Kalunga: Resistência cultural quilombola no Tocantins

Nos dias 14, 15 e 16 de novembro, o campus da Universidade Federal do Tocantins (UFT) da cidade de Arraias, aquilombou-se ao sediar o IV Encontro de Pesquisadores sobre quilombolas Kalunga. O evento proporcionou um emocionante encontro de cultura e saberes, luta e resistência. Marcado pelo encontro histórico do quilombo Kalunga e suas comunidades, separados pela divisa dos estados de Goiás e Tocantins, mas unidos na luta pelo reconhecimento e autonomia de seu território, sua cultura e organização social.

Arraias é uma cidade histórica, antes chamada Chapada dos Negros, cercada por um muro de pedras construído por negros escravizados, e que recebeu a passagem da Coluna Prestes, em 1929. Também já foi o maior município do estado de Goiás, antes da criação do Tocantins. Hoje uma cidade de pouco mais de 10 mil habitantes, possui um núcleo urbano pequeno e pouco estruturado, mas com grandes fazendas e quatro comunidades quilombolas, entre elas o quilombo Kalunga do Mimoso (TO).

A conferência de abertura, formada por mulheres lideranças Kalunga, contou com as presenças de dona Procópia, da professora Bia Kalunga (neta de dona Procópia e representante da Associação de Mulheres Kalunga de Monte Alegre) de dona Dainda. A mesa foi mediada por Maria Geralda de Almeida, idealizadora da Rede Kalunga e professora da Universidade Federal de Goiás.

IV Edição do Encontro Sobre Quilombolas Kalunga Durou Três Dias na UFT

Dona Procópia, liderança referência dos Kalunga que chegou a ser indicada para o prêmio Nobel da Paz em 2005, iniciou sua luta por direitos já aos 60 anos, e desde então nunca parou. Ela conta: “eu pensava nunca de eu tá numa reunião dessa, quantas vezes já fui em reunião? Fui convidada pra reunião em Goiânia, fui lugiada em Goiânia, chego aqui sou lugiada aqui, por que isso gente? Qualquer coisa boa eu fisso, e quero deixar na mão do povo, e quero que todo mundo segura”.

Ao afirmar isso, dona Procópia evidencia sua preocupação com os assédios que as comunidades Kalunga vêm sofrendo por parte da empresa Rialma de propriedade de Emival Caiado, primo do atual governador do estado de Goiás, Ronaldo Caiado, da antiga família de latifundiários. A empresa busca há 20 anos construir uma usina no rio das Almas, principal fonte de água dos Kalunga, e atualmente utiliza-se da estratégia de tentar dividir a comunidade, fazendo promessas de emprego e de supostos “benefícios” para melhoria da comunidade. Entretanto, dona Procópia conclama: “O povo tá querendo fazer barragem e eu quero dizer que vamo tudo fazer força pra não querer. Porque lá onde nós mora, nós mora entre o rio e a serra, se fazer a barrage vai matar tudo!”

O encontro contou com a presença dos pesquisadores e acadêmicos de diversas universidades federais  e dos próprios quilombolas Kalunga. Conversando nos corredores, muitos diziam que ficaram sabendo do encontro e foram lá para assistir, o que proporcionou ao encontro o auditório lotado todos os dias.

Também estava presente o representante da Associação Quilombola Kalunga do Mimoso-TO, senhor Edi, que em sua fala afirmou que a principal luta é a conclusão da liberação do território, que, apesar de demarcado, ainda se encontram pendentes os processos de desapropriação, uma vez que os antigos “proprietários” ainda utilizam das fazendas localizadas dentro do território quilombola. Além disso, a comunidade também luta contra a presença de garimpeiros clandestinos dentro do território.

O segundo dia do encontro contou com apresentações dos Grupos de Trabalhos, onde registrou-se a presença massiva de estudantes universitários quilombolas e quilombolas Kalunga. A professora Dalila Kalunga declarou: “nós deixamos de ser o objeto de pesquisa, hoje somos nós os pesquisadores”.

A programação do último dia do encontro contou com a roda de conversa Griô, em um encontro dos Anciões Quilombolas com a juventude. Nela, a estudante Vanessa Kalunga, que escreveu a sua história na forma de um poema, afirmou que seu sonho é se formar em matemática para ser professora na comunidade e também ganhar dinheiro para comprar um carro e poder ajudar a comunidade a ter acesso aos serviços de saúde na cidade. Denunciando, assim, a ausência de políticas públicas no Quilombo.

Diversas Tradições Culturais Kalunga Foram Celebradas no Evento

As manifestações culturais permearam o encontro: nenhuma conferência, mesa ou roda de conversa teve início sem antes ser celebrada com muita música, dança e poesia. Toda a programação cultural garantiu interação e o protagonismo dos Kalunga, e quando a roda de Sussia (dança tradicional Kalunga) começava, ninguém ficava parado.

Houve também a interação dos estudantes Kalunga do Engenho II, Professor Adão e o pesquisador e cordelista Sabiá, que no improviso parafrasearam a música do cantor Chico Cesar e fizeram o auditório cantar Mama Africa: “Deve ser legal ser negão lá no quilombo!”.

Esses foram os destaques do evento, entretanto muitos outros “encontros” aconteceram. O que chama a atenção é o quilombo tomando conta da universidade na luta anticolonial, bem como debatendo questão agrária brasileira, presente em todos os causos de luta por existência, território e autonomia. Não podemos esquecer o pedido de Dona Procópia: “O povo tá querendo fazer barrage e eu quero que vamo tudo fazer força pra não querer”!

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