Jazz e instrumentos sinfônicos ao alcance do povo

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Com o objetivo de defender, difundir e popularizar o jazz, o duo Jazz Sweet Jazz, formado pelo contrabaixista Ighor Albuquerque e pelo clarinetista João Emanuel, apresenta-se em transportes públicos do Rio de Janeiro. Cariocas, os jovens encontram na profissão de artista de rua a possibilidade de levar arte ao povo, fazendo com que este tenha contato com um gênero musical elitizado e com instrumentos que muitas vezes só estão em salas de concerto, local de difícil acesso para a população pobre.

— Eu e o João nos conhecemos na Academia Juvenil da Petrobras Sinfônica, na Lapa, e começamos a tocar juntos. Fizemos versões de Jazz Standard, com mistura do funk para deixar a cara do Rio, e passamos a tocar no metrô. O nome Jazz Sweet Jazz surgiu porque queríamos algo com três sílabas e que soasse bem quando gritássemos dentro dos vagões, e também por causa do som da clarineta, que é doce, tradução da palavra sweet para o português – conta Ighor Albuquerque.

— Através das nossas apresentações no metrô conseguimos levar o jazz até muitas pessoas. E esse trabalho nos proporcionou muitos outros, porque sempre distribuíamos nossos cartões e algumas pessoas nos ligavam e nos contratavam para tocar em casamentos, festas de crianças, enfim, vários eventos – continua.

Desde junho de 2019 foram proibidas, pelo Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, as apresentações artísticas nas estações e vagões de trem, metrô e nas barcas.

Jovens aplicam técnicas de música sinfônica com formas modernas

— Procuramos valorizar essa profissão de artista de rua, porque ela nos dá a oportunidade de estar em contato direto com as pessoas, no meio da correria do dia a dia.  Além dos transportes públicos, já tocamos bastante nas ruas e sempre tivemos uma ótima resposta do público, alcançando o nosso objetivo – expõe Ighor.

— O jazz é música preta, feita pelos pretos e para os pretos. Mas depois de um tempo ele começou a ser elitizado, porque os brancos passaram a ouvir e apreciar o gênero. Então a partir daí, normalmente os brancos é que escutavam, desfrutavam enquanto os pretos tocavam. Vários artistas pretos se destacaram no jazz. Então não foi somente a sonoridade que nos atraiu para o jazz, mas também a sua história – explica.

Jazz é uma manifestação artístico-musical que teve sua origem nas comunidades pobres de Nova Orleães, sul do USA, local de forte discriminação e perseguição ao povo preto. Desde o seu surgimento, no início do século XX, o jazz produziu uma grande quantidade de subgêneros, como: swing, jazz latino, fusion, dixielano, bebop. Por conta da sua divulgação mundial, o jazz se adaptou a estilos musicais locais, surgindo assim uma grande variedade melódica, harmônica e rítmica.

Arte e convicção

— Para que as pessoas possam reconhecer, familiarizarem-se com a música, começamos misturando o jazz com outros ritmos, um pouco de funk por exemplo, e depois o apresentamos de fato. A aceitação é imediata e o motivo principal, acreditamos, é o fato dessa música ser propriedade do povo, dos pretos, das pessoas da rua, daqueles que estão na correria pela sobrevivência – afirma Ighor.

— Muita gente não tem acesso a esse universo e fica muito feliz ao ter contato com o jazz e com os nossos instrumentos, o contrabaixo e a clarineta, um mundo distante de muitos. É por isso que queremos continuar com esse trabalho de mostrar para o povo a sua música, a arte, e não deixar que fique somente restrita a um grupo pequeno de pessoas que têm dinheiro – continua.

— Além dos transportes públicos e das ruas, já tocamos também em bares à noite, mas infelizmente constatamos que tocar nos bares do Rio é muito sofrido, no sentido da nossa sobrevivência, porque os donos não querem pagar. Por exemplo, o bar oferece 200 reais para dividir entre cinco pessoas de uma banda. Os quiosques também são iguais, enfim, passar o chapéu é bem melhor – acrescenta.

Ighor considera o contrabaixo acústico como o seu instrumento principal, mas também toca saxofone. João Emanuel considera a clarineta, e também toca saxofone, flauta e violão.

— Comecei minha vida musical em um projeto social na comunidade Dona Marta, em Botafogo, e  depois no morro Chapéu Mangueira, no Leme. Moro no pé do morro Chapéu Mangueira, no Leme, mas minha avó mora lá em cima no morro e daí vem o meu contato com o pessoal da comunidade, todos os meus amigos são de lá. Já o João Emanuel mora em Ricardo de Albuquerque, zona norte do Rio – conta Ighor.

— Fiquei no projeto social dos 13 aos 18 anos de idade, quando passei a fazer parte da Camerata Laranjeiras, e ali foi o melhor lugar para mim, me abriu muitas portas, por exemplo, com a orquestra consegui ir para a Suécia e Alemanha, tocamos muito por lá. Retornando, me formei na escola de música Villa-Lobos e na Academia da Petrobras, e atualmente estou estudando música na Unirio – declara.

A Camerata Laranjeiras é uma orquestra de cordas independente, que visa desenvolver habilidades musicais e interpessoais entre jovens músicos de diversas classes sociais e lugares. Tem sua sede na Casa da Música, em Laranjeiras, bairro da zona sul do Rio.

— O nosso trabalho no duo tem sido muito gratificante para nós. Tocamos vários nomes importantes do jazz, também blues, tocamos um pouco de pop, e não esquecemos do samba, do funk, enfim, tudo está inserido no nosso repertório, sendo que temos como base a ideia de levar tudo para o jazz, por exemplo, usamos a linguagem do jazz e misturamos com o funk brasileiro – explica Ighor.

— No momento estamos tentando entrar em uma mistura de jazz, trap, hip-hop, com beat, temos estudado bastante, trocando ideias e pretendemos seguir com tudo. Temos uma música no Spotify e já estamos criando as nossas próprias músicas, mas nada foi lançado ainda – continua.

— Nós desejamos espalhar arte por toda a parte, fazer com que as pessoas tenham contato com música instrumental, que conheçam de perto os nossos instrumentos. Queremos que o povo se aproprie da boa música, que as pessoas possam ter acesso a uma música de qualidade – finaliza.


Os contatos dos artistas são: (21) 99515-9931, (21) 98813-8402 e @jazzsweetjazz.

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