Lenin incendiário Lições da tática bolchevique durante a primeira revolução russa de 1905 (parte 1)

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Nota introdutória

Dois motivos me animaram a escrever este brevíssimo ensaio sobre a tática bolchevique em 1905, aos quais se soma a celebração pelos 150 anos de nascimento do grande Lenin. Foram eles:

1) O evidente interesse histórico do tema. Há, hoje em dia, duas espécies de ataques ao marxismo: um, vindo dos seus inimigos declarados, que querem transformar a primeira investida pelo socialismo numa série de “erros” e de “crimes”; que pintam esta democracia burguesa, putrefata, como o cume do desenvolvimento humano, além do qual não há nada. Outro tipo de ataque, mais insidioso, funciona como uma espécie de Cavalo de Troia: em nome do marxismo, invocando as experiências revolucionárias (oportunamente deturpadas), alguns querem converter seus dirigentes em seres anêmicos, dúbios, quando não, em liberais pela metade, em ícones inofensivos etc. É um velho truque. Estes “amigos” querem fazer, em suma, deste fantasma inventado pela extrema-direita – o tal “marxismo cultural”, que nada tem a ver com o marxismo de Marx – um ser de carne e osso; querem converter a doutrina que ensina o proletariado a lutar pelo poder num mero guia comportamental, eleitoral, perfeitamente adaptado à velha ordem. Em parte, isto explica porque – sobretudo nos períodos de auge – alguns jovens preferem acorrer às frases grandiloquentes e ocas do anarquismo a seguir semelhante “marxismo”.

O leitor verá que a potência do maduro Lenin de 1917, chefe da revolução e da guerra civil que a seguiu, já existe no relativamente jovem Lenin de 1905. Um propósito, uma única posição de classe, uma atuação revolucionária coerente, uma militância ardente, apaixonada, incendiária mesmo: este é o Lenin de carne e osso. Vários temas que reaparecerão em 1917 – a dualidade de poderes, a criação do exército revolucionário, a luta de morte contra os oportunistas, a necessidade de preparar conscienciosamente a insurreição e fixar o momento exato da sua data – já estão aqui, em 1905. Na verdade, os bolcheviques nunca renunciaram às heranças da primeira tentativa, ao contrário, propuseram-se a aprender dos erros para “afiar mais a lâmina”, e, por isso, venceram. Tal lição, de fundo, válida neste processo histórico concreto, parece ser válida também para analisar o processo histórico no seu conjunto. Uma grande questão para o triunfo da revolução no século XXI é saber defender as heranças da revolução no século XX.

2) A política. Em todo o mundo, e particularmente na América Latina, no último ano, eclodiram rebeliões populares. Não raro, elas chegaram ao limiar da guerra civil. Como se orientar quando a maré da luta de classes parece ultrapassar as forças próprias dos revolucionários? Como não se perder, em meio ao turbilhão? Como fazer ecoar as vozes que chamam as massas ao combate decisivo, quando parecem ser mais fortes – e, num certo sentido, ao menos material, certamente são mais fortes – as vozes que as chamam à capitulação?

Mutatis mutandis, em 1905 os bolcheviques se depararam com interrogações desse tipo. Observar como Lenin as respondeu é particularmente relevante, agora. Parece paradoxal, mas observar mais de perto seus passos de há 115 anos talvez seja, hoje, uma questão das mais urgentes.

Finalmente, um último ponto: o método. Isto não é uma compilação de citações, porque elas já existem e melhores do que eu poderia fazer. Tentei enquadrar os textos dentro da situação real. Lendo os artigos de Lenin, percebe-se que ele foi não só o intérprete perspicaz, como também o melhor narrador da revolução em curso. Além dos tomos VIII, IX e X das obras completas1, que abrangem o período em vista , também foi de grande utilidade a leitura das suas cartas de 1905, que estão no tomo XXXVIII da referida edição. Nas cartas, veremos, além do teórico de vulto e do organizador intrépido, o homem prático, apaixonado, que também se aflige, se impacienta, que se preocupa e aconselha seus camaradas e anseia voltar, o quanto antes, para a Rússia revolucionária. Para completar o quadro, usamos também como fontes o Compêndio de História do Partido Comunista (bolchevique) da URSS, aparecido na URSS em 1938, cuja primeira edição brasileira é do Editorial Vitória de 1945, e a biografia Lenin (sua vida e sua obra), escrita na URSS em 1945 e publicada no Brasil pelo Editorial Vitória em 1955. Em apenas duas ou três ocasiões, no máximo, recorri a textos de Lenin posteriores a 1905, ainda assim, quando estavam estritamente relacionados aos acontecimentos narrados. Não faria sentido reconstituir uma batalha, emprestando aos combatentes armas que eles desconheciam. O interessante é mesmo ver através de quais batalhas as novas armas serão forjadas.

