Witzel assassino declara guerra aos pobres

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PM mata oito jovens em cinco dias

Nos últimos dias deste mês, o genocídio contra o povo pobre que habita as favelas e bairros proletários do Rio de Janeiro tem ganhado contornos cada vez mais bárbaros, transformando-se em uma verdadeira carnificina cotidiana. Todos os dias, milhões de trabalhadores têm acordado ao som de tiros e enfrentado um verdadeiro caos para entrar e sair dos territórios onde vivem. Operações policiais pautadas pelo total desprezo à vida desses trabalhadores e suas famílias têm produzido pilhas de corpos, na sua maioria de jovens favelados, que têm suas vidas e sonhos interrompidos pela sanha genocida dos gerenciamentos de turno, encabeçados por Witzel e Bolsonaro (tutelado pelo Alto Comando das Forças Armadas). Diariamente, o noticiário é infestado de verborragia desses falastrões endossando o massacre e encorajando suas tropas de assassinos a incrementarem a violência contra o povo, doa a quem doer.

Guilherme Pinto
Fabrício, pai do jovem Gabriel, segurando a camisa do filho manchada de sangue (foto: Guilherme Pinto)
Fabrício, pai do jovem Gabriel, segurando a camisa do filho manchada de sangue

No entanto, no mês de agosto, o povo ensaiou sua revolta, bloqueando ruas, erguendo barricadas e rechaçando Witzel em eventos oficiais e até em compromissos acadêmicos do gerente estadual e declarado inimigo do povo. Isso porque, nesse mesmo período, o assassinato de jovens em operações policiais se tornou corriqueiro e todo dia no Rio de Janeiro se contabiliza uma nova vítima. Em uma semana, ao menos oito pessoas foram mortas em diferentes partes da capital e região metropolitana, causando comoção e revolta da população carioca.

No dia 9 de agosto, a rebelião popular começou a se desenhar após a morte do jovem Gabriel Pereira Alves, de 18 anos. Ele esperava o ônibus em um ponto ao lado do Morro do Borel quando a polícia iniciou uma operação na favela. Um disparo atingiu o jovem em cheio na barriga e, mesmo socorrido por amigos, o jovem não resistiu, morrendo antes mesmo de chegar ao hospital. Revoltados, moradores bloquearam a Rua Conde de Bonfim no local onde o rapaz foi baleado. A Polícia Militar (PM) atacou manifestantes com bombas de gás lacrimogêneo e efeito moral. Três dias depois, um novo protesto bloqueou várias ruas da Tijuca em repúdio à ação da polícia no Morro do Borel que resultou na morte do jovem Gabriel. Ele estudava no Colégio Estadual Herbert de Souza e estava a caminho da escola quando foi baleado. Dois dias depois, em seu sepultamento, no Cemitério da Penitência, bairro do Caju, o pai do rapaz, Fabrício Alves, desabafou.

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Vítimas das operações assassinas da polícia: Gabriel Alves, Henrico de Jesus e Dyogo Coutinho
Vítimas das operações assassinas da polícia: Gabriel Alves, Henrico de Jesus e Dyogo Coutinho

“Eu não tenho o direito de saber qual foi a arma, qual foi o projétil que atingiu o meu filho. Cadê os nossos governantes? Só peço que cuidem das nossas crianças, que passe a olhar um pouco para a nossa comunidade, porque não é possível que todo mundo que está aqui seja de uma má índole, elas representam o meu filho. Eu pago meus impostos, trabalho praticamente há 20 anos no mercado, acordo 6 horas da manhã, para cuidar dos meus filhos. Toda a preocupação que tive com meu filho, eu ligava para saber se ele já tinha chegado do futebol, com quem ele estava, para qual festa ele estava indo. Eu sinto que esses 20 anos estão sendo em vão”, lamentou o pai, que fez aniversário no dia do assassinato do filho, ao jornal O Globo.

No dia seguinte (11), em Niterói, região metropolitana do Rio, o jovem Dyogo Coutinho, de 16 anos, saía de casa na Favela da Grota, para jogar uma partida de futebol, quando foi surpreendido pela chegada da polícia em um dos acessos à favela. De acordo com testemunhas, PMs teriam disparado e acertado Dyogo na barriga. O garoto foi socorrido pelo avô, que é motorista de ônibus e utilizou o coletivo que dirige para levar o neto ao hospital. Infelizmente, o rapaz não resistiu aos ferimentos e morreu no final da tarde. Moradores também se revoltaram e chegaram a incendiar um ônibus. Mais uma vez a polícia atacou manifestantes com gás e foi respondida com pedras e garrafas. Um dos PMs teria disparado contra manifestantes desarmados, atingindo o jovem Renan da Silva Lima, de 18 anos. Baleado em um dos braços, ele foi levado para o Hospital Estadual Azevedo Reis e passa bem.

