A perpetuação da mineração semicolonial: Brasil, um país saqueado pelos monopólios

A- A A+
Conteúdo exclusivo para assinantes do jornal A Nova Democracia

A atividade de mineração, levada adiante por grandes monopólios de lucros anuais bilionários e que gerou nos últimos anos pelo menos dois grandes crimes contra as massas – Mariana e Brumadinho – é cada vez mais importante para o capitalismo burocrático local e para a rapina das potências imperialistas.

Os apologistas dessa mineração, buscando defender a impunidade para as mineradoras promotoras de crimes como os citados, afirmam que a mineração é fundamental para o “crescimento” e “prosperidade” da Nação. A realidade, no entanto, é que tal atividade é monopolizada por um punhado de bancos colossais, grandes burgueses e grandes transnacionais. Além disso, o que daqui é extraído acaba vendido a um valor baixíssimo, em benefício das potências estrangeiras. É a condição essencialmente semicolonial de nossa economia. Aos brasileiros trabalhadores, sobram a lama, os rejeitos e as mazelas resultantes dos crimes de lesa-pátria.

Transnacionais saqueiam o Brasil

A mineração cresceu absurdamente a partir dos governos do PT, movimentando, em 2011, 53 bilhões de dólares, um aumento colossal se comparado a 2004, quando o setor não chegava nem a 10 bilhões, segundo o Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram). Pelo menos 68% das exportações minerais são de minério de ferro, movimentando 19,2 bilhões de dólares em 2017. Hoje, ela tende a crescer ainda mais.

Dentre as maiores mineradoras atuantes em nosso país estão a Vale (receita, em 2018, de 36,575 bilhões de dólares), Samarco (R$ 7,6 bilhões em faturamento bruto só em 2014), Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração – CBMM (faturou R$ 7,42 bilhões em 2018), Hydro Alunorte (em 2015, alcançou uma receita líquida de R$ 5,7 bilhões) e Magnesita (receita líquida, em 2016, de 852,3 milhões de dólares), dentre outras.

Apesar de nomes aparentemente brasileiros de algumas delas, rapidamente se vê quem são os beneficiados por essa atividade predatória.

A Vale, de longe o maior monopólio – cujo lucro cresceu 32% em 2017 –, tem 45,2% dos acionistas denominados como “investidores estrangeiros”.1

A Samarco, um outro exemplo, é uma sociedade anônima controlada pela anglo-australiana BHP Billiton e pela Vale, cada qual com 50% das ações. A BHP Billiton, por sua vez, tem sede na Austrália e é uma sociedade por ações controlada majoritariamente por dois monopólios financeiros: o primeiro é o Fisher Asset Management (cujo dono principal é Banco Santander!), e o segundo é o Arrowstreet Capital – Limited Partnership, controlado principalmente pela Ford Motor Co., pela Intel Corp, Fiat Chrysler Automobiles, Yamana Gold, Bank of America, dentre outros monopólios financeiros.

A CBMM, monopólio que domina a produção e comercialização de nióbio, tem como principal acionista o Grupo Moreira Salles. Um dos membros da família, Pedro Moreira Salles, é o presidente do Conselho de Administração do Itaú Unibanco. Outros acionistas minoritários da CBMM são os monopólios asiáticos Baosteel Group Corp. (social-imperialismo chinês) e o Nippon Steel & Sumitomo Metal Corp (imperialismo japonês).

A Hydro Alunorte, aparentemente nativa, é uma subsidiária da Norsk Hydro, monopólio do imperialismo norueguês do setor de alumínio. Pelo menos 34,3% das ações da Norsk Hydro são controladas pelo Estado imperialista norueguês e, portanto, é o governo deste país o principal controlador da própria mineradora que atua no Brasil.

O monopólio Magnesita S.A. é controlado majoritariamente pela GP Investimentos. No entanto, tal grupo financeiro é controlado pelo monopólio estrangeiro Partners Holdings. Inc, que abocanha a maior parte dos rendimentos.

Para se ter uma noção do quanto nós somos roubados em nossas riquezas minerais, basta observar que, em 2013, segundo o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese)2, a mineração –  juntamente com a agropecuária –  foi o setor que liderou o aumento de remessas de lucros e dividendos ao estrangeiro, atingindo alta de 141% em relação a 2006. 

Cadeia de produção subalterna

Não bastasse essa relação de dominação, na qual mega monopólios internacionais apoderam-se odiosamente das riquezas naturais – dominando e sugando o país com seus tentáculos –, nós ainda temos uma relação absolutamente subalterna com a indústria dos países imperialistas.

A extração e exportação de minérios para os monopólios que produzirão mercadorias de alta tecnologia nos mantém numa relação de atraso. Ao não industrializar os minérios e prescindir da tarefa de desenvolver uma indústria de manufaturas de alto valor agregado, os minérios simplesmente são exportados a um valor baixo aos países imperialistas, que utilizam-se deles para desenvolver mercadorias de alto valor agregado e de alta tecnologia, que são exportadas novamente aos nossos países dominados.

