MG: Acampamento é despejado e resiste

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Após mais de 60 horas de resistência, aproximadamente 450 famílias camponesas foram covardemente expulsas na madrugada do dia 14 de agosto do acampamento Quilombo Campo Grande, localizado em meio a antiga Usina Ariadnópolis Açúcar e Álcool S/A, no município de Campo do Meio, Sul de Minas Gerais. A violenta operação, que teve início no dia 12/08, foi comandada pelo 64º Batalhão da Polícia Militar (PM) do governo do reacionário de Romeu Zema (partido Novo), e terminou com dezenas de pessoas feridas.

A ação contou com um grande aparato militar, com viaturas, drones, tratores e dezenas de policiais de cidades próximas. .No dia anterior ao despejo, a polícia já rondou o acampamento com viaturas e drones, intimidando as famílias. 

Camponeses resistem bravamente a despejo em Minas Gerais.

Camponeses resistem bravamente a despejo em Minas Gerais.
Foto: Gean Gomes

Os ataques da tropa de choque começaram pela Escola Popular Eduardo Galeano, quando os agentes  interditaram-na antes de começar a ação de despejo dos camponeses, que denunciam que tiveram suas casas invadidas, e suas portas e janelas, quebradas pelos agentes da repressão. Os camponeses seguiram em luta, e cinco dias após o despejo realizaram uma manifestação em frente à prefeitura de Campo do Meio para exigir testes de Covid-19 e controlar a contaminação pela doença no território. O ato prosseguiu em frente às lojas Zema, em que os manifestantes carregavam cartazes denunciando o descaso e covardia do velho Estado.

Para agravar ainda mais a covardia, cerca de dez dias após o despejo, vários tratores destruíram ilegalmente partes do acampamento que ainda não tinham sido alvo de decisão judicial. De acordo com a denúncia, moradores colocaram-se na frente dos tratores para impedir a ação.

Além disso, um acampado, conhecido como Pastor Otelino, foi à delegacia abrir um Boletim de Ocorrência para denunciar a ilegalidade da operação e se viu sendo detido de surpresa, e liberado apenas dias depois.

Em nota emitida, o Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos (Cebraspo) afirma que “a ação criminosa contraria até dispositivos do reacionário judiciário brasileiro: em maio o Supremo Tribunal Federal determinou a suspensão de todos os processos judiciais de reintegração de posse e de anulação de demarcações de terras indígenas durante a pandemia de Covid-19. A aglomeração causada pela polícia contraria inclusive todas as normas sanitárias para a prevenção do contágio do coronavírus”.

 

Os interesses do latifúndio

O latifundiário João Faria da Silva é o principal beneficiado por essa ação, junto a Jovane Moreira de Souza, este último tido como mandante dos crimes recentemente cometidos contra os camponeses.

O acampamento Quilombo Campo Grande está localizado em parte da área da falida usina Ariadnópolis Açúcar e Álcool S/A, que ocupava um total de 363 hectares, e pertencia à Companhia Agropecuária Irmãos Azevedo (Capia), e também em parte da chamada Fazenda Ariadnópolis. O latifundiário Jovane se reinvidica dono de ambas porções de terra.

A usina teve sua falência decretada devido aos calotes e processos trabalhistas de Jovane, e 300 hectares da antiga usina foram tomados pela União e destinados à “reforma agrária” no final dos anos 90. Ou seja, além da área da Fazenda Ariadnópolis, apenas os 63 hectares restantes estavam passíveis de uma ordem judicial, porém o judiciário e a PM avançaram sobre todo o acampamento.

Jovane busca reativar a usina para cumprir um acordo comercial com a empresa de João Faria, a Jodil Agropecuária e Participações LTDA. Faria é considerado um dos maiores produtores de café do país e o acordo envolveria o arrendamento dos 4 mil hectares totais que integram o acampamento para produção do grão, embora toda essa terra não pertença a Jovane.

As tramas dessa relação não param por aí. Segundo o portal De Olho nos Ruralistas, João Faria possui dívida total calculada em absurdos R$ 1,8 bilhão. Em um processo tramitando em Campinas, estão envolvidos pelo menos 358 credores, dentre este diversos funcionários buscando direitos trabalhistas. Com o latifundiário Jovane de Souza, a história não é diferente. Dada a falência da usina em 1996, este também ficou devendo cerca de R$ 1,2 milhão de multas trabalhistas, que se soma a mais R$ 1,5 milhão não pagos de FGTS.

 

A sanha imperialista

Ainda segundo o portal De Olho Nos Ruralistas, foi identificado que os principais compradores da produção de João Faria são os monopólios Nestlé e Jacobs Douwe Egberts, fato confirmado por Faria em entrevistas. As duas empresas já foram denunciadas na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) por explorar trabalho com relações servis, também chamado de “análogo ao escravo”.

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