Rio, dezembro de 2019

 Lenin retratado disfarçado, na clandestinidade, em meados de 1905.

Lenin incendiário

“Indo ao combate, devemos desejar a vitória e saber indicar o verdadeiro caminho que a ela conduz”. (Lenin)

 Em dezembro de 1907, a direção bolchevique decidiu pela saída de Lenin da Rússia2. Após dois anos de auge revolucionário, dois anos da maior revolução popular desde a Comuna de Paris (1871), arrefecia a força das massas, caía a noite sobre sua primeira investida contra a autocracia czarista.

O chefe do partido proletário iniciaria seu segundo período de emigração, o mais longo e penoso. Após meses de febril atividade na própria Rússia, dirigindo reuniões clandestinas, escrevendo e intervindo em numerosas polêmicas, falando diretamente às massas, consolidando os grupos de combate - “embriões do exército revolucionário” - Lenin teria que defender desde o “maldito exílio” os princípios do marxismo contra os renegados e capituladores. Sobre este período de provações, Stalin diria, em Lenin, águia das montanhas (1924), quando o Poder dos Sovietes já era um fato histórico mundial: “Lenin foi então o único que não se deixou levar pelo contágio e que manteve erguida a bandeira do Partido, reunindo, com paciência assombrosa, com persistência extraordinária, as forças dispersas e combalidas do Partido, combatendo no interior do movimento operário todas as tendências hostis ao Partido, defendendo o princípio do Partido com uma coragem fora do comum e uma perseverança sem paralelo”. Sua fé na causa permaneceria inabalável. Ele sabia que o novo auge viria, custasse o que custasse, apesar dos desterros, dos cadafalsos, das Centúrias Negras.

Provavelmente, era nas lições da primeira revolução russa que ele pensava quando se pôs a caminhar naquela fria noite de fim de outono na Finlândia. Impossível tomar um navio diretamente no porto principal: seria preso. Saindo da choça onde se escondia, através de um lago congelado, Ilitch sentiu de repente o gelo estalar sob seus pés. “Que forma estúpida de morrer!”, recordou ter dito de si para si, mais tarde. Correndo risco de vida, atravessou. Levava na bagagem a rica experiência revolucionária adquirida nos “grandes dias que condensavam vintenas de anos”. E estava convencido de que, da próxima vez, armados com este tesouro obtido no próprio terreno, sempre confrontado com a experiência histórica e com os princípios basilares do marxismo, armados destas lições o proletariado e as massas populares venceriam. Lenin não poderia prever que as suas teses seriam postas à prova precisamente em 1917; mas ele já sabia que a vitória num futuro incerto dependeria, em larga medida, da justa apreciação deste verdadeiro prólogo chamado 1905 que ficava para trás.

 

O prólogo do prólogo

Engels dizia, a respeito de Marx, no prefácio à terceira edição alemã de O 18 Brumário:

“Essa notável compreensão da história viva da época, essa lúcida apreciação dos acontecimentos ao tempo em que se desenrolavam, é, realmente, sem paralelo”3.

Pode-se dizer que Lenin ombreava com Marx nesta capacidade, adquirida não só através de árduo estudo, como também pela participação direta na luta de classes.

Em 1904 estourou a guerra russo-japonesa. Lenin recusou qualquer atitude defensista, ou seja, de “defesa da pátria”, nesta guerra de partilha. Ao contrário dos mencheviques, ele denunciou vivamente a guerra como uma disputa entre dois bandos imperialistas e previu que ela aceleraria a decomposição da autocracia czarista4. Assim, escreveu Lenin sobre a fragorosa derrota sofrida pelo Império na Batalha de Porto-Artur, em que as tropas russas perderam cerca de 120.000 homens entre mortos, feridos e prisioneiros:

“A capitulação de Porto Artur é o prólogo da capitulação do czarismo5”.