Segundo o geólogo Pedro Jacobi, “ao exportarmos minério bruto, sem valor agregado, estamos repassando todo o lucro da cadeia produtiva ao país comprador que transformará o minério de ferro em ferro gusa, aço e, depois, em produtos industrializados que retornarão ao Brasil com lucros embutidos simplesmente gigantescos”. Ele prossegue: “Lucros, é claro, que nós estamos deixando de ganhar. Em suma essa é uma boa definição de país subdesenvolvido”.3

O geólogo ainda exemplifica: “Para construirmos um automóvel médio com 1 mil kg de aço serão necessários em torno de 1,6 toneladas de concentrado de minério de ferro. Esse concentrado, após a extração, beneficiamento e transporte será vendido em um porto brasileiro por apenas R$ 320 a tonelada! O veículo importado feito a partir desse minério de ferro chegará ao mesmo porto com preço centenas de vezes mais alto. O nosso minério de ferro bruto é a espinha dorsal de uma indústria trilionária da qual nós pouco participamos”.

Infográfico Mostra Principais Mineradoras Atuantes em Território Nacional e Suas Respectivas Ligações Com os Monopólios Imperialistas

Um pouco mais sobre a dominação

A CBMM não exporta nióbio bruto, mas sim com algum processamento, em geral, na forma de ferro-nióbio – cujo valor é superior ao bruto, porém não é grande coisa. O Brasil detém praticamente 98% das reservas de nióbio, porém exporta-o a um preço baixíssimo se comparado com sua importância imprescindível para a indústria de alta tecnologia.

Os maiores compradores do nióbio beneficiado produzido no Brasil, em 2016, foram Holanda (28,7% do total), China (25,9%), Cingapura (14,9%) e USA (11,9%). O nióbio é fundamental para produzir tubos transportadores de petróleo, gás, à indústria nuclear, à fabricação de superligas essenciais para produzir componentes de motores de jatos e subconjuntos de foguetes, dentre outras coisas. Enfim, é uma matéria-prima fundamental para produzir mercadorias de elevadíssimo valor agregado.

A Holanda, que compra o nióbio brasileiro, por sua vez, têm sua indústria concentrada em produzir bens de capital (mercadorias que servem como meios de produção, portanto, de elevadíssimo valor agregado, como agroindústria, produção de metais e engenharias, máquinas, microelétrica etc.) justamente dependentes de nióbio. Através dessa relação, a Holanda – tal como todas as potências imperialistas – enriquece e desenvolve-se como nação de sólida economia, enquanto o Brasil, tal como os demais países semicoloniais, mantém-se no mais perceptível atraso.

Essa é, juntamente com a questão da terra, a questão historicamente inalterada. Os governos que se revezam obrigatoriamente reproduzem essas relações, não podem alterá-las sem destruir completamente os sistemas econômico, político e a burocracia estatal que lhes é anexa, substituí-los por novos, apoiando-se nas massas populares e confiando plenamente nelas. Em suma, a Revolução de Nova Democracia.

Notas:

  1. Composição acionária disponível em 31 de outubro de 2019 no site da Vale.
  2. Dados disponíveis no estudo Remessa de lucros e dividendos: setores e a dinâmica econômica brasileira, junho de 2014.
  3. Minério de ferro: quanto o Brasil perde ao exportar um produto sem valor agregado?, no O Portal do Geólogo, 17 de janeiro de 2013.

Edição impressa

Endereços

Jornal A Nova Democracia
Editora Aimberê

Rua Gal. Almério de Moura 302/4º andar
São Cristóvão - Rio de Janeiro - RJ
Tel.: (21) 2256-6303
E-mail: [email protected]

Comitê de apoio em Belo Horizonte
Rua Tamoios nº 900 sala 7
Tel.: (31) 3656-0850

Comitê de Apoio em São Paulo
Rua Silveira Martins 133 conj. 22 - Centro
Reuniões semanais de apoiadores
toda segunda-feira, às 18:45

Seja um apoiador você também!

Expediente

Diretor Geral 
Fausto Arruda

Editor-chefe 
Mário Lúcio de Paula
Jornalista Profissional
14332/MG

Conselho Editorial 
Alípio de Freitas (In memoriam)
Fausto Arruda
José Maria Galhasi de Oliveira
José Ramos Tinhorão 
José Ricardo Prieto
Henrique Júdice
Hugo RC Souza
Mário Lúcio de Paula
Matheus Magioli
Montezuma Cruz
Paulo Amaral 
Rosana Bond

Redação 
Mário Lúcio de Paula
Ana Lúcia Nunes
Matheus Magioli
Rodrigo Duarte Baptista
Vinícios Oliveira