Artes plásticas a serviço do povo

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Carioca que vive e trabalha no Rio de Janeiro, a artista plástica Marcela Cantuária procura retratar em seus quadros temáticas como a luta de classes, a exploração da força de trabalho, guerras e guerrilhas, a luta da mulher popular, dentre outras questões políticas/sociais do Brasil e do mundo, tendo a filosofia do materialismo histórico dialético como ponto de partida na sua pesquisa. Formada em pintura na Faculdade de Belas Artes da UFRJ, Marcela busca trazer à tona problemáticas do passado e presente, lançando um olhar crítico para a história e criando uma perspectiva de futuro melhor. 

— A pintura entrou na minha vida ainda na infância, assim como acontece com quase todas as pessoas, porém eu continuei pintando e faço isso até hoje, com 29 anos de idade. Entrei na faculdade em 2010, mas já pintava na época do colégio, de uma forma bem intuitiva. Depois fui categorizando e entendendo as coisas que eu queria fazer e me aprimorando eventualmente com o trabalho técnico cotidiano – conta Marcela. 

— Moro no Grajaú [bairro do Rio de Janeiro], já dei muitas aulas de pintura no meu ateliê e trabalhei de várias formas para tentar arrancar o meu sustento através da arte, nem que fosse fazendo retratos e pinturas sob encomenda. Hoje em dia, tenho mais liberdade de ação, de criação, mas foi um percurso até poder conseguir isso – continua. 

Marcela encara a sua pintura como algo que está ligado à sua vontade de transformação da realidade social. 

— Trabalho muito em uma zona da imaginação de algo no horizonte. Entendo que tenho interesse de construir, visualizar, imaginar novos tipo de sociedade, com superação das opressões de classe, de gênero, de raça, então pinto lançando mão tanto desse ideal político de superação das opressões – explica. 

— Acredito que o papel da arte é trazer uma inspiração de algo novo, e eu procuro despertar essa inspiração nas pessoas, que por sua vez também me despertam para a pesquisa, por exemplo, mulheres que lutaram na América Latina. Vou pensando as histórias e fazendo a pintura narrativa, o suporte para que elas possam existir no imaginário coletivo naquele que olha o quadro – continua. 

— Tenho uma série que fala das mulheres que buscaram a emancipação através das lutas sociais. Essas mulheres são do território brasileiro e do latino-americano de uma forma geral . 

Marcela gosta de retratar, de alguma forma, as lutas no âmbito global, um encontro de vários povos. 

— Faço uma espécie de montagem, uma colagem digital. A partir disso projeto na tela e pinto. A colagem abre uma possibilidade de transformar o tempo em um ponto único, tanto passado quanto presente, e também as mirabolações do futuro – relata. 

— Considero esse processo pertinente porque acho que estamos atravessando um momento muito prejudicial para nós enquanto povo, no sentido de termos um passado apagado, um passado de regime militar. Assim, acredito que a pintura vem reafirmando tanto as feridas quanto as lutas . 

 

Telas com lutas e sonhos 

— Tenho também uma série chamada Futuro do Pretérito, de 2018, em que pinto pensando principalmente na Comissão da Verdade na América Latina. São telas pequenas com algumas imagens mais antigas, da década de 1960, então faço tratamento de cor, colocando numa paleta bem luminosa,  de cores fluorescentes – relata Marcela. 

— Uso esse recurso na intenção de acender, ficar um trabalho bem vivo, lembrando o fato da nossa memória ter sido apagada pela ideologia dominante, e contra o pensamento hegemônico. Trabalho com quase todas as técnicas no meu cotidiano, por exemplo, me utilizo de spray quando necessário, aquarela quando o suporte é papel, porém óleo e acrílica são as que mais uso no meu ateliê – continua. 

— A pintura mural também é algo que me interessa muito. Gosto da ideia de pintar na rua, sinto que esse trabalho tem uma ação direta com o público. Essa arte pertence às pessoas que se deixam atravessar, que passam por essa pintura e apreciam, aos moradores próximos do muro, enfim, ninguém pode tomar posse desse trabalho e ao mesmo tempo é de todos.  

No momento Marcela está trabalhando na construção de um oráculo com figuras ligadas à cultura brasileira. 

— Nesse oráculo os arquétipos não são os tradicionais, como o rei, a rainha e sim da música, arte, poesia, literatura brasileira. As pinturas do oráculo serão fotografadas e essas fotos serão impressas em cartas e ele será vendido em livrarias. São 45 cartas, estou fazendo os originais agora e para mim tem sido uma experiência muito boa. 

— Estou me aprofundando na cultura brasileira, me utilizando mais de uma linguagem simbólica, que é bem da imaginação, e ao mesmo tempo refletindo sobre o momento que vivemos, por exemplo, uma das cartas tem uma frase do Cazuza: “Meus inimigos estão no poder” e para ilustrar eu fiz uma montanha de ossos, de crânios, com o Bolsonaro bem pequenininho em cima, fazendo a mãozinha de arma – descreve. 

Marcela realiza ainda oficinas de pintura em ocupações urbanas visando despertar a vontade de transformação através da arte. 

— Quando me coloco dentro de uma ocupação urbana e busco prefigurar uma sociedade ideal e um futuro mais digno para todos, lançando mão da nossa própria história, de gente que também lutou por isso. São pessoas que estão na ponta mais frágil da sociedade, não têm a segurança de uma casa, então coloco a arte para servi-las de alguma maneira – expõe. 

— Elas já estão cansadas das atividades do dia, de ir no Tribunal de Justiça brigar com o proprietário do terreno e chegam nas oficinas de pintura depois de toda essa dureza da vida, então tenho que pensar qual seria a casa ideal para elas e a partir disso ir ativando sonhos, prefigurando a Revolução, aparecendo o que será o bem estar social para elas. São jovens, mulheres adultas e mais velhas, todas tendo a pintura como dispositivo de imaginação de um futuro ideal – conclui Marcela. 

Os contatos da artista são: www.marcelacantuaria.com.brEste endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.,  (21) 9 9376-3303. 

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