‘Os policiais usam nossos filhos de escudo’

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No início de setembro, a política genocida do governo Witzel vitimou mais uma criança. Kauê Ribeiro dos Santos, de 12 anos, foi morto com um tiro na cabeça quando voltava para casa, no Morro do Chapadão, zona norte do Rio de Janeiro. A reportagem de AND conversou com a mãe de Kauê e com outras mães, exaustas das operações policiais em horário escolar. Ademais, moradores denunciaram todo tipo de abusos cometidos por Policiais Militares (PMs) durante as ações.

Banco de dados AND
Kauê Ribeiro, de 12 anos, foi brutalmente assassinado pela PM
Kauê Ribeiro, de 12 anos, foi brutalmente assassinado pela PM

— Eu quero justiça para acabar com isso. Porque não sou só eu que estou chorando. Muitas mães aqui e em outras favelas também estão chorando. Eu estou lutando por justiça, para acabar com isso. Meus outros filhos estão perdidos e revoltados sentindo muito a falta do irmão. Até agora quem tem me ajudado são os moradores, outras mães, porque ninguém do Estado veio me procurar para dar uma explicação. Meu filho estava vendendo bala, tadinho — diz a mãe de Maria Cruz Na madrugada de 21 de setembro, a menina Ágatha Félix, de apenas 8 anos, morreu após ser baleada na favela Fazendinha, no Complexo do Alemão, zona norte do Rio de Janeiro. Segundo denúncias de moradores, a Polícia Militar (PM) é responsável pelo assassinato. Testemunhas afirmam que Agatha estava numa Kombi a caminho de sua casa quando foi atingida por um tiro que foi disparado por um policial da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP). O PM teria desconfiado de um homem numa moto e disparou, acertando a criança, que chegou a ser levada ao Hospital Estadual Getúlio Vargas, na Penha, mas não resistiu e veio a falecer. “Quem tem que dar informações é quem deu o tiro nela. Matou uma inocente, uma garota inteligente, estudiosa, Kauê.

Moradores ainda denunciaram outras mortes na mesma operação que vitimou fatalmente o menino Kauê.

— Além dele morreu um senhor, que ficou ferido, mas veio a óbito ontem e um rapaz que eles colocaram em um saobediente, de futuro. Cadê os policiais que fizeram isso? A voz deles é a arma. Não é a família do governador ou do prefeito ou dos policiais que estão chorando, é a minha. Amanhã eles vão pedir desculpas, mas isso não vai trazer minha neta de volta”, disse o avô de Agatha, Ailton Félix, na porta do hospital, segundo a revista Forum. A comunidade fez um ato para protestar contra mais uma morte de inocente vitimada pela guerra civil reacionária [ver página 14]. Outros assassinatos No Alemão, dias antes da morte de Ágatha, em 18/09, uma grande operação de guerra foi realizada, na qual foram mortos pelo menos cinco moradores e sete ficaram feridos. Um dos moradores, Wellens dos Santos, trabalhador de apenas 18 anos, foi morto à facada. O jovem trabalhava como co preto e jogaram dentro do caveirão [veículo blindado da PM]. Eles sempre fazem isso. O “caveirão” para na porta da escola. Não estão nos respeitando. Eles estão usando nossos filhos como escudo. Nossos filhos não são escudo para a polícia. Tem que acabar com mototaxista (trabalho comum nas favelas cariocas). Ele foi baleado no tornozelo e depois esfaqueado de forma brutal durante a operação. Parentes do rapaz o levaram num carrinho de mão para a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do Itararé, mas Wellens não isso. O menino morreu brincando de futebol. É sempre no horário em que as crianças estão na rua, ou indo ou voltando da escola — protesta uma moradora.

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— Quando tem operação eles entram dando tiro. Não te respeitam. Entram na nossa casa e quebram tudo. Se você não tiver nota fiscal das coisas, eles acham que é tudo roubado. Outro dia, três policiais entraram na casa de uma vizinha e simplesmente estupraram ela. Eles acham que a gente mora aqui porque a gente quer. Você acha que a gente quer morar aqui no meio do barro, sem água? Claro que não. A gente mora aqui porque precisa — afirma outra moradora.

— Eles xingam a gente de vagabunda, batem nas crianças. E se eu for falar alguma coisa vão dizer que eu sou mulher de bandido. Eles matam nossas crianças, não matam bandido. O menino estava vendendo bala e levou um tiro na cabeça de fuzil. E ainda roubaram todo o dinheiro do garoto. Quando começa o tiroteio a gente senta no chão e chora. resistiu e morreu. Segundo uma mulher que o acompanhava na UPA, em entrevista ao Extra: “Isso é coisa dos policiais. Não é só porque moramos em comunidades que devemos ser tratados assim. A gente mora aqui porque precisa!”. Quando nossos filhos não estão em casa, a gente sai correndo para a escola para buscá-los, pois nunca se sabe o que pode acontecer — diz.

— Quantas crianças estão morrendo? E estão morrendo com balas de fuzil. E a gente paga por essa bala de fuzil. A gasolina das viaturas somos nós que pagamos. E isso tudo é ordem do governador. Ele vai na televisão, fala que vai matar e mata mesmo. E se não fossem vocês aqui pra nos ouvir, eles iam vir e matar outra pessoa hoje, outra amanhã, outra depois e assim por diante — denuncia outra moradora.

A realidade do Complexo do Chapadão não é diferente no resto do estado do Rio desde o início do gerenciamento Witzel. Segundo dados do próprio Instituto de Segurança Pública, o número de mortes em ações do Estado nas favelas e bairros pobres do Rio aumentou 49% em comparação com o mesmo período de 2018. No último mês de julho, foram registradas 194 mortes; 64 mortes a mais que no mesmo período de 2018, quando 130 pessoas morreram.

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