Turquia: Trabalhadores em luta contra o governo reacionário de Erdogan

A Turquia tem sido tomada por greves massivas de diversas categorias de trabalhadores durante todo o início do ano de 2022. Operários, trabalhadores de aplicativos e médicos têm se lançado à luta contra a subida desenfreada da inflação e do arrocho salarial. Desde janeiro, eles estão organizando grandes protestos e greves.

 

Salários defasados

Na Turquia, a inflação anual oficial subiu para 48,7% em dezembro de 2021 e é a maior em 20 anos, porém a inflação real (a que as massas sentem de maneira mais aguda) ultrapassou 82%. As previsões sobre a inflação de janeiro apontam que ela deverá ser ainda maior. Os preços da energia, do aluguel e de alimentos básicos mais que dobraram, e milhões de famílias trabalhadoras turcas já não conseguem mais se sustentar.

A inflação depreciou tanto a lira (moeda turca) que mesmo o aumento de 50% do salário mínimo para 2022 é simplesmente insuficiente. Contudo, o governo do fascista Recep Tayyip Erdogan se vangloria desse aumento, enquanto as massas trabalhadoras seguem revoltadas.

O chamado “limiar da fome” – que é definido pelo próprio governo como os “gastos mensais com alimentação necessários para que uma família de quatro pessoas tenha uma dieta saudável, equilibrada e adequada” – subiu para 4.249 liras turcas (R$ 1.641), sendo que o novo salário mínimo é de 4.253 liras (cerca de R$ 1.650).

Vitória dos entregadores

Na greve de 3 de fevereiro, entregadores de aplicativos protestaram nas grandes cidades da Turquia contra os salários de fome e por direitos trabalhistas. Os trabalhadores de aplicativo, em sua maioria, são contratados informalmente e trabalham sem previdência social ou plano de saúde.

Os primeiros a entrarem em greve foram os entregadores do monopólio turco de varejo online Trendyol, em 24 de janeiro. Após uma greve de três dias, eles conquistaram um aumento de 38%. A vitória dos entregadores inspirou toda a categoria a realizar greves diante dos salários miseráveis e, logo em seguida, trabalhadores da Surat Kargo, da Aras Kargo e da HepsiJET realizaram protestos.

Os trabalhadores também exigiam seguros e planos de saúde, pois precisam dirigir de forma arriscada para acompanhar os pedidos. Mais de 200 entregadores morreram em acidentes de trânsito na Turquia entre o início da pandemia e abril de 2021.

Teoman Guner, um entregador que protestava em Istambul, disse que a maioria deles trabalha até 15 horas sem descanso. Existem aproximadamente 50 mil entregadores somente em Istambul, a cidade mais populosa do país, cerca de 15 mil na capital Ancara e mais dezenas de milhares em outras cidades.

Trabalhadores da saúde em greve

No dia 04/02, a Associação Médica Turca (AMT) encerrou um acampamento de 10 dias em frente ao parlamento e anunciou uma greve nacional de profissionais da saúde para o dia 08/02, da qual participaram milhares de trabalhadores. O acampamento começou em 26/01, em protesto por melhores condições de trabalho e contra o governo de Erdogan.

Uma das principais demandas dos protestos é o aumento dos salários-base dos médicos de clínica geral. Os salários dos médicos está próximo do salário mínimo do país (que está, por sua vez, defasado). O salário-base para médicos que trabalham no sistema de saúde público da Turquia é de 4.900 liras (R$ 1.900), enquanto aqueles com mais de 30 anos de trabalho podem ganhar até 5.800 liras (R$ 2.255).

A AMT ainda denuncia que muitos médicos de hospitais privados perderam direitos no mesmo período em que estes registraram maiores lucros. Além disso, médicos do sistema público de saúde são obrigados a atender um paciente a cada cinco minutos, o que impossibilita a prestação de cuidados de saúde de qualidade e acarreta uma pior saúde pública, segundo a AMT.

Ao mesmo tempo, a Turquia permanece entre os países com o maior índice de mortes de médicos devido à Covid-19. “Até o início da campanha de vacinação, perdemos um profissional de saúde para essa doença a cada 30 minutos”, relatou a AMT. A greve foi apoiada pelas massas turcas.

Operários cruzam os braços

Em 19/01, mais de 2,3 mil trabalhadores da fábrica de automóveis Farplas Otomotiv em Gebze, Kocaeli, entraram em greve por um salário digno. A Farplas tem fábricas em sete países e fornece peças para monopólios imperialistas como Ford, Mercedes, Renault e Tesla. Contrariando a promessa feita aos operários, a administração da fábrica demitiu 150 trabalhadores que se tornaram membros do sindicato Birlesik Metal-Is.

Em resposta, os trabalhadores ocuparam a fábrica no final de janeiro. Mais de 100 operários e vários dirigentes sindicais foram espancados e detidos em uma grande operação policial durante a madrugada. Trabalhadores de diversas fábricas na região protestaram para mostrar solidariedade.

Centenas de operários das fábricas de bebidas Kızılay, nas cidades de Erzincan e Afyonkarahisar, também realizaram greves pelo mesmo motivo. Em Afyonkarahisar, os operários demandavam o reconhecimento de seu sindicato. Além disso, exigiram que fossem integrados completamente os trabalhadores subcontratados da fábrica, assim como o fim da diferença salarial entre funcionários. Há quatro anos, alguns destes trabalhadores foram transferidos para outra fábrica sob a promessa de que receberiam auxílios como combustível e um bônus salarial. Entretanto, esses direitos foram sendo retirados, um a um. A administração da fábrica chamou unidades da polícia militarizada para reprimir os trabalhadores.

Na fábrica Alpin Socks, no distrito de Beylikdüzü, em Istambul, que produz para Adidas, Decathlon, Carrefour e H&M, operários entraram em greve e conquistaram um aumento de 2.500 liras turcas (cerca de R$ 900), além de um acordo de não demissão dos grevistas. Outros operários de Istambul também cruzaram os braços.

Aproximadamente 700 trabalhadores das minas de minério de ferro de Divrigi, na província central de Sivas, na Turquia, pararam de trabalhar no dia 14/01 por aumento salarial e ampliação de direitos. Os mineiros fecharam uma rodovia e foram até a sede da empresa Ermaden, marchando por cerca de 10 quilômetros. A greve durou três dias e foi a primeira em 50 anos.

Depois de trabalharem sem remuneração por dois meses, 250 trabalhadores da construção da Usina Nuclear de Akkuyu, da imperialista russa Rosatom, entraram em greve. Um mineiro afirmou que haverá demissões em massa. A empresa mineradora imperialista chamou a polícia militarizada turca para reprimir os operários.

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