Jovem é executado por policiais no Complexo do Alemão: Ian Gomes é o segundo filho de dona Ivana morto pela PM de Witzel

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No dia 20 de janeiro, Ian Gomes, de apenas 15 anos, foi mais uma vítima da repressão no Complexo do Alemão. Policiais militares da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) da Nova Brasília alvejaram o adolescente no quadril quando esse passava de mototáxi próximo à base da UPP. 

Segundo testemunhas, Ian estava a caminho da casa da tia. Ao passar pela UPP, os policiais não abordaram o jovem; ao invés disso, deram um tiro em seu quadril (que se alojou nas costas) e no pneu da moto que o transportava, o que derrubou o jovem ao chão. Moradores próximos ao ocorrido tentaram socorrer o rapaz, mas foram impedidos pelos policiais, inclusive sua cunhada.  

Foto: Victor Prat

A cunhada, Ingrid, em entrevista exclusiva ao AND, relatou que o militar que o alvejou estava visivelmente alterado e foi truculento com quem tentou se aproximar de Ian. Após insistir para que o jovem fosse socorrido, os policiais mandaram Ingrid chamar uma kombi ou um carro para transportá-lo. A mãe de Ingrid, dona Lorraine, acompanhou a kombi que levou Ian do mototáxi e relatou que, em certo trecho, os policiais retiraram a blusa de Ian e amarraram suas mãos, levando-as ao rosto. Após chegar na base da UPP, o menino foi retirado da kombi e colocado em uma viatura, que seguiu até o Hospital Getúlio Vargas, na zona norte do Rio.  

Ian chegou ao hospital já sem vida. Ingrid ainda relatou que, ao procurar saber de seu estado de saúde, foi enganada ao receber a informação de que Ian se encontrava na sala de cirurgia e passava bem. 

No dia que Ian foi assassinado, acontecia um baile no Complexo do Alemão, que contou com a presença de rappers e artistas locais. O monopólio de imprensa, compaginando com as afirmações da PM, declarou que Ian foi alvejado ao trocar tiros com a polícia, porém as testemunhas que estavam no local, na hora de seu assassinato, afirmam que os tiros (foram contabilizados três tiros, um para o alto, um em Ian e um no pneu da moto) partiram unicamente dos policiais da UPP.

Família destruída pelo genocídio 

Ian, filho mais novo de dona Ivana, foi o terceiro membro de sua família assassinado covardemente pela PM do Rio. O filho mais velho de dona Ivana, Jonata, de 21, foi cruelmente assassinado em junho de 2019, apenas seis meses antes; já o pai dos meninos foi executado quando eles ainda eram pequenos.  

Em entrevista ao AND, dona Ivana desabafa: — Eles simplesmente fazem essa covardia, como há seis meses mataram o meu filho Jonata. E como há 14 anos perdi o pai deles também na covardia. Eles simplesmente acabaram com a minha família. 

Dona Ivana, sofrendo na pele as consequências da guerra civil reacionária, prossegue: 

— Eles sim são os verdadeiros bandidos! Covardes! Agora, para que polícia no morro? Para simplesmente acabar com a família. Cada dia eles vêm matando mais e mais pessoas. Eles são uns tremendos covardes!  

— Eles tiraram meu filho da kombi e deixaram ele no chão. Depois o colocaram na viatura como se fosse um bicho. Eles não tão nem ai, cada dia é uma covardia que eles fazem — protesta. 

Ingrid relata sua indignação sobre os assassinatos:  

— A gente não quer que os dois casos virem mais uma estatística. A gente quer lutar pelos nossos direitos de se defender e defender eles, de ser a voz deles. Porque eles [militares] não chegam abordando, já chegam matando, as pessoas não têm nem o direito de falar. O “cala-boca” deles já é um tiro.

Mais crimes contra o povo 

Casos de jovens como Ian não são poucos e têm se tornado um padrão. O ano de 2020 se iniciou com a intensificação da política de guerra empreendida pelo genocida Witzel e sua polícia assassina e terrorista, abrangendo também idosos. 

No dia 05/01, Lisete Pereira, de 78 anos, foi atingida no peito por um tiro, enquanto varria o quintal de casa e cuidava dos netos. Lisete chegou a ser socorrida pela esposa do sobrinho e afilhado e levada ao hospital Estadual Alberto Torres, no Colubandê, porém já chegou sem vida. A idosa foi executada durante uma operação policial.  

Apenas um dia antes, o idoso Adenir Nunes da Conceição, de 60 anos, morreu na comunidade do Salgueiro durante operação. Sandra Gomes Sales, de 61 anos, foi atingida com um tiro na nuca, quando ia buscar o neto na escola, e Maria dos Remédios Vilarinho de Jesus, de 65 anos, atingida por uma bala perdida, ambas no Jardim Catarina. Todos esses crimes aconteceram no município de São Gonçalo, durante operações policiais.  

Na noite de 09/01, Anna Carolina de Souza Neves, de 8 anos, morreu após ser atingida por uma bala perdida no bairro Parque Esperança, em Belford Roxo, na Baixada Fluminense.  

Em 16/01, uma operação de guerra que durou pelo menos três dias aterrorizou as massas trabalhadoras da favela de Manguinhos, na zona norte do Rio. Helicópteros sobrevoaram a região enquanto veículos blindados invadiram os becos e ruas lotadas de trabalhadores a caminho do serviço. Pelo menos um homem, identificado como Denis, idade não revelada, foi executado por um grupo de militares em uma “tróia” (tática usada pela polícia, conhecida como “tocaia”, para surpreender e executar pessoas em ações). Segundo relato de uma moradora que não quis se identificar, em entrevista ao AND, uma casa abandonada estava sendo utilizada como base clandestina para a ação policial.  

No dia 22/01, o pedreiro Samuel Menezes da Conceição, 47 anos, foi morto com um tiro na cabeça durante uma operação da PM, na Vila Cruzeiro, no Complexo da Penha. Samuel também era presbítero de uma igreja em Olaria. De acordo com amigos e familiares, Samuel era pai de quatro filhos e estava a caminho de seu segundo dia de trabalho em uma obra, em uma casa na comunidade Parque Proletário. Moradores afirmam que a PM foi a autora dos disparos. 

No dia 24/01, José Elias de Laia, pedreiro de 61 anos, foi baleado e morto no dia de seu aniversário, na favela Seis Pedal em São Gonçalo, Região Metropolitana do Rio. Um único disparo, efetuado por uma equipe da PM, entrou pela coxa e saiu pela lateral da barriga do trabalhador. Ele não resistiu e já chegou morto ao Hospital Estadual Alberto Torres. 

No dia 25/01, moradores da comunidade, cerca de 50 pessoas, fizeram  protestos contra a morte do pedreiro, bloqueando duas faixas do sentido Alcântara da rodovia RJ-104, na altura de Colubandê. As massas pediram justiça e rechaçaram a atuação dos policiais.  

No dia 27/01, Arthur Gonçalves Monteiro, de 5 anos, foi baleado com um tiro na cabeça durante uma intervenção policial. Arthur acompanhava o pai em uma partida de futebol no Engenho Novo, na zona norte da cidade. Segundo relato, os policiais da UPP entraram atirando no local onde estava acontecendo uma partida de futebol. O pai da criança, Roberto Monteiro, se jogou em cima do filho na tentativa de protegê-lo dos tiros, mas acabou sendo atingido. O tiro atravessou a sua mão e acertou a cabeça da criança. Apenas em 2020, Arthur é a segunda criança vítima das incursões policiais no Rio de Janeiro.

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