Inspirando e pintando ideias

Artista popular que usa a sua arte como uma ferramenta para expor ideias, a pintora cearense Anuska Alves segue defendendo uma arte genuína, que não seja feita simplesmente como uma encomenda, visando o lucro. Natural de Caucaia, Anuska é uma artista da periferia, underground (independente), que passo a passo alcança novos campos, já tendo trabalhado com tecidos, “patchs”, letras, entre outros. 

— A arte surgiu na minha vida através da música, dos grandes clássicos de rock que meu pai ouvia, e eu sempre por perto para ouvir também. Com o tempo me interessei pelo desenho, pintando de tudo, principalmente desenho animado – conta Anuska.

— Profissionalmente comecei por acaso, em 2014. Eu não conseguia arrumar emprego e já pintava “patchs” pra mim. Então um amigo me deu a ideia de pintar e vender para ele, eu fiz e começaram os pedidos, encomendas. Acredito que existem pessoas que tendem a ter aptidão, mas é a prática que leva à perfeição, e assim fui fazendo, treinando muito e melhorando a cada dia — continua.

— É uma longa caminhada até um artista da periferia ser reconhecido e, às vezes, ele nem consegue. Vejo muita gente adquirindo materiais de artistas só por serem famosos, e muitas vezes a arte dessas pessoas nem é tão boa, e enquanto isso lá na periferia tem um jovem pintando uma arte muito melhor, com conteúdo, e ninguém sabe, porque ele não é famoso. Não existe fama para quem é artista underground  periférico, nós lutamos com dificuldade e todo dia é uma luta diferente, um dragão para enfrentar – expõe.

Anuska realiza um trabalho voltado para questões sociais, seja uma pintura em camisa, frases, tecidos etc.

— As pessoas têm a opção de me entregar a camisa ou o material, e então pinto de acordo com o que me é pedido, dentro da minha ideologia, de como enxergo o mundo. Faço o trabalho com muito amor e o melhor material possível, incluindo tecido, pincel, tinta. Tento ao máximo conseguir coisas que sejam baratas, mas que tenham boa qualidade – relata.

— Se uma pessoa me pede “patchs” em um boné, por exemplo, compro o boné, faço o “patch” em um jeans reutilizado, colo no boné e fica perfeito, parecendo com aqueles de marca que a pessoa compra por R$ 70. Gasto uns R$ 20 para isso e vendo por R$ 35 para que eu possa sobreviver do meu trabalho – prossegue.

— Vivemos em um mundo capitalista que sempre está visando o lucro, mas eu não estou nessa engrenagem. Vemos muitos artistas que ao alcançarem um pouquinho de fama supervalorizam a sua arte. Acredito que mesmo que eu não queira cobrar pela minha arte eu preciso fazer isso, pelo menos para cobrir o valor do material usado, porém, acho um absurdo cobrar R$ 200, R$ 300 em conjunto de canetinhas, conjunto de giz de cera – fala.

Produções da artista popular Anuska AlvesProduções da artista popular Anuska Alves - @anuska_alves_art

Arte ao alcance do povo

— Acredito que quando um artista cobra um preço fora do orçamento do povo, ele está negando a acessibilidade, está privando as pessoas de ter aquele material. Esse tipo de ação está mais de acordo com o sistema capitalista e não contra ele. Se alguém cobra um preço absurdo, por mais que seja uma marca de protesto, só está contribuindo com o sistema, está longe de ser subversivo – expõe Anuska.

— Alguns dizem que cobram muito porque usam material biodegradável, outros porque a cor dura mais, enfim, são mil e uma justificativas, mas acho que o nome disso é “ganhar em cima”, é querer explorar as pessoas através de uma marca. Eles cobram caro mesmo e se o povo não tem dinheiro para comprar significa que não merece ter a sua arte ou que deve trabalhar muito para poder adquiri-la – continua.

Anuska acredita também que o artista não pode produzir simplesmente por dinheiro.

— Na adolescência conheci o movimento punk e fui seguindo de acordo com os meus pensamentos, vendo onde me encaixo, pelo que acho justo lutar. E sempre coloquei na minha cabeça que devo ser livre com relação a minha arte, nunca me vender, e nunca fazer o que eu não acredito – declara.

— Tem gente que diz “se o cliente está pagando então eu faço”, comigo já não funciona assim, porque acho que a arte vai muito além do dinheiro. Penso que se eu produzir por dinheiro estarei indo atrás da ganância, totalmente adaptada ao capitalismo. Tem muita gente vendida por aí afora, pessoas que deixam de ter os seus próprios pensamentos, deixam de voar por si próprios, tudo por causa do dinheiro, da fama – fala.

— O capitalismo transforma tudo em mercadoria, até a forma de resistência e protesto às vezes. Infelizmente hoje temos que viver com ele, porém não quer dizer que temos que nos sujeitar. Eu vendo a minha arte, mas nada do que fuja do que sou e penso. Não faço e nem pretendo fazer dinheiro por fazer, tendo o suficiente pra sobreviver está ótimo, não vou me vender para um mercado que lucra como abutre – continua.

Anuska acredita que a arte já nasceu com um potencial para o protesto, para ferramenta de expressão, retrato da realidade.

— Se eu não posso usar a arte para isso, ela não vale de nada. Trabalho com arte subversiva, contra o sistema e acho que qualquer arte tem o poder de conscientizar as pessoas e alcançar quem mora na roça, na favela, nas periferias etc. Ela pode falar com muita gente e despertar um pensamento crítico nas pessoas. Um poeta, um cantor, um ator, um artista plástico, um pintor servem como inspiração – defende.

— Sendo inspiração para alguém o artista acaba levando sua ideologia, e isso é importante porque mostra a sua posição diante de algo. E ter opinião e posição é fundamental. Penso que mesmo fazendo arte subversiva, nós estamos de alguma forma dentro do sistema, porque vivemos neste mundo, então ao invés de colaborar com esse sistema, nós devemos parar um pouco e analisar se o que estamos fazendo está alimentando o sistema ou não — expõe.

— Meu projeto atual consiste em levantar a minha marca, que é uma marca de protesto, e minha ideia é trabalhar essa acessibilidade por parte das pessoas, cobrando aquilo que gastei para fazer o trabalho e não visando o lucro. É um pouco complicado conseguir levantar essa marca, principalmente por causa da dificuldade financeira, mas estou conseguindo caminhar, e agora vou começar a pintar quadros. Estou bastante entusiasmada e comprando os materiais aos poucos – conclui.

Os contatos da artista são: @anuska_alves_art e (85) 99656-8900.

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