Exército invade e cerca áreas camponesas em Rondônia

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Dezenas de homens das Forças Armadas brasileiras e da Força Nacional de Segurança desembarcaram na área camponesa Enilson Ribeiro, município de Seringueiras, no dia 7 de setembro, em uma operação clandestina. A ação, encoberta pela “Garantia da Lei e da Ordem” (GLO) e pela Operação “Verde Brasil”, promoveu intimidação e provocações; os militares ficaram na área por uma semana. Esse é mais um fato concreto que comprova que o objetivo do decreto é intimidar e combater a luta camponesa.

Resistência Camponesa
Com a desculpa de lutar contra queimadas, militares cercam áreas camponesas
Com a desculpa de lutar contra queimadas, militares cercam áreas camponesas

De acordo com a nota emitida pela Comissão Nacional das Ligas de Camponeses Pobres (LCP), “os camponeses da área relataram que durante uma semana os militares das Forças Armadas reacionárias cometeram todo tipo de intimidação, ameaça, abuso e humilhações”.

Segundo os camponeses, os militares “invadiram e revistaram casas de camponeses, apreenderam espingardas de caça, buscaram insistentemente informações sobre os dirigentes, sobre quando seriam realizadas as reuniões e assembleias e sobre os advogados que defendem as famílias”.

Os militares fizeram ainda “ameaças de prisão a torto e a direito, inclusive dos advogados”, prossegue em denúncia a LCP. “Além de clara intenção de cercear o direito de livre associação e de defesa das famílias, em diversos momentos não faltaram declarações caluniosas visando criminalizar a luta dos camponeses e a LCP .

‘GLO‘ prepara terreno

Como apontado pela Comissão Nacional da LCP, a ocupação militar tem, no combate aos incêndios, uma cortina de fumaça. Mesmo o estado campeão em focos de queimadas sendo o Mato Grosso (que , segundos os dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe ), reúne mais de 13 mil focos ), a maior concentração de tropas está no estado de Rondônia , que figura entre os estados nos quais mais pessoas morreram na luta pela terra nos últimos anos.

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Durante um debate na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), no dia 22/10, um representante da LCP denunciou ainda que o cerco militar não é restrito à área Enilson Ribeiro. “Esses incêndios na Amazônia, quem provocou? Os latifundiários do Bolsonaro, mas principalmente o Exército brasileiro!”, e prossegue afirmando que seu objetivo era impor a GLO: “Agora, todos os acampamentos da LCP estão cercados, com militares estacionados do lado, em regiões nas quais não há nenhum foco de incêndio! Isso para mostrar como eles estão aí para combater a luta pela terra”.

Prova disso é que, durante a GLO, em 10 de setembro, em Rondônia, conforme noticiado pelo AND à época, o Exército reacionário, a Força Nacional e a Força Tática da Polícia Militar (PM) expulsaram 400 famílias camponesas do acampamento Boa Esperança, localizado na zona rural de Porto Velho. A denúncia feita pelos camponeses relata que os militares agiram com violência e atearam fogo na área, o que foi gravado em vídeo pelos próprios trabalhadores. Os policiais também prenderam quatro camponeses que há anos relatam perseguição política.

“O que teme esse governo latifundista é que a resistência e luta dos camponeses de Seringueiras, sirva de exemplo e por isso move tropas contra os camponeses”, afirmou a LCP, em declaração recente por ocasião do cerco à área Enilson Ribeiro.

Para confirmar as denúncias dos camponeses, o próprio Ministro da Defesa, general Fernando Azevedo, em um balanço parcial da Operação “Verde Brasil” no final de setembro, disse que “a Amazônia é prioridade para as Forças Armadas”. E prosseguiu: “Em menos de 15 anos, nós dobramos o efetivo de militares lá, de 20 mil para 44 mil. Isso facilitou a nossa capilaridade. Nós estamos nessa região independente das queimadas”.

Cerco militar permanecerá

A GLO na Amazônia teve início em 24 de agosto, com duração prevista para um mês e uma prorrogação por mais um mês, via decreto. Foi implementada logo após o criminoso e orquestrado “Dia do Fogo”, aonde, aproveitando-se e tentando dar uma resposta à pressão internacional, Bolsonaro e o governo de generais permitiram o emprego de tropas das Forças Armadas e de outras forças federais para “combater o incêndio” em toda a região da Amazônia Legal. O contingente militar já chegou a mais de 8 mil militares e a medida, apesar de oficialmente já ter chegado ao fim, tem na permanência das tropas uma realidade.

Esse fato está circunscrito, como demonstrado na última edição do AND, no plano de ocupação permanente de toda a região amazônica, denominado “Projeto Barão de Rio Branco”, que está em marcha desde fevereiro deste ano, como divulgado pelo The Intercept.

Além disso, a GLO, no que se refere ao objetivo declarado de “combate ao fogo” e defesa da floresta, fracassou, demonstrando que este nunca foi seu objetivo real. De acordo com o ambientalista Tarso Azevedo, em entrevista ao monopólio de imprensa O Globo, os dados analisados sobre queimada e desmatamento na Amazônia apontam que houve um aumento das taxas de desmatamento mesmo com a presença dos militares. Ocorreu, apenas no primeiro mês de ocupação, um aumento de cerca de 96% de áreas desmatadas na região com relação ao mesmo período do ano passado, segundo dados do sistema Deter, do Inpe.

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