Encontro de Pedagogia combativo e independente organiza resistência aos ataques à Educação

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De 22 a 26 de julho ocorreu o 39° Encontro Nacional de Estudantes de Pedagogia (ENEPe), reunindo cerca de 600 estudantes, ativistas de movimentos populares e trabalhadores de todo o país na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), periferia de Guarulhos. O encontro levantou a defesa da autonomia universitária, liberdade de cátedra e co-governo estudantil. Além de deliberar um Plano de Lutas, os estudantes, sob direção da Executiva Nacional dos Estudantes de Pedagogia (ExNEPe), também promoveram um grandioso ato para demarcar e impor suas reivindicações como parte da Greve Geral de Resistência Nacional.

Executiva Nacional dos Estudantes de Pedagogia
39° Encontro Nacional de Estudantes de Pedagogia (ENEPe) - foto: Executiva Nacional dos Estudantes de Pedagogia
Centenas de estudantes organizam resistência aos ataques contra a Educação Pública

O evento traça um longo e importante histórico de luta no movimento estudantil, pois a Pedagogia foi o primeiro curso a romper com a União Nacional dos Estudantes (UNE), em 2004, demarcando, a partir daí, um caminho honesto e combativo. Por isso, em cada estudante se expressava a vontade e a determinação em palavras de ordem como: A ExNEPe é pra lutar! O imobilismo não vai nos segurar!

Ao fim do encontro, foi aprovado um Plano de Lutas a ser seguido pelo movimento estudantil. Nele ficou determinada, principalmente, a responsabilidade que tem o movimento estudantil de impulsionar a Greve Geral de Resistência Nacional por tempo indeterminado no Brasil. Além disso, o Plano coloca que se deve lutar contra qualquer forma de intervenção nas universidades e contra qualquer cobrança de taxas no ensino superior; pontua a urgência de se rejeitar e barrar o projeto “Future-se” e, sobretudo, “impulsionar uma grande onda de greve de ocupações no país inteiro nas Instituições de Ensino Superior contra todos os ataques à gratuidade, democracia e autonomia Universitária e os projetos privatistas”.

Também foram aprovadas as moções políticas do 39° ENEPe, cravando veementemente o repúdio a “todos os ataques” feitos pelo governo de Bolsonaro e dos generais, que “busca aplicar uma política obscurantista para as Instituições de Ensino Superior” e que ferem os princípios da autonomia universitária. Além disso, as moções prestaram solidariedade às vítimas que sofreram violência e opressão por parte do velho Estado, como o episódio dos camponeses de Miravânia, que foram despejados e “todos aqueles que lutam pelo sagrado direito à terra para quem nela vive e trabalha”.

Organização e envolvimento

Pautadas no princípio do coletivismo, todas as pessoas presentes atuaram para o pleno funcionamento do evento. Os estudantes tomaram a dianteira na limpeza do campus, na organização das atividades e das refeições, tudo por meio de comissões. Os funcionários da limpeza da Unifesp, que estavam apreensivos com o trabalho que as centenas de visitantes dariam, disseram estar surpresos e contentes, pois a comissão da limpeza, entendendo que sua responsabilidade era de caráter político, havia deixado os banheiros e áreas comuns limpas e organizadas.

Executiva Nacional dos Estudantes de Pedagogia
39° Encontro Nacional de Estudantes de Pedagogia (ENEPe) - foto: Executiva Nacional dos Estudantes de Pedagogia
Debates contaram com participação de Igor Mendes (foto), Vladimir Safatle e de representante da Liga dos Camponeses Pobres

No total, foram ao Encontro delegações de 24 estados, sendo que algumas contaram com grupos de diversas regiões do estado. Desde a alvorada do dia 22, os grupos de todo o Brasil chegavam cheios de entusiasmo na universidade, cantando músicas como Bandeira da Revolução, conversando e se conhecendo. Logo após o café, realizou-se a primeira atividade do Encontro, a saudação às delegações, em que elas se apresentaram e fizeram falas de exaltação ao evento e agitação aos presentes. Com discursos contundentes sobre a importância de estarem ali, em meio do atual momento político, compartilharam com os outros estudantes o esforço e a dificuldade com que haviam conquistado sua ida ao encontro.

Todos enfatizaram a prática da autossustentação, por meio da qual arrecadaram o valor da viagem até o encontro por meio da realização de bazares, venda de doces e comidas, além da ajuda de professores e tantas outras formas de arrecadação. Em quase todas as falas, os estudantes denunciaram perseguições e sabotagens que sofreram e enfrentaram por se manterem firmes em uma linha independente.

