A viola carioca

Apaixonado por viola de 10 cordas, mais conhecida como viola caipira, o carioca Bruno Reis, compositor e violeiro, é um pesquisador e divulgador do instrumento. Bruno faz parte do movimento Rio de Violas, que acontece anualmente no Rio de Janeiro, e se divide entre as apresentações como violeiro (sozinho ou em dupla com sua irmã Ivana Reis) e um mestrado voltado para a composição de um repertório para a viola.

Arquivo pessoal

Bruno Reis durante o 4° Encontro de Violeiros do Rio de Janeiro - Festival Río de Violas

- Comecei a estudar violão com uns 10 anos de idade e guitarra com 14. Aos 16 anos já resolvi seguir carreira de músico. Então fui estudar piano e violão clássico, que também é conhecido por violão erudito e violão de concerto. E aos 20 anos entrei na faculdade de música, no curso de composição – conta Bruno.

- Consegui algumas bolsas de etnomusicologia durante o curso, que me ajudaram a ter uma percepção da música como manifestação social e cultural, dentro de uma determinada cultura. Tive também uma bolsa sobre música do século XIX, modinhas e lundus, e foi nesse momento que comecei a tocar viola caipira profissionalmente – continua.

- Com o meu primeiro projeto aprovado por um edital da Funarte [Fundação Nacional de Artes], formei um grupo de modinhas e lundus onde eu tocava viola. No caso, o que chamamos de viola do século XIX, a Viola de Arame. Em 2010, quando terminei a faculdade, fui fazer musicoterapia, fiz uma complementação pedagógica e atualmente curso mestrado em composições para viola de 10 cordas – diz.

Bruno faz parte do movimento Rio de Viola, que teve o seu encontro mais recente no último mês de maio, no Centro da Música Carioca Artur da Távola.

- O movimento visa divulgar a cultura da viola aqui na cidade do Rio de Janeiro. Começou sua atividade em 2018 e, desde então, já promoveu quatro encontros e um festival virtual, trazendo convidados importantes: Chico Lobo, Ivan Vilela, Pereira da Viola, Laís de Assis, Paulo Freire, Renato Caetano, Letícia Leal, que são violeiros de fora da cidade – conta.

Segundo Bruno, a viola já teve um importante espaço no Rio, mas foi praticamente esquecida por conta da modernização que a cidade passou.

- A viola já foi muito comum no Rio, principalmente no século XIX. Inclusive, tínhamos uma rua chamada “Rua das Violas”, no centro da cidade, onde se encontravam muitos construtores do instrumento. Hoje essa rua se chama Rua Teófilo Otoni. Provavelmente isso aconteceu por conta de uma política de modernização que a cidade passou no final do século XIX e início do século XX, quando algumas culturas foram consideradas arcaicas e se priorizou outros tipos de manifestações – explica.

As muitas violas do Brasil

- Tínhamos aqui no Rio importantes manifestações, como a Folia de Reis, e essas foram praticamente apagadas na capital, indo para os morros, áreas periféricas e para o interior, onde se mantiveram. No final do século XVIII, início do século XIX, o violão chegou no Brasil e passou a fazer a função que antes era da viola, ou seja, acompanhar as canções, as modinhas e os lundus – conta Bruno.

Bruno diz que nos séculos passados a viola não tinha o nome de caipira, como é mais conhecida nos dias de hoje.

- Ela teve vários nomes: viola de pinho, viola cabocla, viola brasileira. O nome viola caipira se tornou comum na década de 1970, quando o violeiro Tião Carreiro lançou um disco falando desse termo Viola Caipira. O disco fez muito sucesso, tornou-se uma referência para os violeiros. Tião Carreiro foi considerado um dos criadores do pagode de viola, e a partir desse momento se criou uma ideia de que a viola era caipira, o violeiro tinha que tocar pagode, e surgiu um padrão de afinação chamado “Cebolão” – explica.

- Nesse sentido, o termo Viola Caipira está relacionado a uma cultura específica, que é a do interior de São Paulo, porém a viola de 10 cordas não está relacionada a nenhuma cultura específica, podendo ser inserida em várias. Os violeiros do norte de Minas Gerais, por exemplo, usam a afinação “Rio abaixo”, e têm toques bem diferentes. Já a viola do nordeste não é conhecida como caipira e sim viola nordestina ou viola de cantoria – continua.

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- Enfim, tem a viola caipira, a viola capixaba, do Espírito Santo, a viola nordestina, que também é a viola pernambucana, a viola baiana, etc. Cada viola é como se fosse um sotaque regional. Nesse sentido, o meu trabalho principal é desenvolver esse sotaque dentro da música instrumental da viola, usando os jongos, os choros, os lundús, diversos rítmos e gêneros tradicionais e característicos aqui da cidade do Rio de Janeiro. É o que eu chamo de Viola Carioca – diz.

Segundo Bruno, independente do local, a viola proporciona um “olhar para o sertão”.

 - Por ter migrado para o interior e áreas periféricas, a sua temática costuma falar muito da relação do homem com a natureza e tudo que nela há. Assim, os violeiros têm um olhar para o sertão quando mergulham no seu universo, mas não necessariamente se trata de um sertão físico, pode ser também um sertão que está dentro de nós – expõe.

- A viola vem passando por um avivamento desde a década de 1960, quando ela deixou de ser tocada somente pelas duplas caipiras e começou a ser utilizada na MPB e na música instrumental brasileira. Assim, ela começou a ganhar novos espaços. No ano 2000, por exemplo, ela passou a ser estudada no curso de bacharelado e composição da USP – relata.

Além do movimento Rio de Violas, atualmente os violeiros contam com espaços fixos na cidade.

- Temos a Praça dos Violeiros, uma praça central lá na Feira de São Cristóvão, que é dedicada à cantoria nordestina. Violeiros ocupam o local toda semana e muitas pessoas podem ouvir a cantoria e os ponteados nordestinos. Temos também uma orquestra de viola em Jacarepaguá, Vargem Grande, e um lugar chamado Raízes do Brasil, em Santa Teresa, que está sempre aberto para receber os violeiros. São poucos espaços, mas que nos recebem muito bem – diz Bruno.

- Eu tenho trabalhado bastante, normalmente por meio de editais: apresentações, o mestrado em composições para viola em diversas formações instrumentais, músicas autorais gravadas e o disco autoral “Nas Cordas da Viola”, lançado durante a pandemia, disponível nos canais de streaming e YouTube – continua.

- Além desses, formo uma dupla com a minha irmã, Ivana Reis, um trabalho chamado “Tom da Viola”, de canto e viola com composições regionais do Tom Jobim. São músicas do Tom Jobim relacionadas ao que chamamos de “Canções Ecológicas”, que falam de algo ligado à natureza – finaliza Bruno Reis.

O contato do artista é Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

 

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