Em meio de crises e sobre pilhas de cadáveres, os generais governam

A- A A+

Os fatos trazidos à tona, novamente, reforçam a análise que temos feito sobre o governo militar de fato que vigora no país. Instabilidade política, incessantes crises institucionais, ameaças e iminência de rupturas e preparativos de intervenção militar total para suprimir o “Estado Democrático de Direito” têm sido expressão da continuada disputa pela direção da ofensiva contrarrevolucionária preventiva, há cinco anos em curso no país, entre a extrema-direita de Bolsonaro e a direita do Alto Comando das Forças Armadas (ACFA). Nem mesmo ante a pandemia, cujo abandono do governo ao povo já matou mais de 160 mil brasileiras e brasileiros, há qualquer comoção em ambos, que seguem indiferentes, administrando o silencioso genocídio. E bem ao contrário dos cenões e rompantes do capitão, com seu bordão “quem manda sou eu” (como disse na última escaramuça, sobre a vacina chinesa), o que tem prevalecido é o comando dos generais reacionários de sempre e a obediência forçada do capitão, esperneando à espera de um novo contexto para seu próprio regime militar.

Quem o confirma é o monopólio de imprensa. A revista Veja, através de fontes sigilosas de dentro do governo, relatou que em maio de 2020 o atual governo passara por mais um de seus abalos sísmicos.

Naquele então, o fascista Bolsonaro teve ciência de que seus filhos seriam presos, por mandado que seria expedido por Alexandre de Moraes, e que ele próprio poderia ser cassado caso tentasse qualquer movimento brusco no sentido de mobilizar suas hordas nas polícias militares e na sua base – cada vez menor – de suboficiais das Forças Armadas. Tal informação foi passada ao impotente presidente por “auxiliares do Planalto”.

Marcha camponesa celebra os 16 anos da heroica resistência camponesa de Corumbiara/RO, em 9 de agosto de 2011Marcha camponesa celebra os 16 anos da heroica resistência camponesa de Corumbiara/RO, em 9 de agosto de 2011 - Foto: Banco de dados/AND

A prisão seria dentro do inquérito que apura financiamento criminoso aos “ataques à democracia”, que incluem as manifestações golpistas de rua e os robôs online financiados para achincalhar o Congresso, o Supremo Tribunal Federal (STF) e os demais podres poderes pregando como solução um golpe militar “com Bolsonaro no poder”.

Confirma o que dizíamos: o STF (cuja composição é hegemonicamente da direita tradicional parlamentar e que tende, em geral, a se opor a planos de golpe militar, pois lhe retiraria funções e força e, consequentemente, debilitaria totalmente os grupos de poder aos quais estão vinculados seus integrantes) está enganchado nas baionetas dos generais, refém da ofensiva contrarrevolucionária preventiva em marcha. É impressionante a pusilanimidade das “vossas excelências” de toga.

Toda essa direita tradicional, que alguns querem apresentar como “democratas” e “em prol da democracia”, reitera sua essência nestes momentos. Diante da gritaria horrenda dos bolsonaristas ou da atuação contundente das massas populares, tal direita tradicional tende mesmo a se refugiar, amedrontada, embaixo das gandolas dos “civilizados” generais golpistas, referendando o golpe por vias constitucionais. A acompanha o oportunismo petista e dos revisionistas, ainda satélites seus, com covardia ímpar.

Qual golpe de Estado conduzido por vias constitucionais é este? É o desatado em 2015, como Operação “Lava Jato”, como acordo firmado pelo núcleo do establishment (os círculos mais poderosos dos grandes banqueiros e industriais, os mais poderosos dentre os latifundiários, do monopólio de imprensa, além de altos burocratas e seleto grupo de procuradores, sob a centralização do ACFA com a embaixada ianque como “conselheira”) para tentar salvar seu sistema de exploração e opressão do povo e da Nação da decomposição avançada em que se acha. É sua resposta preventiva posterior ao grande levante de massas de 2013-14, que pusera a nu a falta de legitimidade do falido e putrefato sistema político.

