Sonho Real na paz dos cemitérios

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Parque Oeste Industrial. Sonho Real. Escombros, tijolos e telhas quebradas, algumas lonas pelo chão, uma pequena boneca sem cabeça, muitos sonhos e uma empresa privada de segurança foi tudo que restou na área de 28 alqueires, ocupada há cerca de um ano por 4 mil famílias na capital de Goiás.

A área de onde as 4 mil famílias foram brutalmente retiradas deverá, de acordo com o advogado dos proprietários, abrigar imóveis comerciais, residenciais e um shopping center, tudo no estilo de "condomínio fechado".

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Barracas armadas em volta do ginásio em razão das moléstias
Goiânia — Assim, os expropriadores do povo saciam sua fome. Essa é a grande obra que realizarão ali: a especulação imobiliária — com os artifícios que fazem da renda da terra o seu meio de vida. Seguem sem trabalhar, ludibriando, expropriando, matando, protegidos que estão pelo seu Estado. Os "proprietários" da área e as imobiliárias fazem as contas de quanto poderão lucrar, agora que o terreno foi supervalorizado. O Estado enrola para assentar as famílias bem longe dali. Enquanto isso, o povo continua enterrando seus mártires e resistindo às duras investidas do poder para fazer as famílias renunciarem ao seus direitos.

Reprime e desconversa

Após o massacre efetuado pela polícia todos os poderes tornaram-se unânimes em declarar sua determinação na solução do caso.

O abrigo para as famílias era exigido por toda a sociedade. Os governos estadual e municipal jogaram o tempo todo com as necessidades mais prementes do povo. Quando a prefeitura se dizia disposta a negociar, o governo estadual se negava; quando este admitia negociações, era a vez daquela não aceitar. Apesar de ter assinado um "protocolo de intenções" em 13 de março deste ano e de terem visitado seis áreas, na verdade o poder público pouco fez para resolver a questão. Sempre havia algum problema, mas o Estado, através do monopólio das comunicações, dizia à opinião pública que sempre os "invasores" (o povo desabrigado) não queriam negociar. O fato é que nas áreas oferecidas ora não cabiam todos, ora eram inviáveis, como a área colocada à disposição pelas autoridades bem ao lado do depósito de lixo radiológico do estado.

Depois da repressão, o governo estadual chegou a oferecer um vale-aluguel de R$200,00, por 6 meses, para cada família que deixasse o ginásio. Segundo ele, era mais uma tentativa de "amenizar" os problemas que as famílias vinham sofrendo. O que o ilustríssimo governador esquece sempre é que o povo nunca lhe pediu qualquer paliativo para seus problemas, mas solução e, por isso, a imunda proposta foi totalmente rechaçada pelas famílias do Sonho Real.

Para o Procurador da República Cláudio Drewes, o impasse revela "interesse político por trás de tudo, com a antecipação do debate eleitoral" (O Popular,15 de abril de 2005), uma vez que o governador Marconi Perillo (PSDB) e o prefeito Iris Rezende (PMDB) são os maiores interessados na disputa eleitoral ao governo do Estado.

O impasse obrigou o Ministério Público a exigir solução imediata, mas os prazos determinados pelo MP são sempre esticados para beneficiar os ricos "proprietários", seu governo estadual e a sua prefeitura.

No inicio de maio, diante da pressão da população e do Ministério Publico, o Estado definiu o "assentamento" das famílias. Inicialmente serão empurradas para ali as que estão nos ginásios, uma vez que muitas das famílias do Sonho Real voltaram para a casa de parentes, para o aluguel ou passaram a viver desabrigadas nas ruas da cidade. A área provisória fica no Setor Grajaú, pouco mais de uma hora do centro da cidade. Não conta com asfalto, água tratada, esgoto ou posto de saúde.

Se a ausência de infra-estrutura e repressão nunca assustaram o povo, a burocratização do processo de transferência é, novamente, o mesmo problema.

O Estado exige vários documentos às famílias (agora "concorrentes ao assentamento"), como CPF, identidade, declaração de que não possui imóvel, comprovante de estado civil e de renda. A burocracia sabe que várias famílias perderam todos os documentos quando os fascistas deram ordem à polícia de realizar a Operação Triunfo e não têm como obter novos documentos por falta de dinheiro e tempo; porque o povo trabalha e não lhe pagam.

