Polícia inglesa prova que é terrorista

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Em 22 de julho último foi barbaramente assassinado, num metrô de Londres, o operário brasileiro Jean Charles de Menezes, 27 anos, natural de Gonzaga, Minas Gerais. Jean Charles era um membro do contingente de força de trabalho que em seu país não encontra atividade remunerada nem trabalho estável, em condições mínimas de sobrevivência. É um dos jovens que se atrevem a viver em países distantes para sobreviver. Antes de ser atraído, em geral, ele procura outras oportunidades, por ser expulso do que chamam mercado de trabalho.

Jean vivia há três anos em Scotia Road (um modesto conjunto residencial), Tulse Hill, bairro da zona sul de Londres, cidade em que trabalhava como eletricista.

A família de Jean, embora proprietária de um pedaço de chão, pertence à classe dos camponeses pobres da camada inferior. Aos 14 anos, Jean foi morar com um tio na cidade de Gonzaga, de seis mil habitantes. Um terço da população dessa cidade vive no exterior que, embora assalariada, busca trabalhar e enviar recursos para a família. Aos 19 anos, ele recebeu um diploma técnico da Escola Estadual São Sebastião. Em 2002, conseguiu entrar legalmente no território da Inglaterra com um visto estudantil, que a imprensa colonial brasileira tratou de divulgar a intriga de que o visto havia vencido antes da data do assassinato, para justificar a ação do terrorismo de Estado. Jean, inclusive estivera no Brasil, em fevereiro deste ano.

Com apenas 4 meses naquele país, o brasileiro já tinha um bom domínio da língua inglesa, e empregava todo o seu tempo trabalhando para mandar parte do salário para a família, com o que pretendia adquirir outros meios de produção, instrumentos agrícolas e animais para dinamizar os trabalhos no lote em Minas.

O trajeto da morte

Na data do assassinato, Menezes, trabalhando como eletricista, acabara de receber uma chamada para concertar um alarme de incêndio em Kilburn. Sua primeira providência foi a de telefonar para um empreiteiro, também brasileiro, Gésio de Avila, avisando que iria se atrasar em decorrência do congestionamento causado pelo boato de atentado ocorrido no dia anterior, em Londres, simultaneamente envolvendo três estações de metrô e em um ônibus, ninguém ficou ferido, mas algumas linhas de transporte foram desativadas.

Às 10 horas, aproximadamente, Jean saiu do edifício onde morava. Entrou em um ônibus que o levou até a estação de Stockwell. A versão da polícia fascista é de que Jean, suspeito, fora seguido desde sua residência, portando um casaco acolchoado (em pleno verão) e uma mochila, sendo que também havia saltado a catraca da estação, correndo em seguida para alcançar o carro no interior do metrô, já estacionado na plataforma. Os terroristas alegaram ainda que Jean não atendeu à ordem de prisão; foi imobilizado e aniquilado por suspeita de tratar-se de um homem bomba que poderia, com um simples movimento suicida, fazer detonar um projetil, matando os valentes policiais e outras pessoas.

Versão com provas

Pelas evidências do crime bárbaro, todavia, a Comissão Independente de Investigação de Queixas da Polícia — organização do Estado inglês, criada há pouco mais de um ano, em razão de sucessivas protestos populares contra a repressão, com a função de investigar as atividades da polícia britânica —, foi acionada e, pouco depois, desmentia por completo a versão do governo.

Documentos que surgiram desmascarando a história mentirosa dos terroristas de Estado foram veiculados pelo canal de televisão ITV, entregues por um funcionário não identificado da Comissão.

O fato é que Jean, ao chegar ao metrô de Stock Well, caminhava normalmente. Parou para retirar um jornal gratuito numa banca do metrô. Utilizou seu cartão pré pago Oyster Card para passar pela catraca, desceu lentamente a escada rolante e acelerou os passos em direção ao carro estacionado. Jean entrou pela porta central de um vagão e, após olhar para os lados, escolheu um assento à direita, próximo à entrada do vagão.

