Quatrocentos contra um: a fundação do Comando Vermelho

É nas prisões do regime militar-facista, imposto pelas Forças Armadas e parte dos setores civis da sociedade brasileira, que se passa o livro do qual aqui se trata.

Assaltante de bancos, enquadrado na Lei de Segurança Nacional, que também abarcava os presos políticos do período, William da Silva Lima, autor de Quatrocentos contra um, é conhecido como um dos principais fundadores do grupo que viria a se chamar “Falange Vermelha”, logo midiaticamente renomeado “Comando Vermelho”. William, conhecido como “o professor”, é o único que traz um testemunho completo, escrito em liberdade e no próprio cárcere. É o único talvez porque os demais fundadores foram mortos ou porque entre os vivos era quem tinha condição de escrever, fatores que o tornaram responsável pelos manifestos enquanto esteve preso.

Entre suas décadas de prisão, que se iniciam antes mesmo de 1964, viveu na assim chamada Ilha Grande¹. Seu relato se assemelha às memórias do brilhante Graciliano Ramos. Se ambos os autores escreveram manifestos políticos na prisão, o de William apresenta uma linguagem muito mais simples, mas não por isso sem valor. Trata-se de um testemunho com verdadeiro conhecimento de causa.

Em Quatrocentos contra um, William denuncia com clareza a política oficial de considerar os presos como bestas e de buscar seu aniquilamento físico e psicológico. A partir da visão dos próprios presos, relata a necessidade do surgimento de uma forma mínima de organização, que visasse o respeito e a ajuda mútua para lutar contra seus algozes pela sobrevivência. O autor expõe como em seu tempo, por ter convivido com uma realidade prisional da qual foi capaz de absorver práticas dos presos comunistas do Estado Novo e mantinha tais comunistas como referência, entretanto, não foi capaz de encontrar os meios para elevar sua compreensão de mundo na Ilha Grande, onde ironicamente vivera antes O Coletivo, movimento lendário dirigido pelos presos comunistas da ditadura de Getúlio Vargas. O "professor" considerava errônea a postura da maioria dos presos políticos de distanciar-se dos presos comuns, visando demarcar sua condição de presos políticos: uma oportunidade perdida. Um dos poucos que foi na contramão a essa tendência e tornou-se seu amigo foi o grande Alípio de Freitas, que posteriormente viria a compor o conselho editorial do AND.

Efetivamente, William da Silva Lima, ainda que de maneira limitada, entrou no centro da realidade prisional, da luta dos presos e do povo em geral. O povo luta, resiste e se rebela, mas inevitavelmente seus esforços são derrotados e suas formas de organização servem a interesses que não os seus próprios, na falta de uma direção revolucionária. Posteriormente, William ironizou como aqueles presos políticos, em sua maioria, buscaram, mais tarde, se integrar ao velho Estado. Chamando-os de “festivos”, destacou sua incapacidade de dirigir o processo revolucionário.

William viveu num momento em que o revisionismo havia liquidado o Partido Comunista enquanto tal, com a derrota da Guerrilha do Araguaia e o acontecimento da Chacina da Lapa,  período em que o movimento revolucionário no país sofreu duras perdas. Na ausência de um Partido revolucionário, mas decidido a avançar na organização dos presos e garantindo-se com o nível de consciência que tinha, William aproveitou as experiências de organização que obteve na convivência com os presos políticos e fundou a Falange Vermelha. Os anos têm comprovado a limitação desse movimento e o que se tornou. Igualmente, na falta do Coletivo politizado e com clara posição de classe proletária, os presos têm lutado como podem, e de massacres como o Carandiru, surgem organizações como o Primeiro Comando da Capital (PCC).

As centenas de denúncias e os milhares de artigos de intelectuais honestos, por sua vez, chocam-se com os grandes meios de comunicação e seus programas policiais, assim como com os interesses diretos do latifúndio, do imperialismo e da grande burguesia. Logo, artigos que, sozinhos tornam-se completamente impotentes.

Por outro lado, onde há organização revolucionária, todos os milagres são possíveis e a alta organização e resistência nas prisões se eleva a um patamar superior: desde o Exército Republicano Irlandês (IRA), os presos palestinos e turcos, ao Partido Comunista do Peru (PCP), com o Dia da Heroicidade e as batalhas de El Frontón, Lurigancho e El Callao (19 de junho de 1986)².

O livro de William da Silva Lima, que denuncia a guerra promovida contra o povo pobre é mais um testemunho de que a realidade das prisões não mudará com simples denúncias, mas sim com a intervenção revolucionária daqueles dispostos a destruir toda uma velha ordem, baseada principalmente no latifúndio e que, através da expulsão dos camponeses do campo, promove o adensamento populacional  e consequentemente a criação das favelas, com suas centenas de milhares de presos e mortos pelo velho Estado.

Para aqueles que se interessam pelo tema das prisões, o livro é um testemunho curto, de pouco mais de uma centena de páginas, mas inolvidável. Seu nome nasce do cerco feito por mais de 400 policiais contra Zé Saldanha, um dos fundadores do Comando:

“À meia-noite o conjunto dos Bancários estava transformado numa praça de guerra, ocupado por quatrocentos policiais e contingentes do Corpo de Bombeiros, equipados com uma parafernália de holofotes, cães, picaretas, cordas e apetrechos afins. (…)

Policiais se espalhavam pelos telhados e parapeitos dos prédios vizinhos; emissoras de rádio e de televisão passaram a transmitir os acontecimentos ao vivo, com a presença itinerante do próprio comandante da Polícia Militar. (…) Restaram, nessa batalha sem glória, quatrocentos homens contra um. Bombas foram lançadas, picaretas abriram buracos em paredes, telhas foram arrancadas – e nada. Aproximava-se das 16h e Saldanha ainda resistia. Para a Polícia, era uma inaceitável desmoralização, diante de rádio e TV.

