Josué de Castro: brasileiro e cidadão do mundo

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O cientista pernambucano, médico nutricionista, Josué de Castro, é o mais conhecido brasileiro no exterior. As edições dos dois primeiros livros Geografia da fome e Geopolítica da fome, em nível planetário, seja em número de exemplares ou em número de traduções em idiomas nos cinco Continentes, incluindo o chinês, o hindu e o árabe, competiram galhardamente com as dezenas dos belíssimos romances de outro nordestino, mundialmente famoso, Jorge Amado. Aliás, segundo Jamerson Ferreira Lima, este ilustre baiano de Ilhéus, confirmou à Editora Seara Nova de Portugal, Josué "é certamente o escritor brasileiro de maior audiência mundial".

Um esboço e, mais ainda, sua própria biografia não é tarefa para uma pessoa, mas para toda uma instituição, como por exemplo, o Instituto Josué de Castro, criado no município gaúcho de Veranópolis, ou o Centro Josué de Castro, do Recife.

Diga-se de passagem, que a instituição do Recife surgiu de um pedido que me fez Cristovam Buarque, em 1974, em Honduras, empolgado com o prefácio de Josué de Castro no meu Dicionário de Reforma Agrária Latino-americana, publicado por Educa — Editora do Conselho Superior das Universidades de Centro América. O pedido consistia em que eu concebesse, por ocasião do fim do exílio do seu irmão, Sergio Buarque, uma instituição de assessoria como meio de trabalho para sua "aterrissagem" em Pernambuco.

Para tanto, ambos, eu e Sergio Buarque, em 1979, em Albufeira, no Algarve português, preparamos os papéis e planos de funcionamento do Centro Josué de Castro, do Recife.

Josué de Castro, sem nenhuma metáfora, assim traduziu a afirmativa de Marx, com uma profética visão histórica, inteligível por quaisquer estratos sociais, formados por gente culta ou por analfabetos: segundo o nível da crise da economia capitalista em cada país, mais cedo ou mais tarde, já não será fácil ver as nuances das classes sociais, porque “as sociedades estarão radicalmente divididas em apenas dois grupos de indivíduos: o dos que não comem e o dos que não dormem; não dormem com medo dos que não comem".

Esta visão de Josué foi o prelúdio da “camuflada guerra civil do desemprego” a que me referi — ainda em 1989, em entrevista para o Diário de Pernambuco — e que hoje assistimos, com dezenas de milhares de mortos a cada ano, e cuja origem está na falta de postos de trabalho no campo e nas cidades.

Um gigante brasileiro

Josué foi a maior figura que o Brasil produziu no Século XX. Os seus livros: Geografia da fome e Geografia política da fome e, bem assim, o papel que ele desempenhou no surgimento e na cúpula da maior agência de assistência técnica das Nações Unidas, a FAO e na instituição que ele mesmo fundou e fez funcionar em Genebra e em Paris, o CID — Centro Internacional para o Desenvolvimento —, deram-lhe fama mundial, acesso e contatos pessoais com os maiores líderes do Século XX, como Roosevelt, Stalin, Churchill, Mao-Tsetung, Gandhi, Ho-Chi-Min.

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Josué de Castro foi pioneiro no Brasil, em 1930, da primeira pesquisa sobre alimentação, nutrição e fome.

Dez anos depois ele criou, no primeiro governo de Vargas, o Serviço de Alimentação da Previdência Social (SAPS), com milhares de restaurantes populares, nos locais de trabalho dos assalariados e dos funcionários públicos e também nos bairros além de, na mesma época, ter instituído a Merenda Escolar.

Consciente de que as agências da ONU não enfrentariam, de peito aberto, o problema da fome, Josué de Castro fundou, na década dos 50, a Associação Mundial de Combate à Fome, Ascofam, da qual foi presidente mundial.

A convite de Bertrand Russell e de Paul Sartre, Josué tomou parte no Tribunal Universal de Julgamento das Atrocidades dos Estados Unidos no Vietnam. Não foi por acaso, pois, que reconhecidos destas atrocidades, Kissinger e MacNamara (arrogantes chanceler e ministro da defesa dos Estados Unidos) depois da vergonhosa derrota das suas tropas, foram pessoalmente, prenhes de humildade, se penitenciar ante ao famoso vietnamita, general V. Nguyen Giap, comandante das tropas do falecido Presidente Ho-Chi-Min.

