A crise desnuda a velha democracia

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Pesquisas realizadas pela Seade e pelo Dieese, na Região Metropolitana de São Paulo, indicam que tanto o desemprego aumentou como a renda do trabalhador vem diminuindo mês a mês. O índice de desemprego voltou a crescer e atingiu 17,1% da PEA (População Economicamente Ativa), em fevereiro. A taxa de janeiro foi de 16,7%.Do ponto de vista da renda do trabalhador, a mesma pesquisa indicou que o rendimento médio teve a terceira queda consecutiva e chegou ao pior resultado, para um mês de janeiro, desde 1985 — R$ 1.006,00. Registrou uma queda acumulada de 3,54% para os ocupados e de 5,34% para os assalariados (setores privado e público), de outubro a fevereiro. 

A elevação das tarifas públicas, bem acima da inflação, e a agiotagem generalizada, patrocinada pelos pelegos de dentro e de fora do governo, com taxas de juros escorchantes, praticadas pelos bancos (veja o artigo do Prof. Benayon, na página 3) e pelo comércio, levam as condições de vida do povo ao desespero.

Enquanto isso, ao menos 14 crianças indígenas menores de cinco anos da etnia guarani-caiuá morreram de fome no Mato Grosso do Sul, neste ano. E a seca prevista e anunciada para o Nordeste recebe um tratamento virtual, já que sua solução, como está alardeada na propaganda televisiva, é remetida para a suposta transposição do Rio São Francisco. A fome e a sede, entretanto, já batem às portas das populações interioranas da região.

A Conab (Companhia Nacional de Abastecimento), por sua vez, divulgou diagnóstico apontando que a estiagem no Sul e no Centro-Oeste deve causar uma "quebra histórica" na próxima safra de grãos e a possibilidade de desabastecimento de milho durante o ano. A estimativa da colheita de 131,9 milhões de toneladas, feita em dezembro do ano passado, encolheu para 119,5 milhões de toneladas. O milho deve cair 7,5% em relação à safra 2003/4.

E quem bancará o prejuízo? O agronegócio será compensado com a elevação do preço das commodities nas bolsas de mercadorias. Mas a parte destinada ao mercado interno será bancada pelo bolso dos trabalhadores diante do aumento do preço destes produtos.

O estado de São Paulo é hoje o melhor laboratório para analisarmos a situação de aprofundamento da crise que se avizinha. A maior economia do país tem revelado, em dimensões nunca imaginadas, que já estamos com um pé na barbárie. A ocorrência de 20 rebeliões em unidades da Febem, desde janeiro — contra 28 em todo o ano passado — é uma clara demonstração do agravamento da crise que vai fugindo ao controle dos gerentes de turno.

A burocratalha do gerenciamento social-democrata (FMI-PT e FMI- PSDB) não consegue fazer nenhuma relação entre os cerca de dois milhões de desempregados na região e as rebeliões nas cadeias e unidades da Febem, apinhadas de jovens de 12 a 28 anos. Em suas cabeças, porém, só os massacres e genocídios conseguem conter a "criminalidade". Situação gerada pela extrema exploração da nação, com a sua cumplicidade, pois, administram uma política econômica que saqueia nossa riqueza e produz o desemprego.

Construir cadeias para encarcerar o povo, principalmente sua juventude. Esta é a essência do "criativo" projeto do Governador Geraldo Alckmin, que propõe construir 41 unidades de internação regionalizadas para resolver o "problema" da Febem.

O banquete dos leões

Para manterem-se como gerentes dos interesses imperialistas, principalmente da oligarquia ianque e do capital financeiro internacional, é necessário cumprir à risca a cartilha do FMI e do Banco Mundial. Isto pressupõe a implementação das anti-reformas que aplainarão o terreno para implantação da Alca no Brasil e na América do Sul. E a prova da submissão tem que ser renovada diariamente. Os interesses dos agentes do imperialismo, portanto, não sofrem a mínima restrição. As remessas de lucros e dividendos para o exterior atingiram valores recordes no mês de fevereiro, segundo dados do Banco Central. A saída líquida de recursos foi de US$ 1,348 bilhão, maior resultado registrado no país desde setembro de 1998.

São as consequências da onda de desnacionalização do patrimônio nacional, principalmente na siderurgia, na petroquímica, nas telecomunicações e no setor elétrico.

A Vale do Rio Doce, por exemplo, anunciou o melhor resultado financeiro de sua história: a companhia obteve lucro recorde de R$ 6,460 bilhões em 2004, 43,3% maior do que o de 2003 (R$ 4,509 bilhões).

Assim como a farra da especulação financeira, tudo isto vem acontecendo com a chancela dos monopólios dos meios de comunicação, respaldados no "argumento de autoridade" de velhos economistas de aluguel e dos novos inquilinos dos quartos de fundo da República.

A briga das hienas

Depois de garantido o banquete da primeira classe, para o qual só são convidados na condição de serviçais, as classes dominantes brasileiras se engalfinham numa briga de morte pelas sobras e sobejos.

