Geraldo Vandré: da resistência à rendição (parte 4)

Julho ou agosto?

Em 1973, o regime militar continuava com sua política assassina. Enviava suas tropas para enfrentar a gloriosa Guerrilha do Araguaia, sob direção do Partido Comunista do Brasil (PCdoB). Em São Paulo, Alexandre Vannuchi Leme, membro da Ação Libertadora Nacional (ALN), era assassinado brutalmente durante a tortura. Na missa em homenagem ao revolucionário, Caminhando foi entoada e tomou as ruas da cidade¹.

Em 18 julho do mesmo ano, foi noticiado pelo Jornal do Brasil que Geraldo Vandré havia retornado para o país. Curiosamente, um mês depois, o Jornal Nacional (JN) da rede Globo, relatava que o cantor tinha voltado em 18 de agosto, dia em que exibiu uma entrevista dada logo no suposto desembarque.

Os relatos de quem o acompanhou indicam que a entrevista dada aos militares foi forjada e realizada sob pressão. Após revelarem as filmagens, os responsáveis pela gravação tentaram exibir 15 minutos da entrevista no JN, recebendo uma resposta negativa de Armando – diretor da Globo à época –, que preferiu consultar o Alto Comando das Forças Armadas (ACFA), recebendo autorização para exibi-la somente um mês após o verdadeiro desembarque.

É importante ressaltar que era e segue sendo algo típico do monopólio de comunicação exibir entrevistas com militantes arrependidos, como forma de abater a decisão ideológica daqueles que seguem lutando. A entrevista de Geraldo Vandré, até hoje não localizada nos arquivos da Rede Globo, é um dos casos mais emblemáticos. Aliás, onde ele esteve nesse um mês que separou seu retorno oficial de seu retorno forjado?

O cantor relata que os militares nunca encostaram nele um dedo sequer. Algumas informações encontradas em reportagens da época indicam que entre o dia 18/07 e 18/08, Geraldo Vandré ficou preso numa cela da Fundação Centro de Formação do Servidor Público (Funcep), pertencente à Polícia Federal (PF)². O que ocorreu lá, segue obscuro.

Um dado importante, é que imediatamente após pisar no Brasil oficialmente, em 18/07, qualquer citação ao cantor ou às suas canções foi proibida. Logo que saiu, em 18/08, as proibições caíram. Poucos meses depois, em novembro, o álbum Das Terras de Benvirá é lançado. Como o artista mais perseguido pelo regime militar lança um álbum com tamanha liberdade um mês após ter sido aprisionado secretamente em uma cela?


Fabiana

Geraldo Vandré foi pouco a pouco abandonando a carreira artística e vivendo do ostracismo. Seguiu sendo censurado em programas de televisão até cair no esquecimento. Nas tentativas de entrevistá-lo, realizadas por diversos canais de comunicação, sempre saía pela tangente ao ser questionado acerca de seus tempos de luta. Prometeu lançar obras e novos discos, algo que nunca mais realizou. No dia a dia, passou a ter comportamento explosivo, com palavras ao vento regularmente direcionadas àqueles que deram às suas músicas a alcunha de canções de protesto.

Se aproximou profundamente dos militares, afirmando que não foram os responsáveis pelos crimes do regime. No ano de 1994, apresentou junto aos cadetes da Força Aérea Brasileira (FAB) a canção “Fabiana”, composição autoral em homenagem à Aeronáutica. Possui também uma canção dedicada à Marinha, chamada “Marina Marinheira”, nunca gravada ou apresentada em lugar algum. Atualmente, vive num apartamento na República, bairro do centro de São Paulo, a maldizer os que lutam e tecer loas aos gorilas responsáveis pelos maiores crimes cometidos contra o povo brasileiro.

O brasileiro Geraldo Vandré³

Para entender o brasileiro Geraldo Vandré, é preciso compreender os limites que sua produção encontrou dentro do contexto de materialização da obra. Reprimido pelo regime militar e pelos interesses da indústria fonográfica, o movimento revolucionário e artístico se entrecruzou dentro desta camada legal, potencializando a propaganda da luta expressa na forma de canção engajada, da qual Geraldo Vandré foi o principal representante. Vale ressaltar que a medida em que o regime foi recrudescendo a repressão política e o PCBrasileiro perdendo força e influência no movimento popular, os movimentos revolucionários surgidos de dissidências do reformismo e pacifismo como a ALN e a Organização Revolucionária Marxista Política Operária (Polop) – consideramos também as que se desdobraram dessa, como o Comando de Libertação Nacional (Colina) e a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), além da Ação Popular (AP), força hegemônica no movimento estudantil durante boa parte dos anos sessenta– tornam-se importantes afluentes das posições que passou a manifestar. O que há em comum em todas essas organizações é a concepção pequeno-burguesa de mundo, pois ainda que seus propósitos fossem honestos e revolucionários, esbarravam no imediatismo típico dessa classe, expressos nas formas de luta baseadas no guevarismo – exceto pela AP, que posteriormente terá uma cisão de nome Ação Popular Marxista-Leninista (AP-ML) influenciada pelo marxismo-leninismo-pensamento mao tsetsung, tendo posteriormente parte dela incorporado o PCdoB. O que havia de mais avançado em termos de concepção proletária era o PCdoB, que nos finais dos anos 60 e início dos 70, abria caminho para a Guerra Popular com a Guerrilha do Araguaia, feito histórico para o proletariado em nosso país.

Como pode-se observar, o acirramento das contradições políticas entre 1965 e 1968 radicalizaram a luta popular, tornando-se a principal fonte das músicas de Geraldo Vandré, cuja síntese é Caminhando. O que ocorre, é que em meio ao acirramento da luta de classes, a obra foi o estopim dos parâmetros do aceitável pelo regime militar que, apesar da possibilidade de beneficiar seu algoz, via as movimentações musicais de denúncia ao sistema político como uma forma de sustentar entre as classes médias a existência de liberdades democráticas e de manter correntes as faixas de lucro das empresas do imperialismo ianque (Estados Unidos, USA), algo que durou até determinado momento. Não seria possível sustentar canções de tamanha envergadura política dentro da indústria cultural, a não ser que estivessem acompanhadas de um movimento revolucionário em condições de sustentá-las fora dessa estrutura. Não estamos aqui dizendo que esse fosse o interesse de Geraldo Vandré – pelo contrário. Apesar de suas fases de maior adesão às posições políticas oriundas da influência de organizações atuantes entre a intelectualidade artística, sempre teve interesse em fazer sucesso e atingir distinção no seio da MPB. Essa foi a cova de suas intenções, culminando no melancólico fim de sua carreira.

Para concluir, cabe afirmar que o triste homem chamado Geraldo Pedrosa de Araújo Dias, agora isolado em seu apar tamento no centro de São Paulo, não tem direito algum de acusar aqueles que afirmam o caráter de luta de suas canções de estarem desvirtuando sua obra. Se ele mesmo estiver disposto a entender o brasileiro Geraldo Vandré, basta ouvir a apresentação do cantor altivo que subiu no palco do Maracanãzinho em 1968, eternizando suas canções na história de luta do povo contra essa velha ordem de exploração do homem pelo homem e todos aqueles que a defendem.

Notas:

1- NUZZI, Victor. Geraldo Vandré. Uma canção interrompida. 1ª edição. São Paulo. Kuarup Produções Ltda. p. 122, 2016.

2- Ibidem.

3- Uma homenagem ao  célebre artigo de Tinhorão, publicado no Jornal do Brasil em 10 de Janeiro de 1974.

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