Canções amazônicas

Cantor, compositor e violonista carioca, com uma vasta experiência em Barreirinha, Amazonas, Thiago Thiago de Mello mostra a Amazônia para o resto do país e o mundo em suas letras e músicas. Filho do poeta amazonense Thiago de Mello, hoje com 95 anos de idade, e irmão do compositor, instrumentista e artista plástico Manduka, falecido em 2004, Thiago mergulha no universo da cultura brasileira e da ancestralidade, presentes no seu trabalho, incluindo o segundo CD solo, Amazônia Subterrânea, e o livro que prepara para lançar em breve. 

— A formação e a educação que os meus pais me deram sempre teve na música um lugar muito especial. As casas onde morei na infância e adolescência, tanto no Rio de Janeiro quanto em Barreirinha, no interior do Amazonas, sempre foram muito musicais. Aos 13 anos de idade ganhei o meu primeiro violão, comecei a fazer aula de violão clássico e seis meses depois passei para a guitarra — conta Thiago.

— No meu trabalho tenho influências de autores da literatura brasileira, poetas, de gêneros como o rock, a música popular brasileira, de artistas amazônicos, e uma influência muito forte do meu pai e do meu irmão Manduka. Ele era 30 anos mais velho do que eu, meu irmão por parte de pai, e um artista genial, lançou vários discos no Brasil e exterior, morou 14 anos fora do país, fez parcerias com Geraldo Vandré, Naná Vasconcelos, gravou com Pablo Milanés — relata.

— Tivemos uma intensa convivência a partir da adolescência, ouvindo música, tocando juntos, ele foi fundamental na minha carreira. Já o meu pai sempre tocou violão em casa, tem 70 anos de produção poética e literária, parcerias com Pixinguinha, Ary Barroso, Monsueto, Sérgio Ricardo, Manduka, e comigo, nos últimos anos fizemos uma dúzia — continua.

Em alguns momentos, Thiago escreve letra e música, e em outros trabalha com parceiros.

— Minha relação com a criação musical tem sido cada vez mais intuitiva, deixo que a melodia apareça: fico cantarolando enquanto estou tocando e a coisa toma forma, igual o trabalho de um escultor com a argila. Nos últimos anos tenho feito muita música sobre o passado, a minha relação com a Amazônia, as casas do meu pai em Barreirinha. Ele as construiu no final da década de 1970, depois vendeu e elas entraram em um processo de decadência. Sempre que vou para a Amazônia e vejo essas casas, inevitavelmente, isso acaba virando música, poesia.

— Tenho uma série de letras que versa sobre o universo dessas casas, do abandono, o que podemos aprender com o passado para não repetir erros. Mas não é um olhar melancólico para o passado e sim contemporâneo, buscando aprender o valor das coisas e poder levar a Amazônia para frente. Trabalho as letras com muita liberdade, gosto de colocar palavras novas, algumas que nem eu conheço muito bem, que simplesmente escuto na Amazônia. Busco ampliar o repertório de palavras no universo da cultura do Brasil — continua.

— Compor canções sobre a Amazônia tem sido revelador de um processo de autoconhecimento, no sentido de conseguir reconhecer os caminhos que os meus antepassados tomaram. Tenho uma relação umbilical com a Amazônia, desde pelo menos o século XIX reconheço algum familiar ali, mas acredito que seja mais antigo do que isso. 

 

A Amazônia através da música

— Além de autoconhecimento, é um processo de conhecimento sobre a Amazônia. Ela compõe 9 estados brasileiros e eu sempre senti que é vista de um modo muito misterioso, folclórico pelo restante do Brasil, brasileiros não conseguem se reconhecer na Amazônia, porque além de ser distante do Sudeste e do Sul, carrega uma imagem estereotipada de que só tem floresta, índio, enfim, é uma visão muito pequena – expõe Thiago.

— Proporcionar que as pessoas conheçam a Amazônia através da minha música é para mim uma espécie de missão de vida, trabalho nesse sentido. Percebi que compor canções sobre a Amazônia significaria abrir um leque de possibilidades para um verdadeiro conhecimento sobre aquele local, aproximar as pessoas afetivamente inclusive. Quando componho sobre a Amazônia, penso que assim ela pode chamar o ouvinte carinhosamente para se mostrar — declara.

— Nas letras, busco trabalhar com palavras que tenham uma base amazônica, uma origem, inclusive no Nheengatu, a língua geral que era falada no local, antes até da chegada dos colonizadores,  e são termos que os caboclos, os ribeirinhos usam. Pude incorporar essas palavras nas viagens que faço para lá todos anos, por exemplo, marirana, nome de uma canção minha, é uma fruta que tinha no passado; cunhã ou cunhantã significa menina — relata.

Histórias amazônicas que Thiago tem ouvido durante toda a sua vida também estão presentes nas suas canções. 

— Falo do temor diante da onça, tenho uma música chamada “A Onça”; da  lenda da vitória régia, das histórias do rio, da cobra, do boto etc. Na minha música aparece uma certa paisagem amazônica, com o seu vocabulário, as suas frutas, árvores, animais. Para o meu disco atual, Amazônia Subterrânea, os produtores Bernardo Aguiar e Diogo Sili estiveram comigo lá em Freguesia do Andirá, município de Barreirinha, com o objetivo de coletarmos sons da natureza: o rio, o vento, os animais etc, uma verdadeira orquestra — conta Thiago.

— Conseguimos colocar o som natural da Amazônia no disco, mas não de um modo folclórico, porque buscamos trazê-la para o contemporâneo, através de arranjos com guitarras, percussões eletrônicas. O CD é um mergulho na Amazônia. Traz também quatro parcerias com o meu pai. Musiquei poemas seus, além disso, pegamos um áudio dele declamando o poema “Como um rio”, em um show com o Manduka, em 1982, e inserimos no disco – continua.

Amazônia Subterrânea é o segundo CD solo e quinto na sua discografia. Foi produzido por Bernardo Aguiar e Diogo Sili, que juntamente com Thiago fizeram os arranjos e participaram intensamente de todo o processo. Conta com as participações da banda Pietá, Lui Coimbra e Carlos Malta. A capa é de Maurício Negro e a mixagem de Marcos Suzano. 

— Tanto com o Escambo, com o coletivo Chama, com o coletivo Selva Lírica, grupos dos quais faço parte, quanto sozinho, venho trabalhando, preparando CDs. Tenho trabalhado também em um livro de memória e canção, com textos, letras de música, poemas, cartas antigas da minha família, bilhetes, dedicatórias de livros, fragmentos de memória, um itinerário da minha conexão com a Amazônia. Ainda não tenho previsão de lançamento — finaliza Thiago. 

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