O violão e os seus sotaques

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Gaúcho de Encantado, cidade a 130 quilômetros de Porto Alegre, o violonista Fernando Graciola dedica sua vida ao violão, tocando o instrumento e realizando pesquisas em torno da sua pluralidade, que inclui violão clássico e popular. Atuando em um quinteto, um trio e um duo e realizando o projeto Sotaques do Violão, Fernando trabalha intensamente para divulgar o instrumento que elege como um dos mais populares e acessíveis ao povo.

– Não  venho de uma família de músicos profissionais, a música em casa sempre aconteceu de uma maneira informal, nas reuniões familiares. E quem me incentivou a tocar foi o meu irmão mais velho, que  tocava canções brasileiras, através das revistinhas de violão, bastante comuns naquela época – conta Fernando.

– Mais tarde, na adolescência, comecei a participar dos Centros de Tradições Gaúchas, os CTGs, que fazem parte do movimento tradicionalista gaúcho, apresentando atividades artísticas que envolvem música, poesia, dança, tudo voltado ao folclore gaúcho. À medida que eu dançava, declamava poesias e cantava músicas do Rio Grande do Sul nos CTGs, ia me interessando ainda mais em tocar.

Fernando aprecia outros instrumentos, sobretudo o piano, segundo comentou, porém, sua preferência pelo violão é bastante clara.

– O violão é super popular, de fácil acesso ao povo, juntamente com a maioria dos instrumentos de percussão. É claro que existem violões bem caros, mas os simples têm um preço acessível às grandes massas. E quando nasceu esse formato de instrumento que conhecemos hoje, isso lá pelo século XVIII, era muito comum de se ver um violão em barbearias, por exemplo, é um dado histórico sobre o  instrumento, o que acredito ter contribuído para a sua popularidade – expõe.

– Atualmente ele se destaca nos bares que têm música ao vivo e nas rodas, quando pessoas se reúnem para tocar e cantar. Por ser um instrumento portátil pode ser facilmente transportado, o que ajuda a torná-lo mais querido pelo povo. A pessoa se sente protagonista por conseguir ter o seu violão no colo e poder tocá-lo. Seja violão ou guitarra, o instrumento está muito inserido na música popular do Brasil e do mundo – afirma.

A música brasileira tem várias escolas, segundo Fernando, explicitando assim a pluralidade do instrumento.

– Tem o violão dentro do choro, por exemplo, que possui uma linguagem específica de contraponto, a escola do Dino 7 Cordas, do violão tocado 7 cordas, com cordas de aço, mais orquestral, digamos assim, mais polifônico, todo pensado musicalmente na questão de texturas. Tem o grande Garoto, que fez uma escola do violão brasileiro, já na primeira metade do século XX – relata.

– Depois o violão de 7 cordas ganhou um espaço maior como solista, com  o Raphael Rabello e mais tarde o Yamandu Costa, que leva esse violão para outro lado. De uma forma geral, aqui no Brasil temos uma gama de violonistas compositores, e cada um tem um sotaque, uma estética, que acaba consolidando a música brasileira nas suas mais variadas vertentes – continua.

– Temos o violão da bossa nova, aquela maneira de tocar do  João Gilberto, por exemplo, que foi muito emblemático; temos o violão de cordas de aço, tocado geralmente no pop rock; temos o violão de concerto, da música brasileira de concerto, enfim, uma gama enorme. Além da música brasileira, ele é muito representativo na música latino-americana em geral – acrescenta.

Fernando Graciola

Fernando Graciola
Foto: Fábio Zambom

Tocar e divulgar a pluralidade do violão

– Por uma vontade de continuar valorizando o nosso instrumento, o violão, e evidenciar todo o pluralismo que ele tem aqui no país e na América Latina em geral, eu e o Eddie Turatti, da Prorecords Produções, criamos o projeto Sotaques do Violão, em março de 2017. A  nossa busca maior é mapear as diversas linguagens, os diversos sotaques do instrumento, em qualquer estilo – conta Fernando.

– A princípio o projeto se chamaria Sotaques do Violão ao Sul, porque a ideia era entrevistar cinco violonistas gaúchos, de diferentes vertentes, uns mais atuantes na música folclórica, outros na música de concerto, e colocar as gravações na minha página no Facebook. Mas isso estava soando um pouco bairrista, e acabou não nos agradando, então o projeto ganhou asas e gravamos com músicos da Argentina e depois de São Paulo, mostrando de maneira plural o violão brasileiro em geral – relata.

– Primeiramente publicamos um episódio por mês, depois, a partir de 2019, dois episódios por mês, e agora, a partir da pandemia, passamos a realizar lives todas as quartas e sábados, pelo Instagram do Sotaques, além dos programas especiais. Além da América Latina, pretendemos ir para outras partes do mundo, seguindo com as gravações e transmissões ao vivo. Estamos planejando também realizar um festival online do Sotaques, ainda este ano, com concertos, debates, enfim, voltado para a educação e a parte artística – anuncia.

Além do Sotaques do Violão, Fernando tem outros projetos: o Quinteto Canjerana (música gaúcha contemporânea), juntamente com Maurício Gaita Horn (acordeom), Maurício Lito Malaggi (bateria e percussão), Tiago Ferrari Daiello (contrabaixo acústico) e Zoca Jungs (guitarra, violão e viola caipira); Mafuá Trio Instrumental, juntamente com Ronison Borba (acordeom) e Pedro Kaltbach (violino); e o duo Sul do Mundo, com Paula Rodríguez (voz e flauta).

– Atuo também como professor de música, com aulas particulares, agora totalmente a distância por causa da pandemia, e estou lançando um treinamento online até o final do ano, voltado para as pessoas que querem começar a tocar o violão. A ideia é levar o máximo que eu puder da minha experiência para ajudar outras pessoas a tocar violão.

– E tenho pretensão de, já no primeiro semestre de 2021, gravar meu primeiro CD solo, que está em fase de pré-produção. Pretendo mostrar minhas composições de violão solo somente. Tenho um outro projeto também que é voltado à canção, o Sul do Mundo, que é mostrar os ritmos da América Latina. Está um pouco parado no momento, mas deve voltar em 2021 com força – conclui Fernando Graciola.

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