Sobre o assassinato, testemunhas disseram que policiais estavam escondidos em um beco e, assim que o Dyogo passou pelos PMs carregando uma mochila com roupas e uma chuteira, um dos policiais disparou um único tiro na barriga do jovem estudante e jogador de futebol. Ao abrir a bolsa de Dyogo, um dos policiais teria sinalizado negativamente para o atirador num sinal de reprovação. No dia do sepultamento, mais protestos, comoção e revolta. O rapaz foi sepultado no Cemitério São Francisco Xavier, no bairro de Charitas, a menos de um quilômetro de onde o jovem fora assassinado a sangue frio por policiais. A irmã caçula de Dyogo, Sofia Coutinho, de apenas sete anos, fez um discurso emocionado na despedida do irmão.

Revoltados, moradores fecham via em Niterói contra o assassinato de Dyogo
Revoltados, moradores fecham via em Niterói contra o assassinato de Dyogo

“Que cada pessoa que esteja aqui sempre viva bem, que não perca ninguém assim desse jeito. Sempre quando alguém estiver assim bem triste, pega as suas mãozinhas e lava o coração dele”, disse a menina.

“O policial que atirou em meu neto disse que o garoto era traficante. Só que eu não queria saber dele. Eu queria socorrer meu neto. Eu falei para ele: ‘Caramba, meu neto não é traficante. Meu neto estava indo para Edson Passos, para o América Futebol Clube, jogar. Dentro da mochila dele deve ter uma chuteira e uma sandália. Mas já era. Já foi”, disse o avô de Dyogo a veículos do monopólio dos meios de comunicação.

Revoltada, uma multidão de amigos e parentes indignados, saíram do cemitério e bloquearam as pistas da Praia de Charitas no sentido Centro para protestar.

Dois dias depois (11), no município de Magé, na região metropolitana do Rio, o jovem Henrico de Jesus Viegas de Menezes Júnior, de 19 anos, também esperava o ônibus às margens da Favela Terra Nova, bairro Lagoa, onde acontecia desde cedo uma operação da PM. Henrico foi atingido na barriga e socorrido por colegas. Levado para o hospital, o jovem já chegou à unidade sem vida. A PM divulgou nota na qual acusou Henrico de estar armado e que teria trocado tiros com os agentes. No entanto, médicos, enfermeiros do Hospital Municipal de Magé, parentes e amigos do rapaz que o socorreram, disseram que policiais nem ao menos se aproximaram do corpo para checarem contra quem haviam disparado e seguiram disparando a esmo como se nada houvesse acontecido.

A nota da PM incrementou ainda mais a revolta do povo que fechou várias ruas de Magé e seguiu em direção ao Palácio Anchieta, sede da prefeitura. No local, manifestantes foram barrados por seguranças e policiais. Do lado de fora, a massa ateou fogo em pneus e ergueu barricadas. A polícia atacou novamente, dessa vez com bombas de gás lacrimogêneo. Segundo a família do jovem, ele estudava e trabalhava em uma rede de supermercados.

“Um menino educado, do bem, os policiais já entram sem respeitar filho de ninguém. Isso não existe. Eu não quero estar na pele dessa mãe que é mais uma. Só porque é preto, mochila nas costas, pode ser branco, que todo mundo é bandido. Até quando vai isso?”, perguntou uma amiga da família a O Globo, no enterro do jovem que trabalhava como aprendiz comercial em serviços de venda, na filial de uma grande rede de supermercados em Magé.

Menos de 24 horas depois do assassinato de Henrico, três pessoas morreram e um bebê de um ano e nove meses foi baleado em uma operação da PM na comunidade do Quarenta e Oito, em Bangu, zona oeste da capital. Dois dos mortos não tiveram suas identidades divulgadas e a terceira vítima fatal foi Margareth Teixeira, de 17 anos. Ela caminhava pela favela com seu filho no colo quando foi surpreendida por policiais. O bebê foi atingido em um dos pés e não corre risco de vida. Baleada pelo menos três vezes, duas no peito e uma nas costas, Margareth já chegou ao hospital morta. Ela foi sepultada no dia 16, sexta-feira, no cemitério São Francisco Xavier, no Caju. Após o velório, o pai da jovem, Rogério da Costa, de 42 anos, fez duras críticas a Witzel e sua política de extermínio.

