Líder indígena culpa Funai pelos conflitos de terra no noroeste do Mato Grosso

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Há quase três décadas o povo Arara do Rio Guariba espera que o velho Estado reconheça o direito ancestral às suas terras. A morosidade no processo de demarcação tem gerado diversos conflitos, que culminaram no assassinato do indígena Erivelton Tenharin por funcionários da Fundação Nacional do Índio (Funai), em outubro do ano passado. Em entrevista ao jornal A Nova Democracia, a liderança do povo Arara do Rio Guariba, Francisco Arara, fala da demora na demarcação de terras e acusa os representantes da Funai de serem os principais responsáveis pelos conflitos agrários na região.

Gilton Mendes
Cacique denuncia política antipovo da Funai; na foto, crianças Arara no rio Guariba (foto: Gilton Mendes)
Cacique denuncia política antipovo da Funai; na foto, crianças Arara no rio Guariba

AND: Desde quando o senhor luta pela demarcação das terras do povo Arara do Rio Guariba?

Eu tenho 43 anos, e estou na liderança do nosso povo desde 1990, e foi nessa época que começamos a luta real pela demarcação.

AND: Qual o tamanho do território do povo Arara Guariba, e quantas famílias vivem na aldeia atualmente?

O nosso território está localizado na região de Colniza (mais ou menos mil quilômetros de Cuiabá), no noroeste do Mato Grosso, e possui cerca de 280 mil hectares. Atualmente vivem mais de 100 indígenas na aldeia.

AND: E por que a demarcação ainda não foi feita?

A demarcação não foi feita porque Organizações Não Governamentais (ONGs) estrangeiras disseram que há índios isolados na região. Aquilo tudo é uma mentirada, eles estão mostrando coisas de outras aldeias e dizendo que estão nos nossos territórios, por isso a demarcação não saiu. Ninguém nunca viu vestígio de índio isolado por lá. Aquela região nossa está toda cortada por madeireiros, fazendeiros, e para onde entra é estrada, enquanto que a gente nunca ouviu falar de índio isolado. Aquilo tudo é uma fachada, tudo uma mentirada! Então nós queremos provas concretas, que eles mostrem, porque eles estão mostrando coisas de outras aldeias que não existem ali dentro do nosso território. O que eles querem é que a gente desista das nossas terras.

AND: E como a Funai se posiciona a esse respeito? Como é a atuação da Funai na região?

Hoje em dia a Funai não está defendendo e nem protegendo os indígenas. Ela acomodou muito. Se morrer um índio, enterra e pronto. Então essas pessoas que estão nas bases da Funai, como são pessoas sem interesse pelo índio, preocupadas só com os seus salários, acabam fazendo coisa errada. O que vem acontecendo nos estados do Mato Grosso e Rondônia é muita propina.

AND: No ano passado, uma manifestação organizada pelo senhor acabou na morte do indígena Erivelton Tenharin. Qual era o objetivo da manifestação e o que aconteceu naquela noite?

A gente ia fazer uma manifestação dentro do nosso território para trazer melhoria, para trazer o presidente da Funai e demarcar o nosso território. Uma manifestação pacífica, sem violência. Então nós chamamos outras etnias que fazem fronteiras com nós, como os Tenharin, para nos apoiar.

Nós chegamos lá era 9h da noite, a gente estava de carro, estava chovendo bastante, levávamos crianças e idosos para conversar com um senhor chamado Jair Condor, que é representante da base. Então, quando a gente chegou lá, fomos recebidos a tiros. Eles balearam nosso carro, mataram um parente que veio pra nos ajudar e outro ficou ferido. A Funai matou um índio!

AND: Os assassinos foram identificados?

Foram identificados pela Polícia Federal, mas até hoje não foi feito nada!

Eu fui preso na frente da minha família acusado de ter invadido a base da Funai. O Ministério Público me acusou de homicídio qualificado, falou que fui eu que matei o índio, mas a nossa manifestação era pacífica. Todas as denúncias, todos os documentos que nós encaminhamos para o Ministério Público Federal foram arquivados.

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