‘Terra em transe’ e o crepúsculo da ilusão desenvolvimentista

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Paulo Martins é o arauto agonizante do crepúsculo de uma ilusão, aquele que convoca um giro profundo sobre si mesmo, aquele que clama com urgência por uma guinada às demandas populares, ao abandono do pacto de classe na trama burguesa. Ele é a expressão inequívoca da fundamental autocrítica face aos projetos políticos encampados por sua fração de classe, a burguesia liberal progressista que depositou as fichas de seu projeto de alavancagem nacional aos modos de um capitalismo burocrático de Estado. E, de repente, o susto e a agonia, uma vez, a perda da ilusão. Ele exige dos companheiros a viragem de conduta como dever histórico.

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No filme de Glauber Rocha destaca-se a impossibilidade da transformação da Nação por vias institucionais
No filme de Glauber Rocha destaca-se a impossibilidade da transformação da Nação por vias institucionais

Sem que necessariamente o diga, Paulo Martins deplora o choro copioso e ramerrão dos que insistem em requentar o cadáver insepulto de um projeto nacional firmado sobre a conciliação de classes em que as baquetas do protagonismo estão às mãos da burguesia local. Paulo Martins exerce o trabalho imprescindível de rasgar e pisotear os lenços encharcados das viúvas de plantão. A ele cabe a consciência de um tempo cindido.

Está-se em Eldorado, país interior, oceânico, em meio à convulsão sísmica que ameaça tomar de arrasto instituições e pactos de coalizão; atores políticos, organizações de classe e setores desorganizados da chamada sociedade civil, assim como governos de turno com seus mandatários descartados uma vez que já não servem ao equilíbrio provisório (e suposto promissor) da paz social firmada pelo contrato que alicerça o Estado democrático de direito burguês.

Dom Porfírio Diaz, tomado por um ímpeto bonapartista, autoriza o deslocamento de tropas federais na direção da província de Alecrim no intento de exigir a rendição incondicional de Vieira, governador da Província. Vieira irá resistir? Irá convocar as massas que sustentam as plataformas e pautas de seu mandato? Glauber Rocha, diretor do filme, não tardará sequer dez minutos para nos lançar aos olhos da atenção à pronta resposta de sua personagem populista. Vieira – tal como Juan Domingo Perón (em 1955) e João Goulart (em 1964), ou outros de ainda há pouco (em condição bastante mais amesquinhada) – evocará os riscos inevitáveis da resistência sob o pretexto do derramamento do sangue2. Vieira qualifica de sagrado o sangue das massas para que se possa incorrer nos riscos de uma guerra fratricida entre inocentes. O arremate simbólico de sua rendição prenunciada se fará sob o seguinte enunciado: “Nossa aventura acabou!”. Curiosa a conclusiva.

Nestes primeiros dez minutos do filme de 1967, Terra em transe, a trama histórica por sobre a qual transcorre a peça alegórica de Glauber parece estar resolvida – ainda que Paulo Martins, poeta, jornalista e militante, e um dos principais quadros de sustentação da candidatura de Vieira, contraponha-se a ele em altos brados de que “é necessário ir até o fim”, e que sequer se trata de um jogo de partes em que às metades em disputa possa ser imputada a condição de inocência. Paulo interpela Vieira: “Quem são os inocentes?”.

Paulo Martins se pergunta: “Onde estão os inocentes?” – ou será que havia aqueles que estivessem equidistantes e indiferentes ao seu tempo histórico e sua inevitável tessitura dos fatos?! Paulo Martins ainda argumentará a Vieira que a resistência será o “começo de nossa história” para além dos arremedos conciliatórios depositados à sorte de ilusionistas e de pelegos de distintos matizes. Vejamos as palavras gritadas por Paulo: “Não se muda a história com lágrimas. Gente como nós, burgueses, fracos... Não é mais possível esta festa de medalhas, este feliz aparato de glórias, esta esperança dourada nos planaltos, não é mais possível este aparato de bandeiras com guerras e Cristo na mesma posição, não é mais possível a ingenuidade da fé, a impotência da fé”. E Paulo será morto pelos agentes da repressão de Eldorado, país prestes a ser tomado de assalto por um golpe de Estado.

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