Inicialmente, era necessário que cada família comprovasse vínculo de 5 anos com a cidade de Goiânia. Após muitos embates determinou-se que bastava um comprovante de endereço anterior à ocupação do Parque Oeste Industrial. Há, ainda, confusão entre as listas (onde constam os nomes das pessoas) da prefeitura e da direção do movimento. Os nomes não coincidem.

Corruptos e enrolados

A prefeitura quer "assentar" 2.500 famílias, o movimento afirma que são 3.500 que necessitam ser abrigadas. Das 2.500 famílias covardemente desabrigadas, que devem ser enviadas para a área definitiva, segundo a prefeitura, 1.128 ainda têm que levar documentos. Muitas delas afirmam ter entregue documentos várias vezes e, mesmo assim, a situação não foi regularizada. Recentemente, a mesma prefeitura afirmou que mais de 600 famílias perderam o prazo para levar os documentos e, por isso, não terão direito a um lote na área definitiva. No dia 14 de maio iniciou-se a transferência das famílias para a área provisória, mas somente cerca de 70 delas chegaram o local. O impasse desta vez deve-se à confusão nas listas com o nome das pessoas.

A direção do movimento afirma que a prefeitura quer colocar na área provisória pessoas que não moravam no Sonho Real, o que parece a todos ser mais uma tática perpetrada por esses criminosos para gerar conflitos entre o povo — mesmo porque, na área, mal cabem os desabrigados que permanecem nos ginásios. A transferência dos desabrigados foi cancelada e assumida pelo Ministério Público, mas deve ser retomada assim que os barracos de lona, que as próprias famílias estão construindo, fiquem prontos.

Súbito, na madrugada do dia 1º de junho, ônibus e caminhões irromperam no terreno do ginásio. Governo e prefeitura haviam montado uma operação de "transferência surpresa" (que durou 15 horas), do ginásio para a área provisória do setor Grajaú. As famílias novamente dormiriam ao relento — na época do ano que faz mais frio em Goiânia — ficando prorrogada a montagem de barracas (habitação improvisada) para dias mais tarde.

Já a área definitiva se localiza próxima à área provisória e as condições de infra-estrutura não são diferentes. A desconfiança manifestada pelos moradores em relação à área definitiva é completamente compreensível.

Para o Residencial Itaipu a transferência deverá ocorrer daqui a 4 meses. Uma parte da área fica na zona rural e precisa ser enquadrada dentro da zona de expansão urbana de Goiânia. Este enquadramento é feito por um projeto de lei, ou seja, por via parlamentar. As famílias temem ficar anos esperando debaixo de uma barraca de lona, como as da área provisória no Residencial Itaipu que esperam há quase dois anos. Também a área definitiva custará R$6,03 milhões, que serão parcelados entre Estado e Prefeitura. A prefeitura afirmou que pretende assentar outras famílias na área, se sobrarem lotes.

Repressão e fome

Depois de ser retiradas de suas casas e de ter seus pertences roubados ou destruídos, as famílias despejadas do Setor Parque Oeste Industrial foram abandonadas em ginásios de esportes da periferia da cidade. A situação é calamitosa. Nos ginásios mal cabiam as quase 500 famílias que lá se amontoavam. Não há colchões para todos e muitas pessoas dormem no chão frio. A comida é azeda e mau cheirosa, a mesma que é mandada para a Casa de Prisão Provisória. Os banheiros são insuficientes e por isso ficam imundos a maior parte do tempo.

As péssimas condições de higiene e a baixa imunidade promovem doenças. A sarna e a conjuntivite, proliferaram rapidamente. Pneumonia, desnutrição e desidratação também são constantes. Três pessoas morreram, vítimas do descaso do poder público com os desabrigados. A primeira vítima, Sônia Maria Chaves, 36 anos, faleceu no dia 1º de abril, com infecção generalizada. Sônia estava com uma ferida aberta, marca da desocupação. A queda no banheiro imundo provocou a infecção. Uma faixa sob o caixão denunciava a revolta: "Onde a terra vale mais do que vidas, sofremos com o triunfo das injustiças."

