Um artista fala de outro

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Ex-integrante do grupo Demônios da Garoa, Marco Antônio Bernardo é um dos mais importantes músicos e musicólogos de São Paulo, com algumas composições próprias e livros contando a história esquecida de artistas brasileiros, como Um cavaquinho na História , sobre Waldir Azevedo, o mestre que redescobriu o cavaquinho e o levou para o mundo todo, usando obras-primas como Brasileirinho e Delicado, de sua autoria.

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Com o lançamento de Um cavaquinho na História, pela editora Irmãos Vitale, Marco Antônio já inicia outra investida no campo biográfico, com um perfil do maestro e acordeonista Orlando Silveira, também já desaparecido.

Nesta entrevista exclusiva, Marco Antônio — maestro, arranjador e pianista — conta um pouco da sua formação musical e de seus gostos pessoais.

AND — Musicalmente, de que você gosta?

Marco Bernardo — Em termos de música me interessa tudo o que é bom, o que me sensibiliza, o que me acaricia o ouvido e o espírito, a começar por J. S. Bach, Beethoven, Chopin, Liszt, Brahms, Debussy, Ravel, Puccini, Respighi, Reynaldo Hahn, Ernesto Nazareth, Radamés Gnattali, Waldir Azevedo, Tom Jobim, Pixinguinha e Chico Buarque. Na literatura, Monteiro Lobato sempre foi o meu predileto. Na poesia, Carlos Drummond de Andrade. Em filosofia sou deliciosamente virgem; aprendo filosofia em função da vida, mas se for começar por alguém, seria Dostoiewski, o favorito dos músicos eruditos.

AND — Os seus pais influnciaram a sua formação musical?

MB — Meus primeiros contatos com música são muito tenros. Quando estava com cerca de 4 anos de idade (há quem diga que eu tinha menos), já subia nos puffs da sala de casa e, empunhando uma das agulhas de tricô de minha mãe, “regia” concertos e sinfonias. Aos 5 ou 6 anos bolia com um clarinetinho de brinquedo, antes de ganhar de minha mãe um acordeon, também de brinquedo. Foi com ele que, lá pelos 8 anos, comecei a chamar a atenção da família (meus parentes paternos me chamavam de “celebridade”) e fui acompanhado ao violão por um músico talentosíssimo e ilustre, fundador dos Demônios da Garoa, a minha principal influência musical: meu tio paterno Arthur Bernardo.

Lembro de, na Cantina Lazzarella, na Rua Treze de Maio, no Bixiga, em São Paulo, ter sido acompanhado por ele e aplaudido entusiasticamente por toda a casa ao interpretar Jingle Bells. Devo dizer que meu pai, que se limitou ao pandeiro, era extremamente musical. Foi vendedor da Odeon ao longo da década de 50. Ele tinha discos maravilhosos, de ópera à música erudita em geral; de cantores de várias nacionalidades à da velha guarda da MPB; de orquestras que gravavam aquilo que já se usou chamar de musak a choros. Ele adorava ouvir música depois do jantar. Defronte a uma imensa vitrola Standard Electric, começou a minha paixão pelos discos. Os 78 rpm e vinil me hipnotizavam rodando no prato. Assim comecei a ver que a música era mesmo a minha grande paixão. Por outro lado, todos os meus tios paternos eram músicos, profissionais ou não. Além de Arthur, havia Francisco, conhecido por Ciccillo, spalla da Sinfônica Brasileira e da Orquestra Sinfônica da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, músico partícipe de importantes gravações das décadas de 40 a 60; José “Peppino”, exímio solista de sax-alto, violino e violoncelo, partícipe de renomados conjuntos de dança da noite paulistana das décadas de 40 a 50, um dos quais atuava no célebre bar “Pinguim”, na esquina da avenida São João com a avenida Prestes Maia, em frente ao Correio Central (uma curiosidade: ele é padrinho da minha prima Ana Bernardo, cantora); Miguel, violonista acompanhador, de ouvido, que tocava um instrumento muito curioso, um violão-contrabaixo; Hugo, violonista solista, perfeccionista sensível que só não fez carreira por conta do seu gênio forte e orgulhoso (aliás, características próprias dos Bernardo); Luis, também conhecido por Luisinho ou “Luigi”, violonista de “ouvido” e tocador de castanholas, que carregava nos bolsos do paletó para onde ia e as tirava para a diversão de todos os que o rodeavam. Aliás, foi esse meu tio quem sugeriu aos meus pais o nome com que fui batizado (por isso escapei de ser um Roberto).

