Apesar da negligência do velho Estado: Povo se organiza e traz lazer às crianças da favela

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Os sucessivos governos do Rio de Janeiro, tanto como os de outros estados e dos municípios, não investem no lazer e no esporte, necessidades aparentemente sem significado que são, na realidade, essenciais para os jovens e parte fundamental do seu desenvolvimento físico, mental e social.

No documento do próprio governo federal sobre o orçamento de 2019 se reconhece que a constituição “consagra o lazer como direito social” e que “é dever do Estado fomentar práticas desportivas”. Para um país de dimensões continentais, o valor destinado para “fomentar” o lazer de R$ 815,8 milhões não é nada. Ainda mais considerando que, deste montante, a minoria ínfima (menos de R$ 70 milhões) é destinada a estimular o lazer e o esporte na base da sociedade. Quanto disso é investido nas favelas e nos bairros mais empobrecidos, onde sequer há saneamento básico e o mínimo de estrutura? Os jovens mais pobres, na verdade, não têm, em sua ampla maioria, o acesso ao lazer.

 Organizadores de Projeto Popular Alugam Quadra Para Atividades Infantis Pois a da Comunidade se Encontra em Condições Precárias (foto: Beatriz Araújo/AND)

Um exemplo prático

Na favela do Jacaré, zona norte do Rio, acontece um projeto social, construído e apoiado pelos próprios moradores da comunidade com a intenção de trazer lazer e diversão para as crianças da favela.

Carlos Souza, Isabela Silva e Renata Castro fundaram o projeto Nova Era, em que organizam um time de futsal para crianças jogadoras  disputarem competições da modalidade na própria comunidade como em outros lugares.

A favela do Jacaré é uma das localidades mais pobres da cidade e, chegando ao local, facilmente se constata essa realidade. Nos arredores da comunidade existe um grande fluxo de pessoas com vício em crack que na maioria das vezes vivem nas ruas e nos grandes lixões a céu aberto que também existem ao redor de toda a favela. Os moradores do local, trabalhadores de todos os tipos, ainda têm que lidar com as constantes operações policiais.

O desafio encontrado pelo grupo foi de que não há na comunidade um local propício para os treinos, que acontecem uma vez por semana. A quadra do Rato Molhado (uma das favelas que fazem parte do complexo do Jacaré) fica embaixo de um viaduto e ao lado de um lixão. O cheiro é insuportável, a quadra não tem pintura, as traves estão enferrujadas e, até pouco tempo, não tinha sequer iluminação.

Cansados das promessas de políticos, a própria Renata, junto com moradores da comunidade, comprou e instalou as lâmpadas que hoje iluminam a quadra. Mesmo com essas condições, esse foi o local encontrado para que as crianças pudessem jogar bola.

Devido às condições péssimas, os idealizadores do projeto pediram ajuda aos pais das crianças e outros moradores que, com doações dos próprios bolsos, conseguiram alugar a quadra do Colégio Alberto Monteiro de Carvalho, que é uma escola e convento próxima ao Jacaré. O lugar tem um amplo espaço, com vários salões, uma Paróquia, duas quadras de futsal e um campo de futebol. O aluguel é caro e o treino é realizado duas vezes por semana, custando R$ 1 mil mensais, dinheiro que é pago pelo próprio Carlos, por pais que podem contribuir e por rifas e sorteios que o projeto faz de vez em quando. Do governo, nada.

A vida na comunidade é difícil e os relatos sobre isso são muitos. Segundo Renata, durante uma operação policial ela teve que servir de escudo para as crianças, pois como a quadra é aberta, as crianças não têm onde se esconder dos tiros. Ela conta que, quando a polícia entra, eles suspendem as atividades do projeto durante toda a semana.

Carlos diz também que muitas vezes, quando sobra algum dinheiro, leva as crianças para comer em uma pizzaria ou uma lanchonete. Segundo ele, muitas das crianças que participam do projeto nunca tiveram essa oportunidade, para muitas delas falta comida, roupas e calçados em casa; o time faz inclusive “vaquinhas” para comprar chuteiras e assim ajudar alguns dos meninos que não têm condição de comprá-las.

O projeto Nova Era é mais um exemplo da força do povo organizado, que se une e supera as dificuldades; povo que não depende da ajuda do velho Estado que sequer provê as necessidades básicas às massas. Estado este que não fornece lazer ou impulsiona a prática de atividades esportivas, tão caras às massas, principalmente à juventude. As massas populares são capazes de tudo, de fazer qualquer coisa, afinal, são elas que construíram e constroem toda essa sociedade e são também elas que construirão a nova sociedade.

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