1875), que trataremos à parte, as últimas obras de Marx elaboradas para publicação neste período tratam do problema da revolução na Rússia. São elas: aCarta à Redação da revista Notas Patrióticas (1877) e o Prefácio à edição russa do Manifesto do Partido Comunista (1882). Além dessas obras, um texto que ficou durante longo tempo sem publicação, mas que nos ajuda a compreender mais a fundo as ideias de Marx sobre a questão agrária e camponesa na Rússia, é a Carta à Vera Zasulitch5, de 1881, bem como os esboços preservados da mesma.

Em todas essas obras, Marx dá continuidade à luta de duas linhas contra as ideias populistas. O populismo russo pode ser considerado uma variante do socialismo pequeno-burguês, mas diferentemente das posições de Proudhon, Lassalle e Bakunin, os populistas destacam a importância do campesinato na revolução socialista. O problema da posição populista, segundo nos aponta Marx, é que ela idealizava o papel do campesinato russo e não admitia a condição do proletariado como a classe mais avançada da história e, portanto, classe dirigente do processo revolucionário. As posições populistas defendiam que a comuna rural russa, uma forma remanescente de posse coletiva da terra, poderia impedir o desenvolvimento do capitalismo na Rússia, abreviando, assim, o caminho revolucionário. Marx e Engels estudaram a fundo essa questão.

Em sua Carta à Redação, Marx polemiza com o teórico populista Michailovski, que deturpa as conclusões do Livro Primeiro de O Capital. Em sua carta, Marx afirma que a forma por ele analisada da expropriação camponesa, no capítulo Acumulação primitiva, não servia como modelo para o desenvolvimento do capitalismo em todos os países; era, portanto, o exemplo histórico de como tal fenômeno havia se dado, pela primeira vez na história, na Inglaterra. Uma das particularidades do desenvolvimento do capitalismo na Rússia, segundo Marx, é que essa expropriação estava em curso num período histórico no qual a revolução proletária avançava firmemente na Europa Ocidental. Seria, portanto, o desenvolvimento da revolução proletária, como afirmara Marx no Prefácio ao Manifesto, que determinaria o papel que a comuna camponesa poderia cumprir na revolução russa.

Marx decidiu não enviar essa carta à redação da revista Notas Patrióticas, pois acreditava que sua publicação colocaria em risco a existência da revista, afinal, poderia servir de pretexto para que o regime czarista proibisse sua circulação. No entanto, a Carta à Redação foi traduzida para o russo e circulou amplamente nos grupos embrionários da social-democracia russa, cumprindo um importante papel na elaboração do pensamento guia desta revolução. O camarada Lenin, em uma de suas primeiras obras, Quem são os “amigos do povo” e como lutam contra os social-democratas, publicada em 1894, polemiza com o mesmo autor populista, Michailovski, contra quem Marx escreveu sua carta.

O Prefácio à edição russa do Manifesto Comunista, de 1882, é o último texto publicado em vida por Karl Marx e tanto o seu conteúdo quanto o contexto de sua publicação lhe conferem grande significado. Um ano antes, no dia 1º de março, Alexandre II, imperador da Rússia, fora justiçado em uma ação armada revolucionária da organização populista Vontade do Povo. Esse foi, ao mesmo tempo, o ponto máximo da estratégia militar dos populistas e o seu limite. A crise estratégica enfrentada por essa corrente, bem como o impacto desta edição do Manifesto e do referido prefácio, impulsionaram, em 1883, a fundação da primeira organização de orientação marxista na Rússia, o grupo Emancipação do Trabalho, dirigido por Plekhanov.

O Prefácio à edição russa do Manifesto Comunista, assinado por Marx e Engels, além de conter em perspectiva a visão de que o centro da revolução se deslocava da Alemanha para a Rússia, continha ao menos dois outros aspectos fundamentais: o destaque da importância das ações armadas e o papel que o campesinato russo estava destinado a cumprir naquela revolução. Vejamos:

“O limitado campo do movimento daquele tempo (dezembro de 1847) está expresso na última parte do Manifesto: a posição dos comunistas em relação aos vários partidos de oposição nos diferentes países. (...) Que diferença hoje! Foi justamente a imigração europeia que possibilitou à América do Norte a produção agrícola em proporções gigantescas, cuja concorrência está abalando os alicerces da propriedade rural da Europa, tanto a grande quanto a pequena. (...) E a Rússia? Durante a revolução de 1848-1849, a burguesia e os monarcas europeus viam na intervenção russa a única maneira de escapar do proletariado que despertava. O czar foi proclamado chefe da reação europeia. Hoje ele é, em Gatchina [palácio nas cercanias de São Petersburgo], prisioneiro de guerra da revolução, ao passo que a Rússia forma a vanguarda da ação revolucionária na Europa. (...) Na Rússia vemos que, ao lado do florescimento acelerado da velhacaria capitalista e da propriedade burguesa que começa a desenvolver-se, mais da metade das terras é posse coletiva dos camponeses. O problema agora é: poderia a comuna rural russa, forma já muito deteriorada da antiga posse em comum da terra, transformar-se diretamente na propriedade comunista? (...) Hoje em dia, a única resposta possível é a seguinte: se a revolução russa constituir-se no sinal para a revolução proletária no Ocidente, de modo que uma complemente a outra, a atual propriedade comum da terra na Rússia poderá servir de ponto de partida para uma evolução comunista.” (Marx e Engels, Prefácio à segunda edição russa do Manifesto do Partido Comunista).