Em 9 de janeiro de 1905, 140 mil pessoas se reuniram em São Petersburgo. Seu objetivo era entregar uma petição ao Czar reclamando melhorias nas condições de vida. A direção deste movimento estava nas mãos de um agente provocador, o Padre Gapon, que seria justiçado em 1906 por um grupo de combate ligado ao Partido Socialista-revolucionário. Nas cercanias do Palácio de Inverno, a tropa abriu fogo contra os operários desarmados: mais de mil deles morreram na hora. A indignação varreu a Rússia e o “Domingo Sangrento” foi a chispa que incendiou toda a pradaria. Assimilando o impacto destes episódios na consciência das amplas massas, Lenin diria, ainda no calor dos acontecimentos:

“Não haverá medidas draconianas nem proibições capazes de conter as massas das cidades, enquanto se deem conta de que, sem armas, se verão condenadas a ser metralhadas em massa pelo governo, ao menor pretexto. Cada qual se esforçará por todos os meios a procurar um fuzil, ou pelo menos um revólver, por ocultar suas armas à polícia e por se preparar para oferecer resistência aos sanguinários lacaios do czarismo. Os começos, diz o adágio, são sempre difíceis. Aos operários custou muito trabalho passar à luta armada. Porém o governo os obrigou agora a isso. Deu-se o primeiro passo, o mais difícil de todos”6.

A revolução, afinal, rebentara, confirmando a genial previsão de Lenin.


Lenin recebeu no exílio, em Genebra, os informes do estouro da revolução na Rússia. É apaixonada sua primeira saudação aos operários insurretos, publicada no jornal Vperiod (órgão bolchevique), a 24 de janeiro de 1905:

“Força contra força. Ferve a luta nas ruas, se levantam barricadas, crepitam as descargas e troam os canhões. Correm rios de sangue, levantam-se as chamas da guerra civil pela liberdade. Moscou e o Sul, o Cáucaso e a Polônia se dispõem a unir-se ao proletariado de Petersburgo. ‘Liberdade ou morte!’, é agora a consigna dos operários. Muito se decidirá hoje e amanhã. A situação muda a cada hora. O telégrafo transmite notícias espantosas e todas as palavras empalidecem ante os acontecimentos de que somos testemunhas. Cada um deve estar preparado para cumprir com seu dever de revolucionário e de social-democrata. Viva a revolução! Viva o proletariado insurreto!”7

A revolução crescia. Teses há muito defendidas pelos marxistas na Rússia, como o papel dirigente do proletariado na revolução futura, e que foram objeto de longos trabalhos teóricos da juventude de Lenin – dentre os quais se destaca O desenvolvimento do capitalismo na Rússia (1898) – realizavam-se perante os olhos de todos. Apenas em janeiro o número de grevistas atingiu a cifra de 440 mil, o que equivalia a mais do que fora registrado nos dez anos anteriores. Atrás dos operários, animadas por eles, começavam as sublevações camponesas, cresciam as manifestações estudantis e intelectuais, a revolução ganhava um caráter realmente popular.

Os problemas da tática, isto é, do que fazer nestes momentos críticos, em que não se admitia a menor perda de tempo, passavam à ordem do dia.

É preciso saber ensinar algo à revolução

O movimento espontâneo de massas ultrapassava em muito as forças orgânicas social-democratas, elas próprias, cindidas entre bolcheviques e mencheviques e uma série de grupos intermediários, que Lenin chamava de “o pântano”. Mas esta era só uma faceta da questão. De toda a Rússia brotavam forças novas, frescas, apresentando-se para a luta revolucionária. Lenin não admitia, nestas horas, nenhum ar de desalento, de reclamação, de decadência, e estigmatizava os camaradas presos aos velhos tempos. Já em fevereiro, dizia, no seu trabalho Novas tarefas e novas forças:

“O organizador prático que se queixa, nestas condições, da falta de homens, se equivoca como se equivocava madame Rolland quando em 1793, no momento culminante da grande revolução francesa, escrevia que a França não tinha homens, que todos eram pigmeus. Quem assim se expressa não vê o bosque porque o impede as árvores; reconhecem que os acontecimentos os cegaram, que em vez de dominar, como revolucionários, com sua consciência e atividade, os acontecimentos, se deixam dominar e ultrapassar por eles. Semelhantes organizadores deveriam passar à reforma e abrir caminho às forças jovens, cuja energia substitui amiúde com vantagens o que lhes falta em experiência”8.

