Chuvas no sudeste: ‘desastre’ é culpa do velho Estado

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Fortes chuvas atingiram várias regiões dos estados de Minas Gerais, Espírito Santo e Rio de Janeiro, neste início de ano. Minas Gerais, estado mais afetado, já tem mais 55 pessoas mortas por conta da chuva iniciada no dia 24 de janeiro. Até o momento, mais de 14 cidades mineiras confirmaram mortes de pessoas ocasionadas por afogamento, deslizamentos e soterramentos.  

Em Minas Gerais, o quadro é drástico. A capital Belo Horizonte com mais de 13 mortes; Betim, com mais de seis mortes e Ibirité com cinco são as que mais perderam trabalhadores devido à situação caótica. O estado contabilizou 196 cidades em situação de emergência, riscos de deslizamentos e soterramentos, sendo que pelo menos 8.157 pessoas ficaram desabrigadas e 38.703 desalojadas, segundo a Defesa Civil. 

Outro estado que está sendo bastante afetado pelas chuvas de início de ano é o Espírito Santo, onde mais de nove pessoas já morreram e 10 mil estão fora de casa por perigo de deslizamentos e por conta de enchentes, desde o dia 17 de janeiro. Mais de 49 municípios ficaram em situação de alerta, o que representa 62% das cidades de todo o estado.  

As cidades mais atingidas do ES estão no sul do estado. Em Alegre, cidade com mais desabrigados, o número de pessoas fora de suas casas e que não têm para onde ir já chega a 2.372.  Parte dessa massa foi obrigada a sair de casa devido ao “alerta vermelho” emitido pelo governo do estado, baseado no risco de rompimento da barragem Francisco Gros (mais conhecida como São João).  

Foto: Ascom Porciúncula

O governo federal reconheceu o decreto de calamidade pública, requisitado pelo governo do estado, para quatro cidades. São elas: Iconha, Alfredo Chaves, Vargem Alta e Rio Novo do Sul. Somente nessas cidades, 22 comunidades ficaram isoladas, pontes e casas foram destruídas, e os moradores ficaram sem abastecimento de água, comida, medicamentos e outros suprimentos. 

Para piorar ainda mais a situação dos moradores do estado, a Companhia Espírito Santense de Saneamento (Cesan) suspendeu o abastecimento de água nos municípios de Marechal Floriano, Domingos Martins e no distrito de Santa Isabel. Segundo a empresa, não há previsão para o restabelecimento do sistema. 

No norte e noroeste do estado, há ainda um alerta para o aumento do nível do rio Guandu e do rio Doce, o que poderia provocar inundações em cidades circunvizinhas. No total, mais de 5.668 pessoas ficaram desalojadas e 3.246  desabrigadas em todo o ES, além de mais de nove mortes e alertas máximos para alagamentos e deslizamentos de terra. 

No Rio de Janeiro, a chuva que atingiu o norte e noroeste, no dia 24/01, já deixou oito cidades inundadas e mais de 6 mil pessoas desalojadas ou desabrigadas. Para piorar a situação, três rios que cortam a região transbordaram: os rios Carangola, Muriaé e Pombo. A cidade mais atingida foi Porciúncula, no noroeste do estado, onde uma pessoa morreu por conta das inundações. A prefeitura da cidade decretou situação de emergência. O município teve 340 pessoas desabrigadas e 4,5 mil desalojadas. Somente no bairro Operário 340 casas ficaram com água até o teto depois do trasbordo do rio Carangola. 

Em Itaperuna, outra cidade atingida, um jovem de 19 anos chamado Taciano Gama foi encontrado morto após ser arrastado pela correnteza do rio Muriaé. Na cidade, segundo a prefeitura, ocorreram ainda dez deslizamentos de terra. “Itaperuna normalmente quase todos os anos sofre com essas cheias. E, em 2019, a nossa cidade passou por uma grande obra que não foi concluída e causou vários transtornos no comércio, no trânsito da cidade. E essa obra foi feita justamente para acabar com os problemas”, relatou um morador, em tom de protesto, durante entrevista ao monopólio de imprensa G1. 

Para aumentar a desgraça das massas, na cidade de Bom Jesus do Itabapoana, a Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio (Cedae) interrompeu o abastecimento, e os moradores ficaram vários dias sem água.

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‘Tragédias’ que deveriam ser evitadas 

Já se tornou comum em nosso país a ocorrência de “tragédias” como estas, principalmente nos primeiros meses do ano e em estados do sudeste. Para os governadores, prefeitos e representantes do governo reacionário é muito cômodo colocar a culpa na natureza, ou falar que a chuva é algo divino. 

Mas, na realidade, cientistas e estudiosos já vêm há anos alertando e dando soluções para acabar ou amenizar os efeitos da chuva. O que falta é os governos aplicarem as verbas dos impostos para solucionar tais mazelas, ao invés de investi-las em isenção fiscal, incremento da repressão e com a dívida pública, tudo em benefício dos grandes burgueses e latifundiários, serviçais do imperialismo. 

Pegando como exemplo o estado do ES, o Serviço Geológico do Brasil emite desde 2011 alertas sobre áreas de risco. Nos relatórios apresentados os cientistas apontam os principais problemas nestas áreas e as principais soluções a serem tomadas para evitar “desastres”. 

Sobre o assunto, o professor do Departamento de Engenharia Ambiental da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) e pós-doutor em Recursos Hídricos, Antônio Sérgio Ferreira Mendonça, acredita que os “desastres” já eram tragédias anunciadas, que vão continuar ocorrendo se o velho Estado não tomar medidas sérias e definitivas. 

Segundo o professor, vários municípios tem um Plano Diretor de Drenagem Urbana que, se colocados em prática, evitariam os danos causados. No entanto, os planos não são executados e são feitos apenas para garantir que as cidades consigam verbas do governo federal. 

Segundo Antônio Sérgio, o velho Estado poderia facilmente solucionar o problema e acabar com o sofrimento anual do povo se adotasse medidas estruturais tais como diques, galerias de águas fluviais, sistema de bombeamento de águas e outros recursos. E, ainda mais importante: resolvendo a questão da moradia, para que as pessoas não precisem mais construir suas casas em áreas de risco.

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