Quanto ao primeiro aspecto, vejamos a apreciação positiva de Marx diante da execução do czar Alexandre II, pois é isso que podemos ver em sua caracterização à condição de seu sucessor, Alexandre III, como um prisioneiro de guerra em seu próprio palácio, temeroso quanto à ação dos revolucionários russos. Além disso, Marx destaca que “a Rússia forma a vanguarda da ação revolucionária na Europa”. Claro que, com isso, apesar de seu reconhecimento do relevo do movimento revolucionário na Rússia, Marx não estava se pondo plenamente de acordo com a tática do terror individual dos populistas. Como está exposto em partes anteriores de nosso artigo, vimos quantas lutas de duas linhas Marx travou contra os desvios blanquistas, tanto na França como no próprio seio da Liga dos Comunistas. O que Marx destaca é a importância da ação revolucionária, pois sem ela não é possível a revolução. A social-democracia russa, sua fração menchevique, liderada por Plekhanov, por exemplo, ao romper com o populismo, abandonaria toda a experiência acumulada pela tradição revolucionária russa. O camarada Lenin, ao contrário, partirá desta experiência concreta, reelaborando-a e corrigindo-a sob uma perspectiva proletária para, juntamente com a experiência da social-democracia alemã, forjar a teoria do Partido de novo tipo: organização de vanguarda centralizada, clandestina, disciplinada, de combate e composta por profissionais da revolução. Lenin, em sua obra Que herança renunciamos?, trata justamente do que deveria ser abandonado da experiência populista e defende preservar exatamente a herança positiva destacada por Marx neste prefácio.

Quanto à questão camponesa, enfatizada por Marx na caracterização do problema da comuna rural russa,  também teve seus desdobramentos confirmados na Grande Revolução Socialista de Outubro. O camarada Lenin, diferentemente dos mencheviques que degeneraram para uma posição economicista e sindicaleira supostamente “centrada na classe operária”, seguiu os apontamentos de Marx. Os bolcheviques sempre fizeram sua agitação e propaganda revolucionárias entre os camponeses: basta recordar o exemplo dado por Lenin em Que fazer?, da importância da imprensa comunista tratar dos zemtvos, que eram órgãos estatais encarregados da administração pública nas regiões onde predominavam as comunas rurais. Em outubro de 1917, o segundo decreto do governo revolucionário, chefiado por Lenin, definia a “nacionalização da terra”. Essa medida atendia de imediato a todos os camponeses pobres e médios da Rússia e, em parte, baseava-se na existência, ainda que em dissolução, desta forma coletiva de posse da terra do campesinato russo. Com essa medida, o governo socialista assegurava a posse camponesa da terra que estava ameaçada pelo desenvolvimento do capitalismo na Rússia e, ao mesmo tempo, criava as condições para o desenvolvimento do socialismo no campo. Essa definição programática brilhante, estabelecida por Lenin, além do acúmulo do trabalho dos bolcheviques entre os camponeses, dava solução prática aos problemas apontados por Marx e Engels sobre a importância fundamental da aliança operário-camponesa para o triunfo da revolução proletária. Será na Grande Revolução Socialista de Outubro que as verdades marxistas sobre a Rússia serão confirmadas e desenvolvidas.


Notas:

1. A obra O Capital - Crítica da economia política, é composta por quatro livros: o Livro Primeiro: O processo de produção do capital, foi publicado em 1867; o Livro Segundo: O processo de circulação do capital, foi publicado em 1885, por Engels (após a morte de Marx); o Livro Terceiro: O processo global de produção capitalista, foi publicado em 1894, por Engels; o Livro Quarto: Teorias da mais-valia, foi publicado em uma primeira versão nos anos 1905-1910 sob a responsabilidade da social-democracia Alemã e uma segunda versão entre os anos 1954-1961 pelo PCUS.

2. A Guerra de Secessão no USA, na qual lutaram os Unionistas do Norte contra os Confederados do Sul. A principal conquista democrática desta guerra civil foi a abolição da escravidão negra no USA.

3. A Guerra Franco-Prussiana se deu entre o Segundo Império de Napoleão III e o Império Prussiano, de Guilherme IV; a Prússia saiu vitoriosa nesta guerra e seu principal resultado político foi a conclusão da unificação Alemã, hegemonizada pela Prússia, sem a presença da Áustria. Em 1871, no palácio de Versalhes, é proclamada a criação do Império Alemão, que acabaria em 1919, com a criação da República Alemã.

4. O populismo russo foi uma corrente socialista pequeno-burguesa que fundamentalmente defendia que o campesinato da Rússia, constituía a classe mais revolucionária e que os resquícios da propriedade comunal da terra poderiam abreviar o caminho ao comunismo.

5. Vera Zasulitch foi uma revolucionária russa que iniciou sua militância nas fileiras do populismo russo. Posteriormente, tal como Plekhanov, aderiu ao marxismo e, juntamente com ele, fundou a organização socialista Emancipação do Trabalho, e depois participou da fundação do Partido Operário Social-Democrata da Rússia. Na luta de duas linhas aberta no II Congresso do Partido, Vera se colocou contra a Fração Vermelha (bolchevique) de Lenin.

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