Em memória de Nelson Werneck Sodré

A- A A+
Conteúdo exclusivo para assinantes do jornal A Nova Democracia

Há 20 anos morria Nelson Werneck Sodré (NWS). Fazer o balanço de sua obra teórica, que nos brinda vasto panorama da formação histórica do Brasil, nos campos econômico, político e cultural; separar nela o joio do trigo, marxismo de revisionismo, é tarefa pendente de nossa Revolução. Que só pode avançar comprovando, criticando e corrigindo os que abriram caminhos antes de nós.

 

Homem de partido   

NWS foi, realmente, um intelectual invulgar. Militar (passou à reserva com a patente de general-de-brigada), historiador, ensaísta, jornalista, crítico literário, memorialista, deixou um legado que alcança milhares de publicações – só de contribuições à imprensa, constam mais de 2,6 mil artigos de sua autoria. Quanto aos livros, apenas para citar alguns de maior fôlego, dedicados a problemas de fundo, e que são ainda referenciais nos seus respectivos campos, escreveu: História da literatura brasileira (1938), História militar do Brasil (1965), História da imprensa no Brasil (1966), Formação histórica do Brasil (1962), todos eles atualizados em sucessivas edições, até o fim dos seus dias. Destacam-se, nos anos de chumbo, suas publicações de denúncia do entreguismo dos militares no poder, como Brasil: radiografia de um modelo (publicado originalmente na Argentina, em 1973) e O governo militar secreto (1987).

Ademais, foi sempre um homem de partido. Oficial da ativa do Exército, membro da sua chamada “ala nacionalista”, teve que manter secreta sua condição de membro do Partido Comunista do Brasil (PCB). Alguns reputam aos meados dos anos de 1940 sua filiação ao Partido, no esteio do grande prestígio alcançado pela União Soviética (URSS) na luta contra o nazi-fascismo. Ele teria pertencido, então, a um organismo denominado Anti-Mil, que agrupava os militares e militantes do PCB que atuavam nas Forças Armadas¹. De todo modo, é inequívoca a simbiose entre a sua produção teórica e a linha política partidária, que parecem ter influenciado reciprocamente uma a outra. Não foi pequena a influência de Luís Carlos Prestes sobre toda aquela geração, ainda mais, em se tratando de um quadro oriundo do meio militar, no caso de NWS. Seus erros teóricos mais graves, como a incompreensão do caráter do Estado e do papel dirigente do proletariado na revolução burguesa, que só se completa na medida em que passa ininterruptamente ao socialismo, são os mesmos do revisionista PCB de Prestes pós-XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética (1956).

De toda sorte, NWS pagou pelas suas escolhas o preço que sempre pagam os lutadores consequentes: a perseguição, a cadeia, o exílio. Respondeu a inúmeros Inquéritos Policiais-Militares (IPMs) durante o regime militar, quando chegou a chamar o Brasil de “país dos IPMs”. Ele era particularmente odiado pelos golpistas, por sua longa atuação junto à chamada “esquerda militar”, chegando a integrar a diretoria do Clube Militar entre 1950 e 1952, quando foi diretor da Revista desta associação. Nesta época, fervia a campanha em defesa do petróleo e contra a participação brasileira na Guerra da Coreia, inslusive, diversos artigos, nos quais adotou firme posição anti-imperialista, publicados sob pseudônimo naquela revista, lhes são atribuídos. Não menos importante foi seu Prefácio à primeira edição de Memórias do Cárcere, de Graciliano Ramos, de quem foi dileto amigo, aparecido em 1954. Isto também era inequívoca tomada de posição em favor da liberdade, contra a tirania e o fascismo, quando arrancava a “Guerra Fria”.

Mesmo sem nunca ter sido candidato, NWS teve seus direitos políticos cassados pelos gorilas, sendo impedido de escrever na imprensa e lecionar após 1964. O Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB), que ele compunha, foi um dos primeiros prédios depredados pela reação vitoriosa, seus professores presos e processados. Como narrou, mais tarde, “para qualquer ditadura do tipo da nossa, ensinar, em sentido genérico, já é, em si, atividade subversiva. Isso tem sua lógica, naturalmente: a verdade não apenas é sempre concreta, como disse um mestre – ela é sempre subversiva.”² Desnecessário sublinhar tratar-se de palavras ainda hoje significativas.

