Povo das favelas protesta contra operações da guerra reacionária

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Pelo menos três favelas foram sacudidas por vigorosos protestos de moradores, cansados de tanta opressão e do ambiente de guerra imposto pelo velho Estado. Esses protestos ocorreram em setembro, dois deles no Chapadão, Complexo do Alemão, Cidade de Deus e Vila Kennedy.

TV Globo
Moradores esvaziaram mais de cinco ônibus e trancaram as vias mais importantes da Cidade de Deus (imagem: TV Globo)
Moradores esvaziaram mais de cinco ônibus e trancaram as vias mais importantes da Cidade de Deus

No Alemão, dia 21/09, 300 pessoas marcharam contra a execução da menina de 8 anos Ágatha Félix, quando voltava da casa de sua avó, em uma kombi. O tiro foi disparado, segundo testemunhas, por policiais. Não havia confronto, ainda segundo moradores. O ato fechou a estrada do Itararé.

Chapadão: moradores rebelam-se

No dia 19/09, os moradores do Complexo do Chapadão (zona norte) atearam fogo em ônibus e em uma barricada de pneus para impedir que militares executassem três jovens, em uma casa. Os rapazes estavam sob cárcere privado na comunidade Gogó da Ema, em Guadalupe, durante uma operação que ocorria em todo o Complexo (em pelo menos quatro bairros).

Para impedir que os jovens fossem executados sumariamente e sem direito de defesa, os moradores foram até a frente da casa e obrigaram os policiais a saírem com os “prisioneiros”. Há relatos também que tiros foram dados próximo a uma creche, colocando a vida de várias crianças em risco.

É comum nessas operações de guerra os policiais, repletos de preconceito, tomarem como “suspeitos” jovens sem absolutamente nenhuma relação com o tráfico varejista de drogas, simplesmente pelo fato de serem pretos ou pela forma como se vestem.

Nove dias antes, também no Chapadão, uma importante manifestação já havia ocorrido em repúdio aos ataques promovidos pelo 41° Batalhão da Polícia Militar (PM) contra a população. Em especial, a manifestação rechaçou o assassinato de Kauê Ribeiro dos Santos, de 12 anos, além de torturas e estupros da PM contra os moradores.

O ato foi marcado por denúncias feitas pelos moradores. Eles passaram de casa em casa convocando a todos para se unirem ao ato, que fechou uma das principais vias de acesso à comunidade. Os manifestantes, principalmente mulheres, não obedeceram às ordens dos policiais de interromper o protesto e entoaram palavras de ordem: Não acabou! Tem que acabar! Eu quero o fim da Polícia Militar!, Witzel assassino!, Chega de chacina, polícia assassina! e outras, a que os policiais revidaram com empurrões e outras agressões.

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Cartazes e faixas com os dizeres Witzel assassino e terrorista! e Rebelar-se é justo! foram erguidos durante a manifestação, que contou com a presença de familiares de Kauê e de movimentos populares. O 41º Batalhão é popularmente conhecido pela extrema violência empregada contra moradores durante as operações de guerra na região.

Kauê foi atingido na cabeça por policiais do 41° Batalhão da PM, no dia 07/09, durante uma operação supostamente destinada a combater o roubo de cargas na região. Kauê vendia balas por conta própria para ajudar na renda familiar, que vive em condições precárias, e tentou fugir do tiroteio.

Testemunhas disseram que Kauê estava passando pelo local da operação após vender balas e que, após ter sido assassinado por volta de 20h por policiais militares, seu corpo foi jogado dentro do camburão junto dos outros quatro feridos. Ele só chegou ao hospital no dia seguinte, sem vida.

Povo protesta na Cidade de Deus

No início do mês (03/09), dezenas de moradores da Cidade de Deus, na zona oeste do Rio, também realizaram um grande protesto, reagindo a uma operação de guerra promovida na região pelo Comando de Operações Especiais (COE) da Polícia Militar (PM). O estopim para a rebelião popular foi a destruição de moradias precárias promovidas por um veículo blindado (“caveirão”) em um local da favela conhecido como Brejo.

Os moradores, revoltados com a rotina de guerra imposta pelas tropas do governador Wilson Witzel, mobilizaram-se e trancaram a rua Edgard Werneck e a estrada Marechal Miguel Salazar. Os manifestantes pararam pelo menos cinco ônibus do transporte coletivo, esvaziaram e atravessaram-lhes nas vias, formando uma grande barreira. Barricadas foram erguidas e incendiadas em vários pontos das vias.

Uma viatura da PM que se deslocou ao local para reprimir os moradores foi obrigada a se retirar em alta velocidade e sob xingamentos. Um dos manifestantes, indignado com a situação de opressão, desatou seu ódio chutando um carro da repressão, que nada pôde fazer diante da fúria popular.

Revolta na Vila Kennedy

Na manhã do mesmo dia, moradores da Vila Kennedy, também na zona oeste da capital fluminense, promovem um combativo protesto na avenida Brasil contra o assassinato de um pedreiro que trabalhava em uma laje durante uma operação policial. Os moradores iniciaram o protesto às 11h30, queimando pneus nos dois lados da principal via da cidade.

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Dezenas de pichações pela região denunciaram política genocida de Wilson Witzel
Dezenas de pichações pela região denunciaram política genocida de Wilson Witzel

“Acabaram de matar um trabalhador aqui em cima da minha laje, ele estava botando a laje para mim”, diz o homem, sensivelmente chocado, em vídeo gravado logo após o ocorrido, publicado na página Voz da Vila Kennedy. “O cara trabalhando aqui, gente! Ele trabalhando! A policial veio, deu um tiro, não tinha ninguém, cara! Impressionante, cara, como a gente está sofrendo aqui na Vila Kennedy! Polícia entrando o tempo todo, crianças, trabalhadores indo embora!”, protestou o morador.

Uma moradora desabafou, na mesma página: “Como vão ficar agora os parentes para sustentar a família? De 100% dos policiais, tire 2%, o resto só vai para rua com drogas na mente, é lamentável, [para eles] todo mundo é bandido”. Durante a manifestação, um ônibus foi incendiado pela fúria popular.

Pichações em toda a região

Em vários muros de diferentes locais da região metropolitana, durante o mesmo mês, foram registradas inscrições de protesto contra a política de Wilson Witzel, governador do estado. A inscrição, em uníssono, dizia: Wilson Witzel, assassino e terrorista!

As pichações foram registradas em Ramos, São Cristóvão, Cascadura, Madureira, Tijuca, Maria da Graça, Méier, Benfica, Triagem, Niterói, São Gonçalo e outros locais.

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