Como é evidente, os problemas de organização entrelaçavam-se profundamente às grandes questões da direção política do movimento. Lenin já cimentara muito antes, em Que fazer? (1902), os princípios ideológicos do partido marxista de novo tipo, assentando a justa relação entre consciência e espontaneidade, ou, entre a organização dos operários e a organização dos revolucionários. Agora, diante da maior revolução desde a Comuna de Paris, que punha fim ao período de “desenvolvimento relativamente pacífico” atravessado pela Europa em quarenta anos, a vida submetia o Partido a uma prova muito séria. Lenin sempre defendeu a necessidade de aprender das massas, observar e colher suas formas de luta e seu espírito criativo, entretanto – anotava – a tarefa não é somente aproveitar os ensinamentos da revolução; é preciso também que saibamos ensinar algo à revolução, imprimir-lhe um cunho proletário, a fim de assegurar-lhe a vitória verdadeira9. Ou seja: o problema da tática nada mais é do que o problema de assegurar os meios para que o proletariado dirija a revolução, e não se prostre covardemente na cauda dela, lamentando a “debilidade das próprias forças”, a “incultura das massas” ou outros disparates do tipo, sempre ressuscitados pelos reformistas. Dizia:

“A todos os oportunistas agrada dizer-nos: aprendam da vida. Lamentavelmente, eles entendem por vida só as águas quietas dos períodos pacíficos, os tempos de estancamento, nos quais a vida apenas avança. Eles, gente cega, ficam sempre atrasados com relação aos ensinamentos da vida revolucionária. Suas doutrinas mortas sempre ficam atrás da torrente impetuosa da revolução, que expressa as mais profundas reivindicações da vida, aquelas que involucram os mais arraigados interesses das massas populares”10.

Lenin reclamava não apenas uma análise científica, criteriosa, da correlação de forças e do futuro do movimento revolucionário, mas também um vivo trabalho de agitação e propaganda entre as massas, orientado por consignas acessíveis, combativas e claras. Repudiava o método oportunista de eludir as grandes necessidades do tempo com frases tão grandiloquentes quanto ocas. Dizia, a propósito: “O oportunista necessita sempre de consignas que, vistas de perto, só contém frases sonoras, como uma espécie de decadente acrobacia verbal11.

Defendia e empenhava grande parte do seu tempo em escrever editoriais curtos, acerbos, palpitantes, para o órgão do Partido e as organizações locais. Deste modo:

“Nos artigos de Lenin publicados pelo Proletári, o Partido recebe uma análise marxista científica da marcha da revolução, brilhantes prognósticos sobre seu desenvolvimento ulterior, palavras de ordem claras e precisas, amplas diretivas e indicações”.12

Além do órgão ilegal do Partido, ele logrou, nestes meses tempestuosos, com a ajuda de Máximo Gorki, fazer circular um jornal político legal de massas, o Novata Jizn (“Vida Nova”).

No entanto, não era apenas o problema das consignas que atraía a sua atenção. A questão das novas formas de luta apresentadas pela revolução russa – destacadamente, da transformação da greve de massas em insurreição armada – assumia grande relevo:

“Por outro lado, para determinar de modo concreto a tática de um partido revolucionário nos momentos mais tempestuosos da crise nacional de que sofre o país, é a todas as luzes insuficiente limitar-se a assinalar quais classes são capazes de atuar em prol do triunfo da revolução. (...) Por isso, se ao avaliar os períodos revolucionários, nos limitamos a determinar a linha de ação das distintas classes sem analisar suas formas de luta, nosso juízo será incompleto, desde o ponto de vista científico não será dialético, e desde o ponto de vista político prático degenerará em raciocínios mortos13.

Lenin fustigava, portanto, os “dirigentes” que se contentavam em ser “intérpretes do movimento”, ficando à margem dos acontecimentos; fustigava os que se limitavam a propor tarefas, sem saber forjar os instrumentos capazes de realizá-las. Exigia de todo o Partido que se educasse e educasse às massas nas próprias ações de combate. Ensinava a militância (sobretudo os dirigentes) não só a ler nos livros, ensinava-a também a ler na própria vida.

