De Karl Marx ao Marxismo: Luta de classes, luta de duas linhas e linha de massas (Parte X)

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2.2 A concepção materialista dialética da sociedade e da natureza 

No Capítulo I do Anti-Dühring, Engels traça um panorama histórico-filosófico do surgimento do socialismo científico. Nesta introdução, o dirigente comunista mostra como o socialismo utópico advém diretamente do iluminismo francês, da burguesia enquanto classe revolucionária. A posição racionalista burguesa se colocava na condição de inauguradora do pensamento correto, e este era um dos limites do materialismo francês do século XVIII. O idealismo alemão surge como produto indireto da Grande Revolução Francesa, 1789, e será com Hegel que atingirá seu ponto culminante. Hegel demonstra que o desenvolvimento do pensamento humano é um processo, possui uma história, cujo desenvolvimento apresenta uma série de necessidades internas. Esse ordenamento dialético das diferentes formas do pensamento, em evolução, bem como a determinação de que em cada uma destas etapas havia algo de verdadeiro, é um grande trunfo de Hegel e, segundo Engels, seu maior mérito foi “a retomada da dialética como forma suprema do pensamento”. Um dos maiores defeitos da filosofia hegeliana era justamente o seu caráter idealista, no lugar de descobrir os nexos reais (sociais e econômicos) que levavam à evolução das formas de pensar, Hegel substitui esses nexos por conclusões lógico-abstratas, que na maioria das vezes estavam corretas em seu conteúdo, mas representava uma forma invertida de ver o mundo e, portanto, imprestável, naquela condição, à luta revolucionária do proletariado. 

A crítica à mistificação hegeliana da dialética conduziu ao materialismo, não ao materialismo antigo, mecanicista, do século XVIII, mas ao “materialismo moderno”, nas palavras de Engels, “essencialmente dialético”. Essa concepção de mundo surge como o materialismo histórico, no pensamento Marx, em 1848, explicando pela primeira vez em termos científicos (teóricos e práticos) que eram as condições materiais de produção que determinavam, em última instância, as transformações no campo do direito, da política e da ideologia. E que eram as forças econômicas contraditórias a base das revoluções políticas que de tempos em tempos abalavam a história da humanidade. Enfim, que era a luta de classes o motor da história. Nas palavras de Engels: “Devemos a Marx essas duas grandes descobertas: a concepção materialista da história e a revelação do mistério da produção capitalista mediante a mais-valia.” (Engels, Anti-Dühring). 

E por que esse materialismo moderno essencialmente dialético aparece primeiramente, em sua forma completa, no estudo da história e não no estudo da natureza orgânica e inorgânica? Engels, assim, nos explica: 

“Contudo, enquanto a reviravolta na visão da natureza pôde efetuar-se somente à medida que a pesquisa lhe forneceu o correspondente material positivo do conhecimento, muito antes disso haviam se afirmado fatos históricos que acarretaram uma virada decisiva na concepção da história. No ano de 1831, teve lugar, em Lyon, a primeira revolta de trabalhadores; de 1838 a 1842, atingiu seu auge o primeiro movimento nacional de trabalhadores, o dos cartistas ingleses. A luta de classes entre o proletariado e a burguesia passou para o primeiro plano da história dos países mais avançados da Europa, na mesma proporção em que ali se desenvolviam, de um lado, a grande indústria e, de outro, o recém-conquistado domínio político da burguesia.” (Engels, Anti-Dühring) 

O materialismo histórico, a filosofia marxista, era um produto da luta de classes. Da mesma forma o era o desenvolvimento do materialismo dialético nas ciências naturais, mas neste caso de maneira indireta, vinculada mais estreitamente ao desenvolvimento industrial e à experimentação científica. Mas a descoberta do caráter histórico e evolutivo do cosmo e da natureza orgânica estava em curso. Ainda no século XVIII, Kant, antes de se tornar o fundador do idealismo alemão, lançara a teoria da formação do sistema solar a partir das nebulosas. Essa grande hipótese filosófica atacava diretamente o fundamento metafísico da mecânica celeste de Newton, que postulara um universo em movimento, mas sem transformação, sem história; ou seja, os corpos celestes desde sempre haviam girado daquela maneira. Laplace, 50 anos depois de Kant, realizou cálculos matemáticos que confirmavam, ainda que teoricamente, a hipótese kantiana. E, 50 anos depois de Laplace, nos diz Engels, com medições empíricas se comprovou a origem do sistema solar a partir de outros corpos celestes: as nebulosas gasosas. Mas antes desta confirmação, Darwin, em 1859, com sua grande obra Origem das espécies, dava uma explicação racional à variabilidade enorme das espécies vivas sobre o globo terrestre. Embora, como pontua Engels, Darwin não investigue as causas das mutações, ele logra o grande feito de explicar a evolução das espécies vivas sem a necessidade de uma força metafísica criadora. O materialismo dialético alcançava, assim, grandes resultados não só na explicação da história da humanidade, mas também na história do cosmo e na história da vida. 

“(…) o materialismo sintetiza os progressos mais recentes da ciência da natureza, segundo a qual a natureza também tem sua história no tempo - tanto os corpos cósmicos como as espécies de organismos que os habitam em circunstâncias favoráveis surgem e desaparecem, e os ciclos, na medida em que se deixam legitimar, assumem dimensões infinitamente mais grandiosas. Nos dois casos, o materialismo é essencialmente dialético e não necessita mais de nenhuma filosofia posicionada acima das demais ciências.” (Engels, Anti-Dühring, negritos nossos) 

O materialismo nas ciências naturais, ao ser definido por histórico, da mesma forma como ocorre na explicação da sociedade, assume a condição de  “essencialmente dialético”. A dialética ao procurar a origem do movimento nas próprias coisas (e não fora delas, como faz a visão metafísica), de perceber tudo como um encadeamento, um movimento, um devir e fenecer, não é, por sua vez, apenas um método de pensamento, mas uma concepção de mundo. 

“Todos esses processos e métodos de pensar não cabem na moldura do pensamento metafísico. Para a dialética, em contrapartida, que concebe as coisas e seus retratos conceituais essencialmente em seu nexo, em seu encadeamento, em seu movimento, em seu devir e fenecer, processos como os anteriormente mencionados são outras tantas confirmações do seu próprio modo de proceder. A natureza é a prova da dialética, e temos de afirmar a respeito da moderna ciência da natureza que ela forneceu para essa prova um material extremamente abundante e cada dia mais volumoso, comprovando, desse modo, que, na natureza, as coisas acontecem, em última instância, de maneira dialética, e não metafísica.” (Engels, Anti-Dühring, negritos nossos) 

A natureza e os abundantes resultados das ciências naturais constituem a prova da dialética. Constituem a prova daquilo que Hegel percebeu como um reflexo invertido no espírito humano e Marx recolocou de cabeça para cima em sua concepção materialista histórica. Ao se tornar a prova da dialética, por sua vez, a natureza servia também de comprovação da unidade material do mundo, da condição de que uma série de leis válidas à natureza inorgânica e orgânica, também vigem no desenvolvimento da sociedade e do pensamento. A dialética na natureza reforçava, desta maneira, a concepção materialista do mundo.

2.3 As diferentes formas de movimento da matéria 

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