Energia para o povo do Brasil

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Definir energia não é uma tarefa fácil. A palavra vem do grego ergos e significa trabalho. De acordo com Engels, o trabalho é a condição básica e fundamental de toda a vida humana 1. No ciclo da vida, a luz do Sol que chega à Terra é o elemento fundamental para que ocorra a fotossíntese nos vegetais. As plantas são a base da cadeia alimentar e permitem que os animais (incluídos os seres humanos) possam se alimentar para viver. Não é exagero dizer que a energia está em tudo, se apresentando de diversas formas: (i) Biomassa; (ii) Solar; (iii) Eólica; (iv) Nuclear; (v) Hidráulica; (vi) Elétrica; (vii) Mecânica, etc.

Há 400 mil anos o Homo erectus dominou o fogo. Há 12 séculos o ser humano começou a usar tração animal na agricultura, a energia dos ventos e da água para moer grãos e também fez uso dos ventos para mover barcos. Entre os séculos I e V, os romanos usaram lenha para forjar armas de metal resultando na devastação das florestas da Itália e península Ibérica. Nessa mesma época, os chineses utilizaram sistemas de elevação da água para irrigação.

Energia para o povo do Brasil

A matriz energética mundial, conjunto de fontes de energia utilizadas nas atividades humanas, permaneceu inalterada até a Revolução Industrial no século XVIII com o uso do carvão mineral. Em meados do século XIX iniciou-se a Era do Petróleo, utilizado inicialmente para a produção de querosene e óleos lubrificantes. Com a invenção do motor de combustão interna (ciclo Otto) em 1861, a gasolina, que até então era um subproduto da fabricação de querosene, passou a ser utilizada em grande escala nos automóveis. Até os dias de hoje, o petróleo é a fonte de energia mais utilizada no mundo. As duas guerras mundiais comprometeram o abastecimento de petróleo, o que levou ao desenvolvimento de energias renováveis como o gasogênio e o biogás.

Nos anos de 1973 e 1979 ocorreram as chamadas “crises” do petróleo, que tiveram origem na percepção das grandes multinacionais do setor (sete irmãs) de que estavam entregando ouro líquido (petróleo) e recebendo papel pintado (dólares – Nixon acabara com a paridade ouro-dólar em 1971) dos donos de Wall Street. Qual foi a solução dessa crise? Endividar os países pobres com petrodólares. O papel pintado foi colocado à disposição de países dirigidos por classes dominantes venais, inicialmente a juros negativos, porém flexíveis a critério do credor2. Aumentou-se assim a dívida externa dos países pobres, que continua sendo paga com o sangue, suor e lágrimas dos trabalhadores da América Latina, África e Ásia.

Nos anos 1970, durante as “crises” do petróleo, o Brasil desenvolveu uma alternativa à gasolina por meio do Programa Nacional do Álcool (PróÁlcool), que consistiu no aproveitamento da energia disponibilizada pelo Sol (reator de fusão nuclear) e armazenada nos vegetais na forma de hidratos de carbono (açúcares, amidos, óleos, celulose e hemicelulose)2. O ProÁlcool teve por base a cana-de-açúcar e, em que pese ter sido calcado no sistema latifundiário dos usineiros às custas do trabalho servil e semisservil dos trabalhadores agrícolas, cumpriu o objetivo proposto. Durante a melhor fase do ProÁlcool os carros a etanol, por exemplo, chegaram a representar 97% dos veículos ciclo Otto fabricados no Brasil.

No entanto, o Brasil estava avançando além do permitido para uma colônia. Os gerentes de turno do Estado brasileiro eram os facínoras de coturno, lacaios do imperialismo, principalmente ianque. O ProÁlcool passou então a ser minado por dentro e começou a degringolar. Nos dias de hoje os brasileiros, proprietários de carros flex vivem fazendo as contas dos 70% entre o preço do etanol e da gasolina. Raramente completam o tanque com o combustível renovável. Dessa forma, atualmente o PróÁlcool se resume na produção de etanol que vai misturado (25%) com a gasolina.

Discutiu-se no nosso país a implantação do Programa Nacional de Desenvolvimento Tecnológico de Biodiesel (Probiodiesel) que consistia na substituição do óleo diesel proveniente do petróleo por óleos vegetais, uma outra grande oportunidade para independência energética. No nosso território temos vários tipos de óleos vegetais: babaçu, dendê, girassol, mamona, buriti, macaúba, etc., mas longe de representar uma possibilidade de desenvolvimento social no campo brasileiro e inclusão da agricultura familiar, o Probiodiesel é apenas mais uma política feita para manter a mamata dos latifundiários. Em sua etapa atual B12 (12% de biodiesel misturado ao óleo diesel), tem-se que aproximadamente 70% do óleo vegetal é oriundo da soja produzida pelo “agronegócio”. O Probiodiesel se tornou, na realidade, uma forma do latifúndio desovar a soja que não consegue vender para a China (que adquiriu cerca de 80% da produção de 2019). É importante frisar que os veículos que possuem motor ciclo Diesel podem rodar com 100% de óleo vegetal.

No momento em que os rumos do país se encontram nas mãos do Alto Comando das Forças Armadas (ACFA), Congresso de corruptos, “justiça desafinada” e de um fascista desprezível como Bolsonaro, é fundamental que não percamos a perspectiva da construção de uma nação verdadeiramente livre, soberana, justa e solidária.

Como dizia um grande cientista brasileiro, o Prof. Bautista Vidal3, que esteve à frente do ProÁlcool, “o uso extensivo da biomassa tropical não avança se não tiver forte apoio político-institucional”. É fundamental que vislumbremos o papel que a energia da biomassa poderá desempenhar no Brasil quando cumprirmos a tarefa histórica da Revolução de Nova Democracia. Poderemos ser autossuficientes energeticamente, atender às demandas do nosso povo e exercer o protagonismo mundial na área das energias renováveis.

 

Referências:

  1. ENGELS, Friedrich. Sobre o papel do trabalho na transformação do macaco em homem. 1876. Disponível em: <http://forumeja.org.br/sites/forumeja.org.br/files/F_ANGELS.pdf>. Acesso em: JUL/2020.
  2. VIDAL, J. W. Bautista & VASCONCELLOS, Gilberto F. Poder dos Trópicos: Meditação sobre a alienação energética na cultura brasileira. São Paulo: Sol e Chuva, 1998.
  3. Bautista Vidal (1934-2013): Nascido em Salvador na Bahia. Formado em Engenharia Civil (1958), trabalhou como professor assistente no Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas – CBPF (1959 – 1960). Concluiu o doutorado em Física Nuclear na Universidade de Stanford (Estados Unidos, USA) em 1963. Em 1975, concebeu o Programa Nacional do Álcool (PróÁlcool). Defensor ferrenho da biomassa como uma bandeira para o futuro do país.

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