A segunda vítima foi Jorivê Santos, 77 anos, vendedor ambulante, falecido em 10 de abril. Jorivê era um daqueles que não tinha colchão, contraiu pneumonia e a desnutrição também colaborou para que ele viesse a falecer. A terceira vítima foi Cristiano Reis dos Santos, 28 anos, servente de pedreiro, era neto de Jorivê Santos. Cristiano faleceu em 22 de maio. Absurdo, mas o laudo de sua morte ainda não foi concluído. É difícil entender que o frio e a desnutrição tenham concorrido bastante para que ele perdesse a vida? Cristiano dormia sobre um colchonete, sem cobertor e há vários dias não conseguia ingerir nenhuma comida "doada" pelo governo estadual.

Mais falecimentos ameaçam as famílias e as empurram para fora dos ginásios. Sair dos ginásios não significava abandonar a luta, mas revigorá-la. Em assembléia, decidiram ocupar a área em torno dos ginásios, construir novamente suas barracas de lona e exigir do Estado — porque vivem por suas próprias mãos — é um lote para criar os filhos com dignidade e que, se necessário, estão dispostos a invadir outra área.

A decisão de permanecerem firmes na luta, enfrentando todas as dificuldades, tem sido heróica. Os problemas são muitos, mas a causa é uma só, sendo que o Estado criminoso — que não reconhece o direito dos trabalhadores à vida — expulsou centenas e centenas de pessoas à bala de suas casas, destruiu seus pertences e assassinou seus companheiros.

Essa situação beira à barbárie. Algumas pessoas, diante do desemprego, da ociosidade, da falta de perspectivas gerada pela demora do Estado em resolver a questão afundam-se em qualquer alternativa de fuga. A realidade que eles vivem é desesperadora e as drogas, o álcool e a prostituição aparecem como um meio de suportá-la.

Mas a maioria das famílias que permanecem nos ginásios mostra-se firme e decidida a lutar até o fim, pressionando o Estado, os burocratas, especuladores e jagunços oficiais para que as deixem viver em paz. Elas aprendem pouco a pouco como a organização é fundamental para chegar à vitória.

Laudo refutado

O Estado diz estar efetuando eficientemente as investigações sobre as circunstâncias em que ocorreram as mortes e a desocupação. O Ministério Público move um Inquérito Civil Público, que já tem 7 volumes e 2071 páginas. O inquérito desmente as primeiras afirmações da Policia Militar do estado de Goiás que afirmavam utilizarem armas de fogo somente os policiais de alta patente. Enquanto que as famílias denunciam que quase todos os policiais utilizaram armas letais, já as investigações oficiais apontam que 700 dos 2500 policiais, de fato, as utilizaram.

A PM-GO confessa que utilizou pistolas 9mm; fuzis 762; espingardas 12; revólveres calibre 38; lançadores de bomba e granada, além de bombas de gás lacrimogêneo.

O laudo pericial divulgado pela polícia científica conta dois mortos, três feridos com lesões graves e 145 com lesões leves. No laudo, sobre os assassínios de Pedro e Wagner consta que não houve execução ou espancamento. Mas na Catedral Metropolitana de Goiânia, para onde as famílias foram levadas após a desocupação e onde velaram os corpos, constatou-se, mais da metade das pessoas estava ferida e os corpos de Pedro e Wagner, principalmente, tinham sinais claros de espancamento.

Em declarações ao jornal O Popular, edição de 1º de maio, testemunhas do assassinato de Wagner afirmam que ele foi executado com dois tiros no peito por três policiais. As testemunhas afirmam que ainda assim Wagner foi morto porque o rapaz procurado pelos policiais assassinos trajava roupas semelhantes a Wagner.

O delegado Waldir Soares prometeu que policiais militares serão indiciados por lesões graves, tentativa de homicídio e homicídio. É que o inquérito da Polícia civil, com mais de mil páginas e quatro volumes, concluiu que Pedro e Wagner foram assassinados pela PM de Goiás. Quanto às armas recolhidas pela PM após a repressão ao povo, segundo perícia, nenhuma delas foi utilizada pelos trabalhadores.

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