‘Justiça’ anula condenação de policiais que assassinaram camponeses na fazenda Tucumã

O julgamento dos policiais que assassinaram barbaramente o camponês Alysson Henrique de Sá Lopes, atearam fogo em seu corpo e desapareceram com Ruan Lucas Hildebrant na cidade de Cujubim, interior de Rondônia, em fevereiro de 2016, foi anulado a pedido do Ministério Público, no início do mês de outubro deste ano.

Com esta absurda decisão, fica invalidado o júri que havia condenado os guaxebas* de farda pelos odiosos assassinatos dos dois jovens, tentativa de homicídio contra outros três, ocultação de cadáver e carbonização do corpo de Alysson. Segundo as denúncias, todos esses crimes foram executados atendendo ao que seria uma “encomenda” do latifundiário Paulo Iwakami (vulgo Paulo Japonês), que teria pago R$ 105 mil a Sérgio Sussumu Suganum para contratar os policiais que cometeram os assassinatos.

Com o grupo também foi apreendido um arsenal, incluindo metralhadora, espingardas, revólveres e munições, entre outros equipamentos bélicos usados para cometer os covardes crimes contra os camponeses.

A anulação, inclusive, já serviu de base para a tentativa de relaxamento da prisão do pistoleiro Jonas Augusto dos Santos Silva (vulgo Bá).

Jovens camponeses assassinados por policiais em Rondônia no ano de 2016. Foto: Reprodução/Resistência Camponesa.

Histórico do crime que vitimou os jovens

O assassinato dos jovens se deu quando os cinco camponeses foram covardemente atacados por pistoleiros ostensivamente armados no momento em que haviam ido de carro até a fazenda Tucumã, latifúndio então recém-desocupado, para buscar alguns pertences que haviam sido deixados para trás durante o despejo.

Na ocasião, três dos cinco rapazes conseguiram escapar com vida da emboscada, um dos quais relatou ter visto Ruan caindo no chão enquanto fugia dos disparos.

A fazenda “do Japonês”, como é conhecida a área, em referência ao latifundiário que se diz proprietário das terras, havia sido desocupada por famílias em luta pela terra no dia 28 de janeiro, três dias antes dos cruéis assassinatos.

Os pistoleiros foram julgados e condenados devido à gravidade dos crimes e à pressão popular, que já se levantava em uma campanha contra as perseguições, reintegrações de posse, sequestros, torturas e assassinatos de camponeses e lideranças, com a realização de um ato público convocado pela Liga dos Camponeses Pobres (LCP).

O sargento pistoleiro Moisés Ferreira de Souza foi condenado a 30 anos de prisão e seus comparsas, Jonas Augusto dos Santos Silva (vulgo Bá) e Sérgio, a 28 e 8 anos de prisão, respectivamente. Já o cúmplice Suganum, amigo do latifundiário Paulo Japonês, e contratador dos serviços de pistolagem, recebeu uma pena de somente 8 anos e 4 meses. O latifundiário mandante, apesar das denúncias e acusações, foi absolvido, como sempre.

É importante destacar que o sargento e pistoleiro Moisés Ferreira de Souza também é apontado como chefe dos pistoleiros que torturaram e assassinaram barbaramente 9 camponeses, em 19 de abril de 2017, no estado do Mato Grosso, massacre que ficou conhecido como Chacina de Colniza.

Dois dias após o corpo carbonizado do jovem Alysson Henrique ter sido encontrado amarrado dentro de um carro incendiado, no dia 3 de fevereiro de 2016, a polícia afirmou que o PM Moisés Ferreira de Souza havia conseguido escapar algemado, no momento em que era colocado na viatura por ter agredido um policial.

O relato da fuga “incomum” do sargento pistoleiro não convenceu e foi tido por todos como zombaria da inteligência do povo, diante da clara facilitação de fuga do criminoso por parte dos policiais do 7º Batalhão.

O sargento pistoleiro que se deslocava junto de outros três guaxebas (Cristovão Rodrigues, Valdemir Pires dos Santos e Daniel Francisco dos Santos) estava em posse de um arsenal que incluía uma submetralhadora 9mm, três espingardas 12, uma espingarda 28, uma espingarda 16, um revólver 38, mais de 300 munições intactas de diversos calibres, carregadores, coletes balísticos, capuzes, um rádio transmissor, celulares e documentos de outra caminhonete Amarock.

Vale destacar também que, na ocasião da emboscada que assassinou os camponeses Alyson e Ruan, e que quase matou os outros 3 jovens, moradores de Cujubim relataram ter visto vários pistoleiros fortemente armados e vestindo roupas camufladas em duas caminhonetes, abrigados na sede da fazenda Tucumã.

Segundo as denúncias, os criminosos chegaram a abordar vários camponeses da região perguntando se tinham visto os jovens, demonstrando a clara intenção dos bandidos em assassinar também as testemunhas sobreviventes.

Nenhuma dessas denúncias resultou, entretanto, em investigação séria contra a sede da fazenda Tucumã ou do latifundiário Paulo Iwakami, que segue até hoje inocentado “sem provas” de seu envolvimento com os assassinatos.

Um relato da Comissão Pastoral da Terra (CPT) de setembro de 2020 evidencia também que, a despeito da mobilização dos pais de Ruan na busca pelo filho, as equipes de policiais que atuaram no caso intervieram mais para esconder evidências do que realmente investigar o crime.

Já no caso de Alysson Henrique Lopes, mesmo após o corpo carbonizado do jovem ter sido encontrado, demorou mais de um ano para que os órgãos do velho Estado realizassem exame de DNA e comprovassem sua identidade.

A mãe de Ruan e seu irmão mais novo foram ainda obrigados a buscar proteção frente às ameaças e provocações do latifúndio e guaxebas. O relato denuncia ainda que quatro testemunhas do caso foram mortas antes mesmo do julgamento.


Nota:

*Guaxeba: termo utilizado popularmente em Rondônia para designar membro de bando paramilitar que atua a serviço de latifundiários.

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