Novamente a versão terrorista dá conta de que Jean não se sentara. Um desses policiais assassinos, à paisana, que participava da “operação” como alcaguete, disse ter dado ordem para que o brasileiro se sentasse, mas que Jean, contrariando a ordem, avançara em sua direção e aos dos CO 19 (policiais armados) e que estes últimos dispararam suas armas. O alcaguete, nos depoimentos que aparecem nas notícias mais detalhadas, anuncia que imobilizou Jean, colocando seus braços em torno do pescoço da vítima, fazendo-o sentar-se. Nesse momento, o terrorista alcaguete disse ter ouvido um disparo, às suas costas, o primeiro a atingir Jean. Disse também ter sido, o próprio alcaguete, arrastado para longe do piso do vagão, nada mais vendo ou ouvindo...

A comissão que investiga a atuação terrorista, ainda revela que foram disparados 11 tiros contra Jean, sendo que sete atingiram sua cabeça, um no ombro e mais três cartuchos encontrados que não atingiram o corpo da vítima. Os sete tiros, sem dúvida, foram disparados à queima-roupa, demonstrando a própria precisão dos disparos. O sangue no chão e no próprio assento também serve para esclarecer que Jean permaneceu sentado, enquanto os assassinos atiravam, sendo que qualquer movimento do corpo se deu em função do impacto das balas. Somente um desses terroristas policiais atirou sete vezes contra Jean.

Duas atitudes

A família de Jean Charles está exigindo inquérito público na Inglaterra, uma espécie de processo que ganha foro parlamentar, onde os responsáveis pelo assassinato sejam responsabilizados, explicadas as circunstâncias, pela política de atirar para matar e todo o acobertamento policial do crime. Enquanto isso, a imprensa colonial do Brasil não revela a mínima coragem de defender a medida.

Habilmente o governo inglês ofereceu pedidos de desculpas, enquanto sua polícia colocava à disposição da família de Jean 15 mil libras (cerca de 65 mil reais) para ajuda de custos com o velório. Numa demonstração de altivez e dignidade, a família de Jean Charles repeliu a proposta. Engana-se o governo inglês e a sua polícia, porque desta vez não estão tratando com seus colegas brasileiros.

O ministro Celso Amorim foi à Inglaterra, após o episódio, e pediu uma audiência com o ministro das relações exteriores britânico, Jack Straw, que enrolou e não deu explicação sobre o assassinato. O governo colonial brasileiro — sugere, através da imprensa, que o episódio pode gerar conflitos diplomáticos — quer apenas acompanhamento para os fatos, pretensão, ainda assim, rechaçada pelo governo britânico.

Pior, o Itamarati envia uma comissão a Londres com o propósito de buscar esclarecimentos sobre o caso, cujas incumbências são: conhecer as circunstâncias que resultaram na morte de Jean Charles; manter contato com a polícia londrina; verificar a legislação britânica aplicável ao caso e compreender quais devem ser os próximos passos da investigação.

Começa que a investigação ocorre segundo os interesses da Scotland Yard. Foi a pressão exercida pelo povo inglês contra a polícia política que obrigou aos seus releses começarem a lançar a “suspeita” de que um inocente fora “morto”. Ao tentar obstruir as investigações — sonegando as imagens gravadas pelo circuito interno de TV do metrô, pertencente a um consórcio privado que gerencia a estação, fato revelado por seus funcionários ao se recusarem a ser cúmplices da trama que encobria o assassinato — os ingleses fizeram mais pressões, porque todos sabem de onde partem as ordens que levam pânico à população.

Agora se trata de abafar a participação da Scotland Yard nas ações terroristas, como o flagrante assassinato do brasileiro, dizendo tratarse de um equívoco, acidente de trabalho, ou usar a técnica de esvaziamento, fazendo convergir as atenções para fatos de menor importância, exigindo “rigorosas investigações” — como é comum no Brasil.