Os contactos com personalidades mundialmente conhecidas se ampliaram bastante depois de sua presença nas conferências dos Países do Terceiro Mundo (também chamados de “países não alinhados”) realizadas em Bandung (Indonésia) e em Nova Deli (Índia).

Foi nelas que Josué de Castro conheceu pessoalmente Sukarno, Nyerere, Neruh, Nasser, Sekou Touré, Chu En-lai, N'Krumah. Tratou também pessoalmente com outras personalidades africanas como BenBella, Lumumba, Mandela etc.

Ademais tratou diretamente também com numerosos chefes de Estado europeus e com as mais famosas figuras políticas da América Latina, mundialmente conhecidas, tais como: o general Cárdenas, do México; Perón, da Argentina; os generais Torrijos, do Panamá; Alvarado, do Peru, e seus amigos Fidel e Allende, respectivamente, de Cuba e do Chile.

Não obstante ser agraciado em 1952 com o Prêmio Roosevelt, concedido pela Academia de Ciências Políticas dos Estados Unidos, Josué de Castro relacionava-se principalmente com as personalidades discriminadas pelo reacionário macarthismo, como, por exemplo, com o famoso dramaturgo Arthur Miller, Prêmio Pulitzer, 1949; e os Prêmios Nobel: Pearl Buck (de Literatura), Einstein (de Física) e Linus Pauling. Este último foi a única pessoa agraciada duas vezes pela Academia Sueca (Nobel de Química de 1953 e Nobel da Paz de 1962), apesar de ter sido contemplado com o "Prêmio Lênin", outorgado pelo Conselho Mundial da Paz, por sua atuação no Movimento dos Partidários da Paz. Este mesmo Conselho, no mesmo ano, conferiu a Josué de Castro o mesmo Prêmio Internacional da Paz por seus esforços no combate à fome no mundo.

Os prêmios Nobel europeus com quem Josué mais se relacionava foram: os filósofos Bertrand Russel, Paul Sartre e Bernard Shaw — este último, o renomado dramaturgo irlandês, famoso pelo espírito irreverente, satírico e crítico, com que analisava governos e personalidades do seu tempo do ponto de vista político-filosófico. Na oportunidade de Josué ser apresentado a Bernard Shaw, este o surpreendeu com a sua afirmativa tantas vezes repetidas aos jornais de Londres, de que dos “Três Grandes” que lideraram na Segunda Guerra Mundial a luta contra o nazi-facismo, Stalin era o mais importante e o mais inteligente pelo fato de ter levado Roosevelt e Churchill à luta e, pelo fato de, no momento crítico do conflito, ter oferecido tranqüilidade aos aliados mediante a fragorosa derrota dos exércitos de Hitler em Stalingrado, que culminou com a tomada de Berlim pelas tropas soviéticas.

Os seus dois livros já mundialmente famosos não eram suficientes para criar uma consciência da luta contra a fome entre chefes de Estado. Não foi, pois, fácil a luta que teve de travar. Os governos dos países ricos não se sensibilizavam, nem mesmo com a fome dentro de suas fronteiras.

A estruturação da FAO

Como Josué narra em Geopolítica da fome: “Em 1943, quando os delegados das Nações Unidas, reunidos em Hot Spring para tratar dos problemas da alimentação e da nutrição firmaram um protocolo pelo qual se comprometiam a promover os standards de vida e de alimentação, estavam, sem dúvida, muito longe de calcular o alcance e a complexidade do compromisso que haviam subscrito".

Destarte coube, então, a uma espécie de "três desbravadores", a tarefa crucial da saga da FAO, a partir de um vasto recrutamento de novos e numeroso membros. Eles eram: o brasileiro Dr. Josué Apolônio de Castro, o inglês Lord John Boyd Orr e o hondurenho, engenheiro agrônomo, Roberto Arellano Bonilla, que viajaram muitos países conquistando novas adesões ao organismo mundial encarregado da agricultura, pesca e da alimentação.

A missão na América Central

Anos mais tarde, em 1969, Josué de Castro recebeu a honrosa incumbência do Secretario Geral da ONU, o birmano U Thant, a missão de visitar pessoalmente alguns chefes de Estado e monarcas de países espalhados em todos os Continentes, que estavam inadimplentes nas contribuições à Organização das Nações Unidas. Ele deu preferência em realizar o périplo pelos seis países do Istmo Centro-americano porque desejava reencontrar-se com o seu colega na estruturação inicial da FAO, o engenheiro Arellano Bonilla.