 

Anti-imperialista consequente  

A denúncia da espoliação imperialista sobre o país é ponto forte de sua obra. NWS foi, de fato, um consequente anti-imperialista ao longo de toda a vida, mil pés acima de outros pensadores tidos como “nacionalistas” de sua geração. Nele, a Nação não vinha jamais separada das classes dominadas, o povo, ao contrário: “Partimos, desde logo, de definição do que é nacional, para que não haja dúvidas: só é nacional o que é popular. A nação para nós é o povo e não apenas o território”³. Desmascarando a economia política vulgar (burguesa), que sonega as relações de classe, substituindo-as por índices meramente quantitativos de “crescimento”, supostamente neutros, assevera: 

“Sua pobreza e desvinculação da realidade não devem ser atribuídas a insuficiências de quem as usa, mas à insuficiência do próprio regime capitalista: ele necessita, agora, e de maneira essencial, da impostura. Ela é uma de suas condições de sobrevivência”. E, criticando Celso Furtado, o papa da “escola cepalina”, diz: “Mas a mesma confusão, em torno de outros conceitos, pode ser encontrada em Celso Furtado (...). Em seu recente livro ‘Análise do Modelo Brasileiro’ (Rio, 1972), com observações agudas sobre os problemas do país e de sua economia, não existe qualquer referência à categoria imperialismo, ainda quando apontadas formas de associação entre desenvolvimento e dependência. Assim, o esforço dos economistas é no sentido de separar a economia da política.”4

Enquanto todos os revisionistas, com o fim da ex-URSS, renegavam abertamente o marxismo, NWS manteve sua caracterização da formação histórica brasileira como assentada no monopólio da terra e na dominação colonial e, depois, imperialista. É dele a formulação da tese da “regressão feudal” no período pós-Abolição (segundo a qual apenas a menor parte dos ex-escravos tornou-se assalariados, a maioria mantendo-se cativos à terra, em relações servis e semi-servis), teorização original, que busca apreender a particularidade brasileira. Rechaça a tese de que o capitalismo chegou com os portugueses e ressalta as suas implicações políticas. Afinal, se “aceitar a existência de relações feudais ou semifeudais, ou a existência de restos feudais, era errôneo”, seria, por conseguinte, errônea a “afirmação da necessidade de praticar uma política que a eliminasse”5. Aqui ele toca, a partir da abordagem teórica, na importância do problema agrário-camponês e da única política que o proletariado pode adotar para resolvê-lo: a defesa da terra para quem nela trabalha. E, mais a frente:

“Isto não significa que o processo não funcione, não avance – embora o avanço não seja uniforme e linear -, não seja marcado por conquistas. Tal processo se assemelha mais aos movimentos de uma roda quadrada, que vai se tornando redonda na medida em que rola, primeiro aos tombos, abalando as estruturas, depois mais suavemente. Nossa revolução burguesa não tornou ainda redonda esta roda gigantesca. Estamos dentro dela, fazendo parte dela, somos testemunhas e protagonistas. Mas a heterogeneidade persiste: o Brasil arcaico nos cerca por todos os lados; o latifúndio persiste, resiste, abalado mas sobrevivendo a tudo. As alterações agrárias processam-se pela duríssima via prussiana: todos os dias estamos assistindo episódios, choques e escândalos desta via tortuosa, que inflige sofrimento e miséria às massas camponesas, mantidas em secular atraso, ainda nos primeiros esforços de organização e nas primeiras lutas de tomada de consciência”6.

Quando escreveu estas linhas, em 1990, sustentando a formulação histórica dos comunistas, NWS era abandonado até pelo seu velho PCB revisionista, que passou sem autocríticas do kruschevismo ao eurocomunismo e à defesa da “revolução socialista já”, de coloração trotskista.  Ele, que fora banido pelos militares, foi novamente banido, agora, pela “nova esquerda” oficial, legalista e academicista, também ferozmente anticomunista.

 Intelectual público

NWS foi mais um intelectual, dentre tantos nas fileiras marxistas, da tradição marxista, que nunca exerceu atividades acadêmicas. Toda sua enorme contribuição ao debate histórico, econômico, cultural e político brasileiro foi feita em jornais, inclusive jornais operários e sindicais, revistas e livros que tinham por destinatário o amplo público. Isto explica, em parte, o seu banimento dos currículos acadêmicos, também derivado do culto ao estrangeiro, da transplantação cultural, tão presente entre a intelligentsia de sociedades de passado colonial.