Em poucos momentos de nossa história tivemos uma imagem da República sem os retoques da hipocrisia e da mistificação. Severino, nem é melhor nem pior que os outros: simplesmente é a cara da República sem maquiagem. Ele é a síntese do atual quadro político propiciado pela velha democracia.

Uma sucessão de golpes, escândalos, factóides, cenas explícitas de fisiologismo e locupletação. Após testemunhar a desfarsatez com que conseguem jogar o seu lixo para baixo do tapete (como ocorreu com os casos Banestado e Valdomiro) a nação assiste, estarrecida e enojada, ao strip tease da velha democracia:

1Eleito Presidente da Câmara, o deputado Severino Cavalcante (PP) diz que Luiz Inácio sofre derrotas porque não se abre para uma verdadeira coalizão.
— O que não pode é o governo ficar trancado, reduzido a um pequeno número que só faz ocasionar derrotas — afirmou.
2O presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Nelson Jobim, propôs que o aumento dos deputados federais fosse sancionado sem o voto dos deputados e senadores, por intermédio de um golpe administrativo das mesas destas casas.
3 Por um "ato da mesa", a verba de gabinete dos deputados federais, foi elevada em 25%, fazendo com que ela suba de R$ 35.350 para R$ 44.187.

4 Luis Inácio fez discurso no Espírito Santo, no qual disse ter ouvido relato de um "grande processo de corrupção" na gestão anterior. Por ter dito que mandou o assessor, que lhe contou a história, se calar, Lula foi acusado pela oposição de acobertar suposta corrupção. O PSDB tentou questionar o fato no STF e abrir processo na Câmara, sem sucesso.
5— É muito estranho que um ministro que esteja por cair faça intervenção anunciada em cadeia nacional. Evidentemente que Humberto Costa (Saúde) estava querendo, em primeiro lugar, se manter no cargo e, em segundo, atirar na candidatura Cesar Maia — disse o senador Bornhausen, presidente do PFL, complementando — Esse ministro (Costa) é o mesmo que deixou o Instituto Nacional do Câncer sem remédio, no Rio. Foi o mesmo que deixou de comprar os remédios para Aids e que deixou faltar remédios para os meninos índios subnutridos. Ele não tem nenhuma condição de falar sobre competência.
6 O PSDB acusa o Sr. Luis Inácio de má-fé no caso em que a MP 237 foi editada para beneficiar Marta Suplicy, que cometeu na prefeitura paulistana a ilegalidade de exceder os gastos permitidos, a pretexto do programa de iluminação Reluz.
7 Romero Jucá é indicado para o Ministério da Previdência e assume o cargo, apesar das acusações, contra ele, de desvio de verba pública e de ter sido sócio de uma empresa que possui dívida com o INSS (Instituto Nacional do Seguro Social).
— Isso não afeta minha autoridade para ser ministro nem para ser senador — disse ele, que foi líder de FHC no Senado.
8 Luis Inácio, em Aracaju, logo que desembarcou, escapou do primeiro protesto e saiu por uma ala reservada. Depois, durante a entrega de moradias populares, policiais impediram que cerca de 200 manifestantes se aproximassem do palanque presidencial. No último compromisso oficial, outro protesto. Lula e sua comitiva entraram por uma ala separada, longe dos manifestantes, que gritavam com megafones: "Lula, você é o maior traidor do Brasil".
9 A escolha de Pernambuco como estado-sede da festa de comemoração dos 25 anos do PT foi decidida em retaliação à candidatura dissidente de Virgílio Guimarães (PT-MG) à presidência da Câmara. O partido apoiava Luiz Eduardo Greenhalgh (PT-SP). Luis Inácio não compareceu para evitar enfrentamento com partidários insatisfeitos com a "fritura" de Humberto Costa.
10O presidente da Câmara, Severino Cavalcanti (PP-PE), disse que a permanência do PP na base de sustentação do governo estava condicionada à nomeação do deputado federal Ciro Nogueira (PI) para o Ministério das Comunicações. O PMDB, por sua vez, endureceu o discurso na reta final da reforma ministerial e expressou sua insatisfação com a possibilidade de o Ministério das Comunicações sair da cota da sigla e passar para o PP. Estes episódios marcaram o fracasso das negociatas em torno de um ministério que garantisse desde já a base de apoio para a reeleição de Luis Inácio.
A pesquisa CNI/Ibope, divulgada no final de março, mostrou que os fantasmas de José Serra, Garotinho e César Maia já perturbam o sono de Luis Inácio, que apesar de manter-se à frente teve desempenho eleitoral inferior ao da última pesquisa, realizada em novembro. Enquanto as facções deste partido único formado por mais de quarenta siglas se digladiam para mostrar quem pode servir melhor ao senhor imperialista, o povo luta no campo e na cidade, se organiza e prepara verdadeiras tempestades que varrerão toda essa imundície.

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