Filme Marginal na tela

Baiano de Salvador e residindo há seis anos no Rio de Janeiro, Uilton Oliveira se dedica ao audiovisual promovendo projetos que buscam valorizar e divulgar produções independentes, filmes que estão fora do circuito formal de cinema do país. Idealizador e coordenador da Mostra do Filme Marginal, que está na sua terceira edição, Uilton luta pelo estímulo e organização de público para um cinema popular, autoral e crítico.

— Há algum tempo, tenho um forte envolvimento com a arte urbana, a arte marginal. Em Salvador atuei em movimentos contraculturais, participei de grupos de teatro de rua, por exemplo, o grupo Choque Cultural, que tinha um trabalho militante. Depois, criei um coletivo chamado Arte Marginal Salvador e o grupo de arte popular A Pombagem, sempre colocando em foco a arte da periferia, popular, crítica — conta Uilton.

— O audiovisual, o cinema, entraram na minha vida a partir do momento em que comecei a perceber que ele poderia ser uma ferramenta transformadora, crítica e política. Militei durante o meu período de estudante e então passei a inseri-lo em todas as atividades que pude organizar, dentro do movimento estudantil — relata.

— Colocava um filme para discussão, organizava cine debates, porque acredito que o filme consegue expressar algumas questões com mais clareza, que é muito mais fácil as pessoas entenderem algo através do cinema do que da minha fala, digamos assim. Percebi essa potência e levei o cinema também para a sala de aula, durante o período que lecionei, sou historiador de formação — continua.

Mostra do Filme Marginal Busca Valorizar Produções Independentes

Além de sempre ter atuado como organizador de atividades e militante em sua cidade natal, Uilton tem procurado levar suas ideias para outras partes do país e ali desenvolvê-las.

— Quando vim para o Rio de Janeiro criei um cine clube e depois a Mostra do Filme Marginal. A escola da Mostra e o tipo de filme que faço estão totalmente ligados às minhas posições políticas, a forma como vejo o mundo, à inquietação e à crítica ao cinema comercial, porque entendo que o cinema comercial se organiza para tentar fazer com que sejamos consumidores, para nos domesticar enquanto plateia — declara.

A Mostra do Filme Marginal foi criada em 2017. No seu primeiro ano contou com trinta e poucos filmes inscritos e na última edição as inscrições chegaram a 600. Aconteceu no mês de setembro no Rio de Janeiro, de outubro em Maricá e Belo Horizonte, e de novembro em Salvador.

 

A batalha para apresentar o filme

— O filme marginal é aquele que está à margem do cinema comercial. A Mostra procura colocar filmes independentes na sua programação, e não se utiliza do modelo competitivo, e sim, busca uma integração. A maioria dos filmes não conta com nenhum recurso financeiro e outros conseguiram apoio de editais públicos, quer dizer, aqueles filmes de cinemão, comercial, nós nem aprovamos — conta Uilton.

O filme independente encontra muitas dificuldades para ser produzido e exibido.

— O cinema é uma indústria totalmente ligada ao capitalismo, uma série de acordos e relações são feitas para que o mercado seja controlado e dominado pelas grandes empresas e produtoras. O filme independente enfrenta uma disputa desleal com o cinema comercial, já que não possui recursos financeiros suficientes para a sua produção, entre outros, equipamentos de alta qualidade, e dessa forma é sabotado, boicotado — fala.

— Acredito que exista uma coligação entre as grandes empresas no sentido de sugar todo o dinheiro para si. Elas conseguem a maioria dos editais públicos, não abrindo espaço para que outros possam circular no meio comercial. Nossa ideia é fazer com que a Mostra seja um instrumento para a formação e organização do público de um cinema popular, autoral e crítico. As exibições foram gratuitas em todas as edições, facilitando o acesso da população que é excluída dessa arte — conta.

— E sofremos alguma censura, quando o Centro Cultural da Justiça Federal, onde aconteceria grande parte da programação, me informou que alguns filmes não poderiam ser exibidos. Apontei que se tratava de censura, pedi uma reunião e assim fiquei sabendo que os filmes eram: Mente Aberta, porque tem um áudio do Bolsonaro; Rebento, por ter uma frase de repulsa ao presidente, e Nosso Sagrado porque nos créditos aparecem apoios de movimentos sociais e associações de classe — relata.

Uilton expõe que o filme marginal, em sua temática, costuma servir como um espaço de voz para pessoas que estão à margem da sociedade.

Mostra Realizada em Niterói/RJ

— O filme marginal é também aquele que traz em seu conteúdo temas ou personagens que são marginalizados pelo sistema. É um filme feito por quem sente a dor, por quem sente a opressão. Ele traz a tona a voz, o grito, a revolta, a dor, a crítica ao sistema, as tristeza e, é claro, as alegrias do povo — define.

— Nesse sentido, a Mostra do Filme Marginal e o cinema marginal, político e independente, com o qual estou vinculado, de certa forma existem para que possamos nos organizar enquanto público, enfrentar, resistir, combater esse tipo de cinema comercial, e também colocar na tela, dar visibilidade a temas, personagens e lutas. Quero trazer para a ordem do dia essa temática, esses personagens, pessoas que estão sofrendo, marginalizadas pelo sistema — declara.

— E tenho vistos muitos filmes que falam, por exemplo, sobre opressões da polícia, da sociedade em geral, e tem em sua composição pessoas que sofrem essas opressões. Elas estão falando das vivências, das experiências. Observamos populações, que são marginalizadas pela sociedade, fazendo seus filmes, por exemplo, o cinema negro que está aí firme e forte, contando as suas narrativas. As pessoas pretas sempre foram retratadas de forma pejorativa e atuaram nos piores lugares — lembra.

Uilton conta que sempre procura trabalhar de forma colaborativa.

— Tenho me cercado de pessoas que considero importantes, que tomam posicionamentos com os quais me identifico, que têm uma visão de mundo interessante, que questionam o capitalismo e essa lógica excludente. E isso é uma luta constante de quem está tentando modificar as relações de trabalho dentro do processo produtivo — diz.

— O audiovisual é uma indústria que reproduz bastante a opressão dessa dinâmica capitalista, então procuro não fazer igual. Tento romper com essa estrutura de hierarquização de mando, de grosseria, enfim, de humilhação, de exploração, sempre valorizando o trabalho coletivo — conclui Uilton Oliveira.

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