AND — Como foi a sua iniciação musical propriamente dita?

MB — Iniciei os estudos aos dez anos de idade, em 1975, com a pianista Rosa Lourdes Civile Mellito, uma professora que ainda vive e mora no meu bairro. Dona Rosa tinha uma infinidade de alunos, mas fui dos favoritos. Ela promovia audições anuais, sempre no mês de dezembro, no ex-auditório da Liga das Senhoras Católicas. Lá se reuniam alunos para interpretar uma peça solo e/ou uma peça a piano ou a quatro mãos etc. Eu adorava tudo aquilo. A primeira dessas audições aconteceu em 20 de dezembro de 1975. Nunca esquecerei a data da minha “estréia”. Toquei a Valsa dos Patinadores, de Emil Waldteufel, simplificada por Esther Abbog (que dizem ser o pseudônimo de João de Souza Lima).

AND — Algum tropeço inicial?

MB — Cometi a primeira gafe em público muito cedo. Como não tinha piano, me exercitava na casa de dona Rosa, que tinha três. Um dia, antes da primeira apresentação pública, estudei o quanto pude. Corria tudo bem. Só que na audição, nervoso, simplesmente não localizei o dó central e levei quase um minuto para começar a tocar direito a música. Isso me deixou fulo da vida, mas no ano seguinte voltei a me apresentar, dessa vez tocando o Escorregando, de Ernesto Nazareth, quando não só achei o dó central como toquei muito bem e fui bastante aplaudido.

AND — Dentre todos os ritmos, o que você prefere é o choro, não é?

MB — Sim. Aliás, Escorregando foi o primeiro choro que toquei na minha vida, para embevecimento do meu pai, que me sugeriu, na seqüência, Apanhei-te, Cavaquinho, também de Ernesto Nazareth. Ele, aliás, era um bom pandeirista. Ao empunhar o instrumento fazia a alegria de todas as festas. Não tocava tão bem quanto um profissional porque se cansava. Mas também cantava. Tinha voz grave, muito bonita, e até hoje penso que ele cantou, no meu entender, as melhores versões que conheço de Samba em Portugal, de Silvio Caldas; Pra João Decidir e Pra Esquecer, ambas de Noel Rosa; e Amigo Leal, de Benedito Lacerda e Aldo Cabral. Faz parte dos melhores momentos musicais de minha infância ter visto e ouvido o meu pai cantar essas coisas em diversas ocasiões, acompanhado pelos violões de meu tios, ora Arthur, ora Hugo.

Temos ritmos maravilhosos, mas o choro, para mim, é fundamental. O chorinho é a música do Brasil, a base de toda a nossa música, uma música apreciada e respeitada dentro e fora do nosso País. Dos mais antigos, aprecio Callado, Chiquinha, Nazareth, os precursores.

AND — Você gosta mais de música popular ou erudita? É melhor o piano ou o violão?

MB — Não faço grande distinção entre música erudita e popular... Ambas podem ser singelamente simples ou densamente elaboradas. vejo dois nomes, um da música erudita e outro da música popular, intimamente ligados: Chopin e Ernesto Nazareth. O instrumento mais próximo de “confusão” que me ocorre é, na verdade, “instigação”: quando ouço uma orquestra completa, tento identificar os instrumentos e as combinações de naipes, as vozes. Consigo identificar muita coisa, mas isso me instiga muito.

Meu sonho era ter em mãos as partituras dos arranjos orquestrais de muita coisa boa que adoro ouvir, pra ver o que o arranjador de fato escreveu. Sempre preferi o piano, embora eu venha de uma família que privilegiou o violão. Nunca tive vocação para o violão, aquela coisa de “fazer os trastes” sempre me pareceu um sacrifício. Mas os sons do violão, principalmente do violão do meu tio Arthur, sempre estiveram dentro de mim, e hoje em dia os reproduzo claramente em meu piano popular. Há quem perceba que o meu piano (popular) tem um pouco de violão, e isso me enche de orgulho, sabia?

AND — E o gosto pela pesquisa?

MB — É importantíssimo pesquisar, para mim é como uma cachaça, com a sensação boa de descobrir um fato, uma verdade histórica escondida nas páginas do passado. É uma sensação de contribuição para o presente.

AND — Você costuma compor?