“Minha filha estava indo buscar Deus. Estão arrancando um pedaço de mim e ninguém até agora veio fazer um pedido de desculpa. Tiraram ela de mim com uma brutalidade muito grande. Bala perdida é um, dois tiros de raspão no máximo. Vários disparos e perfurações se chamam execução. Peço que o governador reveja a estratégia de invadir as comunidades pensando em matar. Hoje foi minha filha, amanhã será a filha de outro. Eram duas crianças, minha filha está morta e meu neto internado. Clamo por justiça. Só pergunto ao governador: até quando?”, denunciou o pai em depoimento ao jornal O Globo.

No dia seguinte, uma operação da PM na favela do Jacarezinho, zona norte do Rio, terminou com um homem morto, um idoso e um jovem baleado. A vítima fatal não teve sua identidade divulgada; Jean Peixoto Felix, de 23 anos, baleado no abdômen, segue internado no Hospital Salgado Filho (até o fechamento dessa edição) e seu estado de saúde é gravíssimo; e o gari comunitário Jair Oliveira de Farias, de 78 anos, baleados no braço, encontra-se internado na mesma unidade de saúde, porém não corre risco de vida.

No dia 16/08, o jovem torneiro mecânico, José Luiz de Oliveira Filho, de 27 anos, voltava para casa depois de mais um dia de trabalho, quando foi surpreendido por policiais da Unidade da Polícia Pacificadora (UPP) do Complexo do Lins que invadiam o Morro do Gambá disparando a esmo. Um dos tiros teria atingido José Luiz que morreu antes mesmo de chegar ao hospital. Enfurecidos, moradores bloquearam ruas que dão acesso ao Complexo do Lins e ergueram barricadas em protesto pela ação da polícia.

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Em 19/08, ao ser questionado por jornalistas sobre a letalidade das ações policiais, Witzel disse que não irá retroceder em sua política de extermínio que, segundo ele, “está só começando”. O gerente estadual disse ainda que moradores das favelas e bairros pobres que são alvos de operações policiais têm que aprender a se proteger dos tiros, pois as operações vão continuar acontecendo. No dia 20, uma moradora da Cidade de Deus flagrou o momento em que um artefato explosivo, supostamente uma granada, foi atirada de um helicóptero da polícia civil durante uma operação. No dia 12 de agosto, mais de 1.500 cartas e desenhos foram reunidos pela ONG Redes da Maré e entregues a desembargadores do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, junto com uma petição solicitando o reestabelecimento da ação civil pública que regula e restringe as operações policiais na Maré.

“Não gosto do helicóptero porque ele atira para baixo e as pessoas morrem”, dizia uma criança de 10 anos em um dos desenhos entregues aos desembargadores. Porém, ao receber as cartas, o presidente do TJRJ, desembargador Cláudio de Mello Tavares duvidou que as cartas tivessem sido escritas pelas crianças. Em entrevista ao jornal O Globo, ele declarou: “O juiz da causa tem que analisar se aquelas cartas realmente foram feitas pelas crianças, se não foram encomendadas, se não há algo por trás disso, se realmente é a sociedade da Maré que está clamando para que isso pare, para que essa violência pare”.

Segundo dados do instituto de Segurança Pública do Rio, somente nos sete primeiros meses de 2019, a polícia matou 882 pessoas, o maior número dos últimos 17 anos. Além disso, segundo os dados, houve um aumento percentual de 42% no volume de operações, e a letalidade dessas ações aumentou 46% em relação ao mesmo período do ano passado. Na proporção em que avança o massacre, cresce também a revolta das massas, com protestos diários contra essa verdadeira carnificina orquestrada pelos gerentes de turno a frente desse velho e cambaleante Estado brasileiro.


PMs alugam ‘caveirão’ a traficantes

Policiais do 9º Batalhão da PM do Rio foram denunciados pelo Ministério Público Estadual (MPRJ) por associação ao tráfico depois que um veículo blindado da polícia apareceu em fotos de traficantes nas redes sociais. Nas imagens, traficantes varejistas dos morros da Serrinha, Jorge Turco e do Complexo da Pedreira, todos na zona norte do Rio, aparecem portando fuzis ao lado de um dos blindados da PM, conhecido como “caveirão”. Segundo o MP do Rio, os policiais recebiam dinheiro dos traficantes para alertar sobre operações policiais, rondas de delegacias especializadas e até o aluguel de veículos blindados para ataques a favelas dominadas por facções rivais.

A juíza Ana Paula Monte Figueiredo Pena Barros, da Auditoria Militar, acatou a denúncia do MPRJ e determinou o afastamento imediato dos nove agentes. Oito deles vão responder pelos crimes de associação criminosa e corrupção passiva. O nono agente foi denunciado por associação ao tráfico de drogas. A investigação concluiu ainda que além desses nove policiais, outros oito agentes devem ser suspensos pois, segundo a juíza, “expuseram a perigo uma viatura policial”, fazendo referência às imagens publicadas pelos traficantes nas redes sociais.

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