A justeza da análise e o golpe militar que nem todos previram

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Após a posse de Bolsonaro e, mais especificamente no último mês, diversas siglas da falsa esquerda eleitoreira esbanjam análises falando sobre um tal golpe militar em marcha. Neste caso falam como se fosse um segundo golpe, pois para eles o impeachment de Dilma fora um golpe concluído com a posse de Temer. Porém o golpe militar em curso fora planificado pelo Alto Comando das Forças Armadas (ACFA) reacionárias diante das revoltas populares de junho de 2013-14, desencadeando sua ofensiva contrarrevolucionária preventiva. O que hoje está claro, não o estava ontem, embora já existisse. E os que estão munidos do materialismo dialético histórico já haviam previsto o fenômeno antes de seu aparecimento evidente.

No Editorial As vestais do velho Estado, de setembro de 2017, AND denunciou já a planificação de um golpe de Estado, enquanto todas as forças oportunistas escaramuçavam-se em torno da farsa eleitoral que só chancelaria o que os generais conquistassem com seu manejo. Em tal Editorial afirmou-se:

“Nenhuma reforma política possível de ser aprovada neste congresso poderá salvá-lo de sua bancarrota, tampouco a intervenção militar que se planifica como saída última do imperialismo...” (nessa e nas seguintes citações os negritos são nossos).

Um mês depois, AND aprofundou sua denúncia. Sistematizou-se a situação de golpe militar como crise militar devido ao desenvolvimento de alguns fatos através dos quais pôde-se, conhecendo a história de nosso país como as leis da sociedade brasileira, fazer a análise concreta da situação concreta e fazer previsões científicas mais profundas.

O Editorial Crise militar e a completa falência das instituições, afirmou: “… as declarações do general Mourão a respeito de uma possível intervenção militar... mostram que... as declarações são expressão de uma vontade das cúpulas e setores das Forças Armadas. A confirmar esta constatação, temos a leniente reação do ministro da Defesa e do comandante do Exército para não falar do alheamento de Temer”. E, aprofundando a denúncia do próprio conteúdo do golpe militar, afirmou-se: “… o que se coloca é uma intervenção militar para efetuar uma assepsia nas instituições”.

Em março de 2018, quando as condições já permitiam, o Editorial de AND 205 estampava: Intervenção militar e golpe de Estado. A denúncia, mais robusta, foi assim desenvolvida: “O decreto federal de intervenção militar no Rio de Janeiro... é um passo a mais na direção do golpe de Estado militar contrarrevolucionário preventivo a uma futura e inevitável insurgência popular que já atormenta o eixo Washington-Brasília”.

E prossegue, apontando a relação da Operação “Lava Jato” com toda a situação: “Desde o início da Operação ‘Lava Jato’ temos afirmado a ação de uma ‘mão oculta’ manejando a campanha anticorrupção, no objetivo imediato de limpar a fachada das principais instituições do Estado, desgastadas e desmoralizadas na opinião popular, e salvar seu sistema do rechaço completo pelo povo, como a crescente abstenção eleitoral (além dos votos nulos e brancos) atesta, transformando-se em subversão aberta. Tal manejo operado pelo Ministério Público e Judiciário, secretamente centralizado por determinada seção do ACFA, é inspirado pela Embaixada ianque e conta com as trombetas da Rede Globo”.

Na edição seguinte, de março de 2018, AND apontou o caráter gradual e ampliado do golpe, isto é, seu modo de operar diferente de 1964. “Os militares vieram trabalhando em silêncio a intervenção militar planificada, a qual continuará a ser ampliada até que surjam as circunstâncias... convenientes para se consumar o completo golpe de Estado”, expôs o Editorial O golpe militar e a intervenção militar ampliada. Nesse mesmo Editorial afirmou-se também, tal como fica plenamente evidente somente hoje para boa parte do oportunismo, que a situação correspondia a “um Plano do Estado Maior”.

Na edição 208, em abril de 2018 (momento qual o oportunismo não levantou sequer sussurros em protesto contra a tutela e intromissão dos generais na eleição) AND assim denunciou em sua capa: Em marcha golpe de Estado contrarrevolucionário!, constando na foto uma reunião do Alto Comando do Exército.

O Editorial dessa edição afirmou: “Chegado a um estágio tal de inevitável putrefação, a luz vermelha do establishment acendeu-se frente ao descrédito e falta de legitimidade... Nesse contexto, a Operação ‘Lava Jato’ foi lançada para fazer uma assepsia geral nas instituições do velho Estado por salvar seu sistema de exploração decantado como ‘Estado Democrático de Direito’... Porém saiu do controle, dada a gravidade da crise estrutural desse capitalismo burocrático vigente, atingindo todas as esferas da política oficial, agudizando ainda mais a luta pelo controle da máquina de Estado entre seus grupos de poder”.

E mais: “Mirando o fracasso da operação de limpeza nas aparências das carcomidas instituições desta velha ordem burguesa semicolonial e semifeudal..., os reacionários põem em marcha o seu golpe de Estado contrarrevolucionário preventivo à inevitável e violenta rebelião das massas frente ao incremento da exploração, desigualdades e opressão levado a cabo por este sistema e seu velho Estado. Tal como a intervenção militar golpista, as labaredas da rebelião popular se alastrarão por todo o país. Quem viver verá!”.

A essa altura, na luta política com diversas forças que atuam nos movimentos populares, não era incomum aos que difundiam o AND ouvir rejeições ou reclamos, dizendo tratar-se de anacronismo, ou de “teoria da conspiração”. Os fatos falaram por si.

Depois, já com a eleição e posse da chapa Bolsonaro/Mourão, conformada como uma imposição deste como vice-presidente (assim analisou AND), este órgão evidenciou a tutela exercida pelos generais enquanto alguns apenas viam convergência entre eles.

O Editorial Quem governa o país, entre fevereiro e março, assim afirma: “Os meses seguintes tratarão de deixar patente que Bolsonaro só pode desempenhar o papel de máscara de proa, e ainda assim, até onde e enquanto for útil [ao ACFA]”. E prossegue: “O general Mourão das declarações na Maçonaria... repentinamente deu lugar a um Mourão moderado e comedido. Tal transmutação só cabe ser concebida como produto de importante orientação, ou melhor, de uma ordem”. (…) “O golpe militar contrarrevolucionário preventivo foi desatado bem antes do processo eleitoral, se instalando neste governo (que não foi de sua escolha) como produto das circunstâncias... sufragado nas urnas da farsa eleitoral”, assim arrematou esse Editorial, um dos primeiros após a posse da chapa.

Sem mais avançar no conteúdo dos demais Editoriais de AND daí em diante – embora fosse interessante fazê-lo para demonstrar a profundidade e justeza das análises e das previsões materialistas dialéticas – fica já bastante claro o poder da ciência do proletariado manejado por esse instrumento da luta do povo.

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