Recordando o mito de que na administração FMI-PT, o que escapa é a sua política externa, a comissão brasileira, como sempre, continua obedecendo aos mesmos critérios políticos e de composição: um subprocurador geral da República e corregedor geral do Ministério Público Federal, um representante do Ministério da Justiça e o diretor do Departamento das Comunidades Brasileiras no Exterior. Este último já afirmou não ter motivos para duvidar da versão da polícia fascista, não há má-fé da Scotland Yard, e que a comissão brasileira e essa polícia estão trabalhando em conjunto...

Os verdadeiros terroristas

Todas as notícias que dão conta de atos terroristas atribuídos à esquerda não resistem a menor investigação. Quando os fascistas lançam bombas contra o povo responsabilizando às organizações revolucionárias, fazem a acusação de maneira tão pífia que, desmascarada em seus princípios, se denuncia ainda mais rápido quando persiste justificativa.

O imperialismo, como sistema de associações monopolistas que partilham o mundo entre si, e que tem por corolário sua onipotência no plano político, exerce de maneira inevitável o militarismo, assim como impõe a ignorância e a bestialidade como estilo de administração de seus negócios.

Seu sistema leva às últimas consequências a exploração do homem pelo homem, a espoliação das nações a uma condição implacável, promovendo os conflitos locais cujo aprofundamento é a guerra mundial.

Ao aumentar incessantemente suas guerras de conquista, o combate aos movimentos de libertação nacional e a repressão às lutas políticas das classes oprimidas, o imperialismo cria blocos políticos militares de agressão.

Na Espanha, no dia 11 de março de 2004, quando os fascistas fizeram detonar bombas contra o povo, o governo espanhol acusava o ETA (Eskadita Askatasuma — Pátria Basca e Liberdade) pela manhã. À noite, depois de receber nova orientação da entente anglo-saxônica, apontava a obscura Al-Qaeda. A fração governamental de Aznar precisava ganhar as eleições naqueles dias e pretendia capitalizar o atentado, mas teve de curvar-se aos interesses ianques e ingleses, mudando a acusação sobre a autoria do atentado para favorecer ambos os governos representados pelo retardado Bush e o autômato avariado Tony Blair.

O povo espanhol não aceitou as provocações. Aznar perdeu as eleições enquanto que Zapatero, vitorioso, traiu o povo (mas não o Poder) não levando adiante as investigações do atentado sobre as quais a rede mundial de intrigas emudeceu. No dia 7 de julho, surge outro atentado que matou 56 pessoas e deixou um saldo de feridos de 700 outras vítimas, dessa vez, em Londres. O nome dos terroristas do último atentado também não foi revelado, mas os autores deixaram indelével o seu endereço ideológico. São fascistas, sem equívoco — já que nenhuma organização revolucionária vai lançar bombas justamente contra o povo. E a polícia que diz procurar terrorista é fascista, ou seja, ela própria é terrorista, provam seguidamente suas ações contra o povo.

Por fim, trabalhadores pobres, que desesperados saem das colônias e semicolônias e vão trabalhar na metrópole — Inglaterra, Alemanha, França, Japão, USA — são estranhos na imagem criada pela imprensa imperialista. A metrópole deles se desfaz sem nenhuma explicação, a exemplo do que denuncia a organização Gegen die Strömung, revelando que 30 mil pessoas são expulsas somente da Alemanha, por ano, há 15 anos, sob os mais variados pretextos. Em geral, dos trabalhadores pobres a repressão diz serem capazes de cometer atos insanos, de professar cultos que ofereçam sacrifícios expiatórios de humanos, devotos de hábitos mesquinhos etc. Mas no caso do brasileiro, ele dispunha de endereço certo em seu país, não tem envolvimentos com nenhuma corrente tida por fundamentalista pelos bandidos da burguesia financeira mundial e muito menos pode ser acusado de homem-bomba. Além do mais, os povos estão fartos do terrorismo, uma prática levada a cabo pelo imperialismo, pelos seus serviçais e ninguém mais.

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