MB — Sou um compositor bissexto, e não devo ter nem dez composições escritas. Grande parte do que compus foi por inspiração, depois trabalhei e burilei. Mas uma dessas composições tem história: um choro-canção intitulado Homenagem a Canhotinho, que foi gravada num CD homônimo com transcrições próprias de composições do nosso grande cavaquinista, que é Roberto Barbosa, o Canhotinho. Essa música foi editada num álbum lançado pela editora Irmãos Vitale.

O curioso é que a estréia mundial dessa peça se deu na Suíça, a cargo do grande virtuose do piano Roberto Szidon, que me disse ter sido bem recebida por lá. Fiquei feliz mas não me envaideci, tanto que estou contando essa história aqui pela primeira vez. Gravei uns vinte discos, como produtor, partícipe, arranjador e protagonista — nesta última faceta dois, intitulados Homenagem a Canhotinho e Encores. Um de música popular e outro de música erudita.

Acho muito importante que seja preservada e cultivada, porque é a sabedoria que vem do povo sem erudição, sem sofisticação. Singela, natural. As escolas deveriam ser o berço dessa preservação e cultivo, para passar aos mais jovens o que temos de mais caro e elementar, que é a própria cultura popular, o retrato de um país.

AND — Um pouco sobre Waldir Azevedo, do seu livro e dos próximos projetos.

MB — Waldir foi o artista que mais valorizou o cavaquinho como instrumento musical. Descobriu e institucionalizou a escola do cavaquinho. Foi um compositor inspirado, de indiscutível apelo ante todas as camadas sociais, dentro e fora do Brasil. O meu livro é um esforço nos sentido de se preencher a lacuna da falta de informações acerca desse que faleceu há 25 anos, mas cuja música continua atual e apreciadíssima.

O próximo projeto é outro livro da série Últimos Chorões Históricos, da Irmãos Vitale: a biografia do “seresteiro do acordeão”, maestro Orlando Silveira, músico filho de ferroviário. Como Waldir, Orlando foi um ícone do seu instrumento, no caso o acordeon. Era um músico formidável e um ser humano exemplar. Infelizmente, hoje praticamente esquecido.

AND — Você, por dois curtos períodos, integrou o grupo Demônios da Garoa. Quando ocorreu a sua primeira entrada no grupo?

MB — Considero os grupo Demônios da Garoa uma espécie de herança musical que o meu tio me deixou. Entrei no conjunto em 1999 e nele fiquei por cerca de um ano. Participei como músico do CD Mais Demônios Que Nunca. Atuei em shows para milhares de pessoas (nunca tinha me apresentado para tanta gente, nem quando acompanhei o Jair Rodrigues e os filhos, anos antes) e pude exercer o papel musical de meu tio, o que muito me honrou.

Não continuei no conjunto porque as minhas outras atividades — regência de corais, recitais como solista e acompanhador, aulas etc — me absorviam muito. No mais, o conjunto já tem uma dinâmica de muitos anos, que é difícil de mudar — há coisas a serem trabalhadas lá. Voltei recentemente para substituir o Ventura Ramirez, que adoeceu, e lá fiquei por dois meses. Estarei sempre e irremediavelmente ligado ao conjunto, que faz parte de mim.

AND – Então é ótima a convivência com os integrantes do grupo?

MB — Canhotinho é fundamental, não só no cavaquinho, como também nos arranjos e nas rearmonizações que simbolizam o conjunto. Considero-o um elemento insubstituível; Izael é seguro e afinadíssimo; Serginho é o guardião da memória do conjunto, é um elemento que cada vez mais se mostra preocupado na preservação do grupo; Ventura é uma pessoa boníssima que toca violão de forma magnífica — ele extrapola os limites do que pode fazer com esse instrumento no conjunto. Sinbad é uma pessoa doce e faz um trabalho repleto de respeito pelo que o conjunto significa. O Demônios simboliza o samba da nossa terra, o samba de São Paulo.


Assis Ângelo é jornalista, sociólogo e estudioso da cultura popular brasileira, além de autor de diversos livros sobre música e folclore. É também produtor e apresentador de programas radiofônicos, como o inesquecível São Paulo Capital Nordeste que alcançou a maior audiência em São Paulo.
Agora, Assis Ângelo faz Tão Brasil, na AllTV ( , todas as quartas-feiras, às 21 horas — reunindo, como de costume, poetas, jornalistas, escritores, instrumentistas de reconhecido valor na cultura popular brasileira.

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