Material para tanto não faltava. A revolução seguia seu curso, implacável. As greves de massas se estendiam pelo país, e os primeiros Sovietes da história se formaram. Na primavera, o campo entrou decididamente na luta: mesmo nos recônditos mais sonolentos da velha Rússia semifeudal o chão parecia tremer, e a luta de classes despertava as massas camponesas, não raro reprimidas com selvageria pelos gendarmes. Destacamentos guerrilheiros formavam-se espontaneamente. Em junho de 1905 ocorreu um fato de importância capital: o Encouraçado Potemkin, um dos orgulhos da frota de guerra do czar, sublevou-se perto de Odessa, onde os operários vinham travando uma luta política encarniçada. Durante vários dias a bandeira vermelha tremulou perante o mundo.

Esta situação punha na ordem do dia o problema da insurreição armada. Essa questão ocupa, de fato, desde o início dos acontecimentos revolucionários, e principalmente a partir do segundo semestre, todas as atenções e toda a energia de Lenin. Contudo, antes de passar à nova fase, havia uma outra questão histórica fundamental posta sobre a mesa: a da relação entre a revolução burguesa e a revolução socialista.

‘Somos partidários da revolução ininterrupta’

Um dos novos problemas apresentados em 1905 foi o do papel do proletariado na revolução democrático-burguesa, nas condições particulares do século XX. Este problema tinha, no seu cerne, a questão da aliança operário-camponesa, e era, desde logo, um ponto de divergência irreconciliável entre bolcheviques e mencheviques.

Nas primeiras semanas das jornadas revolucionárias, Lenin escreveu, em seu artigo Duas táticas: “A partir de 9 de janeiro, o movimento operário está se convertendo perante os nossos olhos em uma insurreição popular14. Apoiando-se na famosa carta de Marx, em que este dizia que o triunfo da revolução democrática na Alemanha dependeria de uma “segunda edição das guerras camponesas”, assim como na sua posição acerca da repartição da terra nos Estados Unidos (passagens cuidadosamente soterradas pelos oportunistas), o chefe da revolução russa dirá:

“Dificilmente haverá no mundo outro país no qual o campesinato tenha que sofrer tantas torturas, tal opressão e humilhação como na Rússia. Porém, quanto mais sombria tenha sido a opressão, tanto mais poderoso será o despertar, tanto mais irresistível sua acometida revolucionária. E ao proletariado revolucionário com consciência de classe corresponde apoiar com todas as suas forças esta acometida, para que não deixe pedra sobre pedra da velha e maldita Rússia autocrática, feudal, escravista, para que faça surgir uma nova geração de homens livres e intrépidos, uma nova Rússia republicana, na qual possa travar-se livremente nossa luta proletária pelo socialismo”15.

Em outra parte, cravará: “Pois da revolução democrática começaremos a passar em seguida, e precisamente na medida das nossas forças, das forças do proletariado com consciência de classe e organizado, à revolução socialista. Somos partidários da revolução ininterrupta. Não nos deteremos na metade do caminho”16. É preciso reconhecer que nascia aí o esboço da formulação que, doze anos depois, orientaria os bolcheviques no labirinto histórico instalado entre fevereiro e outubro de 1917.

Além do problema camponês e da relação entre revolução burguesa e socialista, cujo desenvolvimento já constituía um enorme passo à frente em relação ao século XIX, Lenin sentava com estas formulações as bases de uma verdadeira teoria da hegemonia, que se demonstraria crucial à medida em que as tempestades revolucionárias se deslocavam para o Oriente, onde a classe operária era apenas uma minoria da população. Como atuar no movimento democrático-burguês florescente? O proletariado defenderia uma revolução do tipo da de 1848 – isto é, um aborto de revolução – ou uma do tipo de 1789, isto é, verdadeiramente popular, radical, jacobina? Os comunistas deveriam marchar a reboque da burguesia traidora ou à frente do proletariado e do campesinato revolucionários? Estas questões ocupam uma parte enorme dos escritos (e, consequentemente, do valioso tempo) de Lenin naqueles dias. 

Aos que temiam que o proletariado “perdesse” a direção do movimento, e usavam este temor como justificativa da inércia e da paralisia, ele replicava:

“Desde o ponto de vista proletário, a hegemonia corresponde, na guerra, a quem luta com maior energia, a quem sabe aproveitar todas as ocasiões para assestar um golpe ao inimigo, àquele cujas palavras não diferem dos fatos e que é, portanto, o dirigente ideológico da democracia, que critica tudo o que sejam posições às meias”17.