Às 17h30, recorreu-se a bombas incendiárias, mas os bombeiros tiveram que apagar o fogo, que ameaçava consumir todo o prédio e já atingia o local onde jazia o corpo de um policial. O encurralado não se rendia, confirmando sua fama. Veio a noite e mais uma madrugada. No raiar de 4 de abril, entraram em ação as bazucas.

Às 8h30, finalmente, caiu morto o Saldanha. Sem se render. Segundo a imprensa, a operação consumira cerca de 150 bombas de gás lacrimogêneo, 15 granadas e quantidade incalculável de munição, que destruíram 12 apartamentos.

Vitória ou derrota da repressão?”

Seja em Canudos, seja no Cangaço, seja contra Zé Saldanha ou contra o “mateiro” Lázaro, que há alguns meses ocupava os jornais, dando um “baile” nas forças policiais, o que persiste, além da subserviência do Exército e sua Força Policial de Reserva ao latifúndio é sua completa incompetência, a “coragem” para matar civis desarmados ou presos condenados e o medo de um camponês ou favelado disposto a resistir. Esse temor, antes cedo do que tarde, se tornará completo desespero, quando não apenas um, mas milhares e logo milhões, cobrarem a conta.

Adverte-se, por fim e visando privar o leitor, que, se o livro tem imenso valor, o filme homônimo lançado em 2010 serve apenas para dar náuseas.

O sistema prisional no Brasil

A situação prisional do Brasil é escandalosa. Rebeliões, massacres de presos e condições tão insólitas que superam o mais original realismo fantástico. Quem conhece os claustros brasileiros chegará facilmente à conclusão que seu objetivo último é negar a condição humana de quem lá se encontra, como muito bem disseram Graciliano Ramos em  Memórias do Cárcere e Igor Mendes em  A Pequena prisão, ao que se somam centenas de artigos de criminólogos, sociólogos e juristas.

Se a posição do Brasil no ranking mundial de mortos pela peste do novo coronavírus o aproxima do Estados Unidos (USA), quanto à quantidade total de presos, o Brasil se aproxima de forma igualmente acelerada ao “campeão” da democracia, cumprindo sua condição de república bananeira de seguir o mestre. As prisões, sob o atual regime do Velho Estado, são genuínos campos de concentração de populações excedentes que, em nosso caso, se tratam principalmente de filhos de camponeses expulsos de suas terras.

Aqueles que lá governam não são muito diferentes dos generais que cá comem suas picanhas. Se as tropas ianques (Estados Unidos, USA) e de seus aliados brincam de tiro ao alvo com civis no Afeganistão e Palestina, em nosso país soldados do Exército e sua força de reserva policial têm o mesmo proceder nas favelas, tal qual a chacina do Jacarezinho, em 2021. As balas perdidas sempre se perdem nos mesmos corpos, dos mesmos bairros, de onde provêm a maioria dos presos.

No fundo, tanto os generais que governam a semicolônia quanto os amos que os dirigem através da embaixada imperialista ianque enxergam os povos como animais, e animais de segunda categoria, pois são muito mais gentis com seus rebanhos de gado. Por isso, a política oficial para a pandemia da Covid-19 resumiu-se a contar mortos e gerenciar sua quantidade diária aceitável para evitar o colapso total dos hospitais, alternando bandeiras e medidas sanitárias correspondentes à cota de seres a serem assassinados durante a semana. Sacrificam populações inteiras como fazem com bois, porcos e galinhas quando há epidemia. Os filhos do povo, por sua vez, são concebidos como espécies de bestas que não precisam aprender: fechem-se as escolas e universidades.

Essencialmente, são as mesmas Forças Armadas que desde sempre têm tido o papel de algoz sobre nosso povo, é a mesma política desde que foram fundadas e não poderia ser diferente quando tratamos das prisões. A negação da condição humana do preso é a expressão carcerária da política oficial do velho Estado e de seu núcleo: as Forças Armadas.

 

Notas:

1- Por lá passaram homens como Alípio de Freitas, José Duarte (ver O Maquinista da História,  disponível no site de AND), Carlos Marighella, Graciliano Ramos, Agildo Barata e Leôncio Basbaum.

2- Experiências quase que completamente desconhecidas pelos acadêmicos que estudam as prisões e as organizações que atribuem nascerem delas. Debilidade séria. Entendendo o mais complexo, se entende o mais simples, aquele que é capaz de entender como se sustenta um grande edifício certamente conseguirá construir uma casa. Algo parecido ocorre quanto aos estudos da realidade prisional: por não partir do que há de mais avançado no que se refere à organização dos presos, de mais desenvolvido, têm-se uma visão unilateral e limitada, por vezes autocentrada, ignorando inclusive que o encarceramento massivo é filho precisamente da semifeudalidade e que para acabar com ele é preciso acabar com a própria semifeudalidade. Chegam-se a soluções reformistas, como a política de numerus clausus ou a descriminalização das drogas, sem entender que as prisões, hoje, tal como o manejo do coronavírus, têm como uma de suas mais importantes funções o aniquilamento de excedentes do exército industrial de reserva. Sempre há um pretexto distinto para a carnificina.

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