O reencontro foi emocionante e espetacular porque passaram em revista, durante todo um dia, no Hotel Prado e no restaurante La Rondali muitas das experiências pessoais em seus respectivos países, incluindo fatos jocosos do parlamento brasileiro que o ex-deputado federal de Pernambuco, Josué de Castro, tratava de forma descontraída. Entre estes estava aquele caso de um velho deputado federal de Minas Gerais que empolgado no discurso viu saltar ao solo sua dupla dentadura.

Constrangido, o colega mineiro informou a Josué que o melhor dentista do Rio de Janeiro lhe dera a garantia de que aquela peça protética jamais saltaria. Este, então, lhe explicou que, por melhor construída esteja e instalada a prótese, sempre existe uma palavra "traiçoeira" que a faz voar da boca. Havia que descobri-la!

Durante a viagem aos países da América Central, Josué de Castro me narrou algumas das palpitantes reuniões do Conselho de Segurança da ONU, às quais ele e sua velha amizade, Eleonora Roosevelt, viúva do presidente Franklin Delano Roosevelt, podiam assistir como expectadores.

Segundo Josué, Eleonora admirava muito a sagacidade e, principalmente, a inteligência e a grande cultura de Andrei Vichinsky, catedrático de Direito Penal e muitas vezes indicado representante da União Soviética nas reuniões mais importantes e cruciais do Conselho de Segurança. Em certa ocasião, Josué viu comprovada a perspicácia de Vichinsky. Em uma reunião daquele Conselho, o Secretario de Defesa da Inglaterra (posteriormente Primeiro Ministro), Harold Mac Millan, que se arvorava de origem modesta, quis fazer gozação da ascendência nobre daquele que defendia ali as posições políticas e a ideologia do proletariado. A resposta do diplomático soviético foi fulminante:

— Este paradoxo, ilustre colega, mostra indubitavelmente que nós, ambos, somos dois grandes traidores!... De outra feita, na reunião extraordinária do Conselho de Segurança da ONU, em Genebra (1955), não se tendo chegado a acordos sobre o Vietnam, apesar de quatro dias da semana prenhes de acaloradas e cansativas discussões, um dos representantes de turno dos Estados Unidos, com certo cinismo, propôs que, para descontração de todos, aquela tarde fosse dedicada a assuntos literários, tomando, sem espera, a iniciativa de homenagear a cultura russa, lendo um conto de Chekov:

"No tempo em que os bichos falavam na floresta, se apresentaram a um concurso para ver qual deles era o mais belo, o mais formoso. E, quando todos se mostravam deslumbrados, maravilhados com a ave do paraíso, um macaco gritou: — Cuidado! Não se aproxime dessa ave, não se deixem seduzir! Porque isso não é uma ave e sim uma serpente! Surpreendentemente se lhe caiu a encantadora plumagem que escondia a víbora."

Passados uns segundos de silêncio, Vichinsky não se fez de rogado:

— Na retribuição dessa estranha homenagem, não me arrimarei a um conto de Chekov, mas a outro conto da cultura popular russa. Naquele tempo em que os bichos falavam, houve um concurso para se saber qual era o ser mais malvado, mais usurpador, mais falso, mais assassino e mais genocida. Quem venceu o concurso foi o caluniador, porque este atravessa países, oceanos e continentes para agredir os povos mais distantes! (pano rápido, e se terminou aquela tediosa sessão do Conselho de Segurança)

Josué em Paris

Da última vez que me recebeu em sua residência na Rue Lord Byron, 15, quinto andar, em Paris, eu o encontrei muito nervoso e irritado com duas coincidências que naquele dia lhe tinham ocorrido. Josué era um fiel e permanente militante do humanismo e sempre o fazia de forma tão hábil e discreta que até parecia haver tido experiências da atividade clandestina e, com justa razão, lhe indignavam atos temerários e indiscretos que alguns exilados cometiam, pondo em risco sua condição de ex-embaixador do governo João Goulart (em Genebra, ante os altos organismos da ONU, sediados na Suíça) a quem a França oferecera asilo.

Há que se levar em conta que Josué de Castro, Celso Furtado, Vinício Caldeira Brant (ex-presidente da UNE), e alguns dirigentes do PCB exilados em Paris andavam constantemente muito vigiados pelos numerosos agentes do SNI que serviam ao embaixador do Brasil, o pseudo-intelectual gorila golpista, general Lira Tavares, além da vigilância exercida pela CIA e pelos serviços secretos da França.