Para Lenin, a formulação madura, cientificamente exata do problema, seria: ditadura democrático-revolucionária do proletariado e do campesinato, cujo órgão seria o governo provisório revolucionário, apoiado nas massas armadas. Como se sabe, foi essa a linha adotada pelo III Congresso do POSDR (reunido em abril, em Londres, que foi sabotado pelos mencheviques, que se reuniram em Conferência à parte), cujas teses Lenin desenvolveu no seu magistral trabalho Duas táticas da socialdemocracia na revolução democrática, aparecido pela primeira vez em julho daquele ano, em Genebra. Aí, Lenin não deixará pedra sobre pedra do menchevismo e da sua torpe posição de fazer do movimento revolucionário um mero apêndice da burguesia liberal contrarrevolucionária. Trata-se, na verdade, não apenas de duas táticas, como também de duas estratégias distintas e antagônicas.

A título de ilustração, compare-se a original, e dialética, formulação leninista da passagem da revolução democrática à revolução socialista, da aliança operário-camponesa e da luta do proletariado por assegurar a hegemonia na revolução, com o que dizia o menchevique L. Trotsky naqueles dias:

“O poder revolucionário só pode se apoiar numa força revolucionária ativa. Quaisquer que sejam os pontos de vista quanto ao desenvolvimento posterior da revolução russa, o fato é que nenhuma classe social, salvo o proletariado, mostrou-se até hoje capaz de apoiar o poder revolucionário e nem sequer disposta a fazê-lo”18.

Que papel dirigente caberia ao proletariado na revolução, se se resignasse a ser tão somente vanguarda dele mesmo? Que seria feito do “poder revolucionário” se ficasse isolado, incapaz de se apoiar numa espécie de reedição das guerras camponesas? Para Lenin, Trotsky, com efeito, não passava de um “charlatão”:

“Quando o charlatão Trotsky escreve agora... que um ‘padre Gapon só pode surgir uma vez’, que ‘não há lugar para um segundo Gapon’, o faz simplesmente porque é um charlatão. (...) Para chegar a ser grande, uma revolução democrática que recorde e sobrepasse a dos anos 1789-1793, e não a de 1848-1850, tem que pôr de pé massas gigantescas, incorporá-las à vida ativa e aos esforços heroicos, a uma ‘fundamental realização histórica’; tem que arrancá-las da terrível ignorância, da opressão inaudita, do incrível atraso e do estupor sem esperança em que vivem”19.  

Como se vê, nenhuma semelhança havia entre a tese da “revolução permanente” à lá Trotsky e a teoria científica da revolução permanente de Marx e da revolução ininterrupta de Lenin. Somente a falsificação histórica poderia reivindicar algum parentesco entre essas e aquela.

Notas:

  1. Publicação da Ediciones Akal, que apareceu na Espanha em 1974, disponível na íntegra no site marxists.org
  2. Informações biográficas deste período, agora e doravante, retiradas de: “Lenin (sua vida e sua obra)”, editorial Vitória, Brasil, 1955. As exceções serão assinaladas.
  3. Engels, “Prefácio à terceira edição alemã de O 18 Brumário de Luís Bonaparte”, na coletânea “Textos - volume 3”, Edições Sociais, p.201.
  4. Para o pano de fundo dos acontecimentos, ver “História do Partido Comunista (bolchevique) da U.R.S.S.”, aparecido originalmente em Moscou, em 1938, e publicado pela primeira vez no Brasil pelo editorial Vitória, em 1945.
  5. Lenin, “Obras completas”, Akal Editor, Espanha, Tomo VIII, p. 44.
  6. Lenin, idem, p. 105.
  7. Lenin, idem, p.65.
  8. Lenin, idem, p.226.
  9. Lenin (sua vida e sua obra), p. 94.
  10. Lenin, op.cit., tomo IX, p.199.
  11. Lenin, op. cit., Tomo VIII, p. 169.
  12. Idem, p.103.
  13. Op.cit, Tomo XV, p.50.
  14. Op.cit, Tomo VIII, p.150.
  15. Idem, págs. 342-343.
  16. Op. cit, Tomo IX, p.232.
  17. Idem, p.71.
  18. L. Trotsky, “A Revolução de 1905”, aparecido originalmente em 1909. Disponível na internet em: https://www.marxists.org/espanol/trotsky/ceip/permanente/conclusionesde1905.htm#_ftn1
  19. Lenin, op. cit., Tomo VIII, p. 301.

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