Os generais, anticomunistas viscerais, têm por objetivo concentrar o Poder em suas mãos, mas de modo dissimulado, preferencialmente com aparência de governo civil, objetivo a ser alcançado através da deformação da constituição com coações, ameaças às outras instituições e às forças políticas. Movem-se assim como tática por impedir a inevitável amplitude da resistência popular que uma brutal intervenção militar causaria. Essa reestruturação do velho Estado de concentração absoluta do Poder no Executivo urge como necessidade para cumprir outras duas tarefas também cruciais à salvação da velha ordem ameaçada de ruína: aumentar a superexploração do povo e a entrega da Nação para tentar tirar a economia do buraco, impulsionando o enfermo capitalismo burocrático, e conjurar o perigo de Revolução ou de esmagá-la quando esta se levante.

Não é que o golpe conduzido pelos altos comandantes seja constitucional em si: ele deforma, através de ameaças com seu poder militar, a constituição ou a interpretação que se faz dela e impõe reformas que a reduz ainda mais, tudo para justificar legalmente os caminhos traçados e chegar aos seus objetivos terroristas. Nesse sentido ocorreram quase todas as falas públicas de chefes militares sobre política nos últimos quatro anos.

Já Bolsonaro, que arquiteta e apregoa um golpe, com ele à cabeça, debilitado nos últimos meses, segue jogando com a opinião pública reacionária de modo a desmoralizar ainda mais as instituições e, diante do caos social, forçar os generais a fechar o regime político agora, já, contexto em que a extrema-direita tende a se impor. Sabe que necessita de popularidade e fará de tudo entre ceder e fechar acordos para reeleger-se, pois que, para seus planos golpistas, estar no Planalto é mais de meio caminho andado. Contudo, ambos os bandos – Bolsonaro e generais – querem o reino do terror contrarrevolucionário para esmagar os revolucionários e as massas organizadas, cercear e amedrontar os democratas e progressistas e “limpar” o terreno para explorar como nunca antes todo o povo e entregar de vez a Nação à sanha das corporações do imperialismo, principalmente ianque (Estados Unidos, USA). Só as vias de lá chegar é que são diversas.

O que precisa estar bastante claro a todos é que a situação por qual passa o nosso país, de podridão do sistema político, de ofensiva da reação e de miséria e frustrações para as massas, é inevitável enquanto as coisas permanecerem intactas na base. A base da sociedade é esse capitalismo burocrático, atado ao latifúndio e cujas riquezas produzidas são drenadas para o capital financeiro, ao imperialismo, em cima do qual se ergue esse Estado genocida e em essência burocrático e oligárquico, que nunca foi democrático, mesmo no sentido burguês do termo. Somente a Revolução Democrática, Anti-imperialista, iniciada pela Revolução Agrária, pode transformar tudo.

Em tempo: as eleições reacionárias deste ano só farão chancelar, dar toque de legitimidade a esse golpe militar; mesmo os resultados mais substanciais dessas eleições, saibamos de antemão, terão interferência deliberada dos generais, de modo a favorecer às forças políticas alinhadas a seu plano. A única saída é, no imediato, impulsionar um poderoso boicote às eleições reacionárias, introduzir a consciência revolucionária no boicote espontâneo das massas populares desacreditadas deste sistema; no curto prazo, é apostar na mobilização delas em defesa de seus direitos pisoteados e desprezados, fazendo a reação sentir a sua força. As próprias massas devem aprender a estimar a força poderosa que possuem e não sabem, assim como estimar a energia sem limites que sua mobilização política libera. É tarefa dos revolucionários mostrar-lhes.

Edição impressa

Endereços

Jornal A Nova Democracia
Editora Aimberê

Avenida Rio Branco 257, SL 1308 
Centro - Rio de Janeiro - RJ
Tel.: (21) 2256-6303
E-mail: [email protected]

Comitê de apoio em Belo Horizonte
Rua Tamoios nº 900 sala 7
Tel.: (31) 3656-0850

Comitê de Apoio em São Paulo
Rua Silveira Martins 133 conj. 22 - Centro
Reuniões semanais de apoiadores
toda segunda-feira, às 18:45

Seja um apoiador você também:
https://www.catarse.me/apoieoand

Expediente

Diretor Geral 
Fausto Arruda

Editor-chefe 
Victor Costa

Conselho Editorial 
Alípio de Freitas (In memoriam)
Fausto Arruda
José Maria Galhasi de Oliveira
José Ramos Tinhorão 
Henrique Júdice
Hugo RC Souza
Matheus Magioli Cossa
Montezuma Cruz
Paulo Amaral 
Rosana Bond

Redação 
Ana Lúcia Nunes
Rodrigo Duarte Baptista
Vinícios Oliveira

Ilustração
Taís Souza