Estou em 64?

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Antes afago pensava ele era domínio
Essas aí não são suas mãos,
São as minhas
E seguras, minhas mãos buscam se impor (...)
A meu único rival, devo obedecer
Vai comandar meu duplo renascer:
O mesmo insano sustenta outra vez

Renato Manfredini Júnior

Fabiano contou o dinheiro recebido pelo seu duro trabalho e percebeu que havia menos do que o acordado. Pediu para outra pessoa contar e tirou-se a prova de que realmente havia sido enganado. Não sabia o que fazer, pois achava que não acumulara força suficiente para enfrentar o patrão e dizer-lhe que o vil metal recebido estava aquém do suor do seu trabalho. A lei era o patrão, a ordem, a moral, a democracia, tudo em perfeito estado — as oligarquias, o coronelismo, a ditadura e o esmagamento de sonhos nas Vidas Secas de Graciliano.

Certa vez conversava com uma colega, estudiosa de Graciliano, perguntava o que ela achava do fatídico caso de Fabiano, e ela me dizia que o jovem havia sido enganado porque não sabia ler, nem escrever — não era letrado. De pronto retruquei, bastaria apenas o letramento para Fabiano não ser vilipendiado pelo seu patrão-carrasco? Certamente a consciência de classe e a luta coletiva contra aqueles que esmagam sonhos poderiam fortalecer uma contra-ofensiva de Fabiano em busca da dignidade de seu trabalho e no recebimento justo de seu salário. Mas o jovem olhava de lado e só encontrava desolação. O cachorro magro, a grama seca, a falta d’água, tudo indicava que não havia nenhuma solução.

Há três meses na UERN não sei se sou, emblematicamente, o cachorro magro ou o Fabiano catatônico, mas tenho certeza de que precisamos denunciar os desmandos coronelistas arraigados em alguns patrões. Os meus trocados, já sei, estão sendo extorquidos quando não cumprido o Plano de Cargos, Carreira e Salários, ou na mesma crista da onda quando não tenho Dedicação Exclusiva para pesquisa, quando cumpro mais de 50 horas semanais de trabalho (quando o meu contrato é de 40h), quando tenho mais de treze alunos na Prática de Ensino (quando o máximo seria dez), quando tenho que cobrir a carga horária do amigo que foi cursar pós-graduação (pois não existe substituto para isso). Toda essa história não canso de repetir, todo final de mês conto e reconto os trocados e tenho certeza que alguém está a me enganar. Mas, para não parecer repetitivo e óbvio, não é esse o mote da escrita.

Tenho lido em alguns espaços midiáticos, tendenciosos da direita (que falta faz o Observatório da Imprensa Potiguar!), a opinião de articulistas políticos da UERN que afirmam ser o processo sucessório da Universidade uma prerrogativa de escolha da governadora do Estado. No estilo positivista "a lei é dura, mas é a lei", desdenha da construção histórica dos(as) trabalhadores(as) em educação que lutam pela autonomia universitária, que buscam enterrar as práticas ditatórias e de cunho fascista que se instalaram no país em abril de 64. Nunca tinha visto de maneira tão aberta a direita assumir esse caráter oligárquico, de se assumir ditador de um processo sucessório que já começa viciado recheado de mensagens telegráficas, de que se não assumir no voto, assumirá na indicação da lista tríplice.

Escrevo isso porque trabalhei numa universidade baiana e mesmo os filhotes do ‘Malvadeza’ costumavam fazer suas articulações de maneira sutil, não expondo o caráter retrógrado de maneira tão patente. Afirmar que o cargo de Reitor da UERN se compara a de um Secretário de Estado é assumir o que há de mais atrasado em termos de democracia.

A autonomia universitária é algo que não podemos abrir mão, pois, como diria o poeta, se deixarmos que a cada dia os trogloditas nos roubem um pedaço do que cabe a nós, em breve não teremos nem do que reclamar. A lista tríplice existe no plano legal, uma legalidade que não mais se legitima no âmbito universitário (a não ser na cabeça dos generais golpistas). O voto proporcional há muito vem sendo extinto nas universidades democráticas (perdoem a redundância, mas é necessária), ampliando a participação de toda comunidade através da paridade — isto tem sido realizado através de acordos entre candidatos(as).

Os articulistas políticos do retrocesso afirmam que o "Poder Absoluto de decisão é da governadora". É possível escrever algo mais reacionário, ou este é o limite desse grupo? O poder somos todos nós, oprimidos por uma máquina robusta que em poucos meses já atropela nossos sonhos, surrupia o dinheiro do nosso suor e atropela nosso desejo do ensino-pesquisa-extensão. É preciso que denunciemos em todas as esferas o golpe que se aproxima, nos sindicatos, organizações de Direitos Humanos, entidades organizadas, jornais populares, é preciso que não terminemos qual cachorro magro — ou Fabiano dilacerado — "amanhã vai ser outro dia".


Lauro Pires Xavier Neto é professor da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte – UERN
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