Em todos os dias do evento, mesmo tendo que acordar cedo para assistir às mesas que começavam por volta das 8h da manhã, o auditório se encontrava sempre cheio. E, após um dia inteiro de discussões e palestras, ainda sobrava energia para as atividades culturais, que aconteceram todas as noites com a participação do grupo de rap combativo Ameaça Vermelha, bem como de um conjunto de samba de bumbo, tradicional do estado de São Paulo, e dos próprios jovens presentes. Em uma das noites, por exemplo, um grupo de jovens da zona leste de São Paulo se apresentou e entusiasmou tanto os presentes.

Já no primeiro dia do evento foi realizada a mesa sobre “As jornadas de Junho de 2013 e o novo ciclo de luta de classes no Brasil”. Nela intervieram o ativista e perseguido político, Igor Mendes, uma dirigente da Liga dos Camponeses Pobres (LCP) e o professor da Universidade de São Paulo (USP) e filósofo, Vladimir Safatle. Todos, concentrados e atentos, vibraram com as falas e estremeceram o auditório lotado de estudantes.

Igor Mendes, em sua intervenção, assinalou as jornadas daquele ano como um ponto de ruptura entre os que representam a velha democracia e o caminho oportunista, “aqueles condenados a perder”, aqueles a quem só resta lamentar-se; e os que trilham o caminho da luta combativa e revolucionária, por uma Nova Democracia, “os condenados a triunfar”.

O ativista comparou ainda a juventude presente com “os republicanos radicais que lutaram na era da monarquia, esses que eram chamados de ‘loucos’, que pagaram com a prisão e com a vida pela luta condenada a triunfar!”. E acrescentou: “Hoje, a monarquia não é nem digna de raiva, damos risada dela por ser um sistema tão ridículo”.

O professor Vladimir Safatle, que estava em um Congresso na Alemanha e fez uma intervenção via internet, expôs o ataque às universidades e aos cursos de ciências humanas pelo governo do fascista Bolsonaro e dos generais direitistas. E declarou: “A Universidade perdeu seu lugar, pois deixou de ser um problema”, referindo-se aos anos de gerenciamento do oportunismo e do imobilismo nas universidades brasileiras, que teriam virado “guetos de luxo”.

A representante da LCP foi recebida com muito entusiasmo e respeito, aplaudida contundentemente quando demarcou que as lutas populares de 2013 defendiam a terra para o camponês, uma educação de qualidade e uma saúde pública eficiente, dentre outros direitos pisoteados. Foi acompanhada pelas massas de estudantes, que entoaram: É terra a quem nela trabalha, e viva agora e já a Revolução Agrária! É morte ao latifundiário, e viva o poder camponês e operário! No fim de seu discurso, ela leu o poema Os homens da terra, de Vinicius de Moraes, que é escrito a partir da perspectiva de camponeses, declarando sua indignação contra o latifúndio.

No segundo dia de evento, aconteceu a mesa de “Luta por democracia nas escolas públicas brasileiras e as ocupações estudantis”, composta pelos professores Marcos Cesar, da Unifesp; Maria Neide Silva Morais, da escola Liberdade, do Pará; e por uma liderança das ocupações estudantis em São Paulo. A mesa discutiu o legado das personalidades que contribuíram para o desenvolvimento da educação pública no Brasil, ao que o professor Marcos Cesar citou personalidades democráticas como Anísio Teixeira e Darcy Ribeiro e suas tentativas de levar escolas às favelas e ao campo.

Executiva Nacional dos Estudantes de Pedagogia
39° Encontro Nacional de Estudantes de Pedagogia (ENEPe) - foto: Executiva Nacional dos Estudantes de Pedagogia
Debates contaram com participação de Igor Mendes, Vladimir Safatle e de representante da Liga dos Camponeses Pobres

Comemorou-se também, ao final da mesa, a grande onda nacional de ocupações secundaristas no período de 2015 e 2016 e a importância da utilização da ocupação como forma de barrar os ataques à educação que acontecem em grande escala atualmente. Se expôs o alto nível de comprometimento e organização dos secundaristas dentro das ocupações, a tentativa de desmobilização deles pelo oportunismo, e a enorme resistência e coragem dos estudantes contra a imensa repressão policial, que atacava secundaristas das formas mais violentas e covardes possíveis. Frisou-se o importante acúmulo de conhecimento sobre organização e luta com as ocupações, levado adiante pelos estudantes secundaristas que, hoje em dia, são estudantes universitários combativos.