Porque, se a defesa da ciência e da universidade pública e gratuita a serviço do povo é uma bandeira histórica das massas populares, de modo algum deve-se confundir o trabalho científico e cultural, o trabalho dos intelectuais, como exclusivo dos meios acadêmicos, que funcionam, no mais das vezes, como camisas-de-força do pensamento avançado. Seria desnecessário lembrar que pensadores da estatura de um Mariátegui, por exemplo, para falar apenas da nossa parte do mundo, fizeram interpretações sociais hoje consideradas clássicas a partir da contribuição à imprensa operária de sua época. É cacoete de classe, de corte nitidamente elitista, restringir a intelectualidade àquela sua pequena parte chancelada pelos cursos de pós-graduação, quando o crivo da verdade é, antes de tudo e desde sempre, a prática social. A verdadeira produção de conhecimento, seja em que esfera for, e mesmo nas mais especializadas, só pode se fazer pela experimentação social, pela crítica, e tudo isto só se obtém no contato com o povo, tomando posição na luta de classes. A rigor, sobretudo na esfera das chamadas ciência sociais, não há conhecimento sistemático sem militância. Uma ciência que se limita a descrever seu objeto, uma ciência que não prevê e não o transforma, é uma contradição em termos. Nesta toada, falando do ofício de escritor, dizia NWS:

“O escritor é aquele que mantém um diálogo com o povo, que recebe dele alguma coisa e que a ele oferece alguma coisa; não aquele que guarda para si o que pensa e se fecha a influências exteriores”7.

Seu último livro publicado em vida foi A farsa do neoliberalismo (1995). Nele, o velho pesquisador, acostumado a discernir a essência de aparência, aborda assim os rumos da “democracia brasileira”:

“Isso, no fim das contas, não passa de demonstração repetida de que democracia e miséria são incompatíveis e que a continuidade dessa farsa nos leva a um recrudescimento de lutas políticas, com profundos reflexos sociais, porque a burla fica cada vez mais ostensiva. O nosso povo está compreendendo, com a persistência dessa continuada agressão aos seus direitos mais elementares, que a sua convocação às urnas, periodicamente, não passa da consagração de uma farsa”8.

Certeiras palavras! Elas quiçá façam hoje mais sentido do que quando foram escritas.

 Notas:

  1. Vide: Paulo Ribeiro da Cunha, “Uma leitura da obra de Nelson Werneck Sodré”, Revista Novos Rumos, n. 33, ano 2000.
  2. NWS, “Memórias de um soldado”, ed. Civilização Brasileira, p. 623.
  3. Citado por Jordan Rodrigues dos Santos, no artigo “Nelson Werneck Sodré: um defensor da cultura brasileira”, disponível na internet: https://www.cp2.g12.br › ojs › index.php › article › download
  4. NWS, “Brasil: Radiografia de um modelo”, ed. Bertrand Brasil, pags. 21-22.
  5. NWS, “Capitalismo e revolução burguesa no Brasil”, Oficina de livros, p.19.
  6. Idem, págs. 30-31.
  7. NWS, “Ofício de escritor: Dialética da literatura”. Ed. Civilização Brasileira, 1965, p. 74.
  8. NWS, “A farsa do neoliberalismo”, editora Graphia, p.119.

Edição impressa

Endereços

Jornal A Nova Democracia
Editora Aimberê

Rua Gal. Almério de Moura 302/4º andar
São Cristóvão - Rio de Janeiro - RJ
Tel.: (21) 2256-6303
E-mail: [email protected]

Comitê de apoio em Belo Horizonte
Rua Tamoios nº 900 sala 7
Tel.: (31) 3656-0850

Comitê de Apoio em São Paulo
Rua Silveira Martins 133 conj. 22 - Centro
Reuniões semanais de apoiadores
toda segunda-feira, às 18:45

Seja um apoiador você também!

Expediente

Diretor Geral 
Fausto Arruda

Editor-chefe 
Mário Lúcio de Paula
Jornalista Profissional
14332/MG

Conselho Editorial 
Alípio de Freitas (In memoriam)
Fausto Arruda
José Maria Galhasi de Oliveira
José Ramos Tinhorão 
José Ricardo Prieto
Henrique Júdice
Hugo RC Souza
Mário Lúcio de Paula
Matheus Magioli
Montezuma Cruz
Paulo Amaral 
Rosana Bond

Redação 
Mário Lúcio de Paula
Ana Lúcia Nunes
Matheus Magioli
Rodrigo Duarte Baptista
Vinícios Oliveira