Naquela boca-da-noite, dois militantes do Partido do Congresso Sul-africano tinham burlado o policiamento do aeroporto e chegado à residência de Josué para pedir-lhe que intercedesse junto a seu amigo Fidel Castro a liberdade de um ou dois "gusanos" condenados à larga prisão em Cuba pela libertação de Nelson Mandela, líder da luta contra o Apartheid. Josué, pese a que se sentisse honrado pela tarefa, considerava uma temeridade buscá-lo em sua residência em vez de fazê-lo nos escritórios do CID, na discreta Av. Mac Mahon, 23-25 na Etoile.

Como se fosse pouco, minutos antes da chegada dos clandestinos africanos à sua casa, Josué havia recebido um misterioso telegrama do Brasil, sem assinatura, como se fosse uma mensagem cifrada e com apenas três termos: "a palavra é libélula", o que lhe fazia supor alguma "senha" para identificar contatos secretos. Com um dedo de prosa para desanuviar o ambiente, ele se acalmou. Logo se descobriu que o telegrama era daquele referido deputado mineiro de cuja boca, l5 anos atrás, havia saltado a dentadura, na parte mais empolgante do seu discurso.

Pequena deixa para grande missão

Haveria muito mais que dizer. Mas aqui se fez apenas um pequeno "aperitivo" do grande homem que foi Josué de Castro, para mostrar que faz falta uma vasta e merecida biografia deste ilustre brasileiro, e que somente uma instituição — não um autor isolado, apenas — através de um esforço coletivo de uma grande equipe poderia assumir esta tarefa gigantesca, porque o ilustre biografado era de fato um gigante, seja como cientista da área médica, seja como cientista na área social e política, que liquidou, em nível mundial, o tabu da fome e colocou o combate à fome na ordem do dia de todos os povos, de todos os países.


*NR - O autor, que foi amigo de Josué de Castro, é advogado, doutor em Sociologia pela Universidade de Rostock, Alemanha. O Dr. Clodomir Morais pertenceu à Direção Nacional das Ligas Camponesas nos anos cinqüenta e durante vinte anos serviu às agências FAO e OIT das Nações Unidas, na área da Capacitação Massiva, Desenvolvimento Rural e Reforma Agrária, sendo hoje presidente do Conselho Consultivo do Iattermund — Instituto de Apoio aos Trabalhadores do Terceiro Mundo, Brasília, e professor da Universidade Federal de Rondônia.

Paris, 1 de outubro de 1968
Ilmo. Sr.
Dr. Clodomir Santos de Morais

Av. Juarez, 42 B oficina 1013
México, D.F.
Meu querido amigo Clodomir,

Regressando a Paris depois de uma longa viagem pelo continente americano e depois das férias de agosto no sul da França, encontrei sua carta na qual você me dá a notícia do nosso amigo José dos Prazeres. Peço-lhe que transmita ao seu filho Luiz Carlos meus sinceros pêsames.

Como uma homenagem a este velho batalhador que foi José do Prazeres, pensei em retomar o assunto das Ligas Camponesas para publicar um artigo na imprensa européia e latino-americana. Estou coletando material para fazer alguma coisa de novo sobre a história – a realidade e o sonho – do que foram estas Ligas no Nordeste. Caso você tenha algumas sugestões, informações ou documentos que me possa enviar sobre a matéria lhe ficarei eternamente grato.

Estou trabalhando intensamente, de um lado nas atividades do C.I.D. e de outro, num livro sobre os Estado Unidos da América e sua dominação mundial. Desejo mostrar nesse livro tudo tudo o que lhe há de fundamentalmente errado e atrasado e, portanto, subdesenvolvido na grande "democracia econômica", cabeça do novo Império Romano no século XX. Aí no México talvez você encontre de vez em quando materiais sobre os problemas raciais, a discriminação da população mexicana nos Estados Unidos, a farsa das eleições democráticas para Presidente, a corrupção, a criminalidade e outras virtudes da grande democracia. Mande o que for encontrando e sinta-se convocado como colaborador deste livro que precisamos escrever com urgência para alertar um pouco mais o mundo dos ingênuos que sonham com a submissão à opulência.

Vou lhe mandar à parte dois projetos interessantes que o C.I.D. está realizando; o Ano Acadêmico Latino-Americano e o Instituto Internacional de Formação de Quadros Humanos. Neste último projeto o B.I.T. Está colaborando principalmente através do Bureau Regional da África, dirigido em Adis-Abeba por um antigo colaborador meu Albert Tévoédjré.

Receba um grande abraço e agradecimentos antecipados do

Josué de Castro

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