Durante todo o evento, ficou claro tanto pelo conteúdo das discussões, quanto pela disciplina e incansável participação e organização dos estudantes, que a ExNEPe segue trilhando de forma correta o caminho da luta revolucionária. Ao romper com o imobilismo e se propor a coordenar, de forma independente e combativa, um Plano de Lutas e moções políticas consequentes para o movimento estudantil, produziu um verdadeiro salto político de qualidade, não apenas para os estudantes da pedagogia, mas para os de todos os cursos.

Vitorioso ato político

No quarto dia do encontro, os estudantes fizeram do Pimentas, bairro da periferia de Guarulhos onde localiza-se a Unifesp, o palco de uma grande manifestação. Os estudantes demonstraram a combatividade do evento e a insatisfação de todos presentes com os ataques aos trabalhadores, camponeses, estudantes e juventude promovidos incessantemente pelo fascista Bolsonaro, tutelado pelo Alto Comando das Forças Armadas.

Os estudantes se concentraram na entrada da Unifesp e marcharam pelas ruas, entoando palavras de ordem, tocando bumbos e tambores e hasteando bandeiras. Dentre os movimentos presentes estavam a ExNEPe, o Movimento Estudantil Popular Revolucionário (MEPR), a Unidade Vermelha – Liga da Juventude Revolucionária  (UV-LJR), Alvorada do Povo (AP), o Movimento Fagulha e as Brigadas Populares. No mesmo dia, horas antes, os estudantes haviam realizado uma assembleia na qual se deliberou democraticamente qual seria o conteúdo do ato.

Logo após, o grupo saiu às ruas, entregando panfletos e explicando às massas de trabalhadores a intenção daquela manifestação, sobre a luta contra a privatização do ensino público, contra a “reforma da Previdência” e pela Greve Geral de Resistência Nacional. Ao chegarem a um terminal de ônibus, onde se concentrava um grande número de trabalhadores voltando para suas casas, os estudantes entoaram palavras de ordem como: Trabalhador, pode se rebelar! Por essa crise você não tem que pagar! e Se você paga, não deveria, educação não é mercadoria!


Reforma de Córdoba de 1918

A conquista do co-governo estudantil 101 anos depois

Em 1918, a Universidade de Córdoba, na Argentina, transformou-se no epicentro de uma insurgência mobilizada por estudantes que, revoltados com a falta de democracia no ambiente universitário, levantaram-se sob a insígnia das bandeiras da autonomia, liberdade de cátedra e do co-governo estudantil. A rebelião cordobense mudou para sempre não só a estrutura e os parâmetros da universidade latino-americana, que até então estava afundada nos resquícios medievais e no obscurantismo clerical, como também plantou as sementes do movimento estudantil e sua forma de se organizar.

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Até então, a Universidade de Córdoba era controlada pelos jesuítas (por mais de três séculos) que atuavam como tiranos na administração da universidade e asfixiavam o ambiente acadêmico com um conservadorismo anacrônico. Apesar da causa imediata ter sido o fechamento do Hospital Universitário, motivos para a rebelião existiam vários: os jesuítas intervinham no conteúdo ensinado e nos métodos utilizados, impedindo a ciência de avançar e se atualizar; os professores e funcionários eram nomeados sem se realizar qualquer forma de concurso ou prova de habilitação, por entidades ligadas ao clero, conservando a velha e decadente universidade chafurdada no servilismo, entre outros. Como o próprio Manifesto dos estudantes cordobeses afirmava: “Por isso a ciência, frente a estas casas mudas e fechadas, passa silenciosa ou entra mutilada e grotesca para o serviço burocrático”.

Com uma greve estudantil generalizada e ocupação do prédio da universidade, o movimento estudantil demandava sua participação na estrutura administrativa da universidade, como forma de garantir o co-governo; cátedras livres, com um ensino crítico e livre; autonomia universitária para além de, simplesmente, autonomia financeira; extensões universitárias para atuar além dos muros do campus; assistência social aos estudantes e, sobretudo, uma universidade mais democrática e aberta ao povo. Logo depois, funda-se a Federação Universitária Argentina e, em seguida, ocorre o primeiro Congresso de Estudantes Argentinos.

A reforma vem posteriormente, aprovando a maioria de suas pautas como produto da rebelião combativa dos estudantes, um resultado quase que inevitável. Anos depois, em 1953, conquistou-se ainda a extinção do vestibular, tornando livre o ingresso no ensino superior, consequência das reverberações da revolta estudantil que continuaram a ecoar. Exemplos para todos os estudantes de posição democrática até hoje, os jovens de Córdoba afirmaram em manifesto após conseguirem aprovar as reformas: “Hoje amanhecemos com uma vergonha a menos e uma liberdade a mais, as dores que ainda temos são as liberdades que nos faltam”.

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