Jovens brasileiros do Choro

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Meninos de Cordeiro, interior do estado do Rio, se juntam para tocar choro, polcas, maxixes, entre outros, e lançam o seu primeiro CD. São os Matutos de Cordeiro. Alunos da Escola Portátil de Música. Tendo como padrinho o mestre flautista Álvaro Carrilho, um dos professores e fundadores da Escola, eles acordam todos os sábados por volta das 4:30h da madrugada e enfrentam uma viagem de aproximadamente quatro horas até o Rio, para estudar. Apaixonados pelo choro desde que o conheceram, os meninos não querem mais ouvir falar em pagodes, funk, rock, ou qualquer modismo que não tenha riqueza musical.

O grupo formado por jovens entre 15 e 19 anos — Everson Moraes, 19, trombone, e seu irmão Aquiles Moraes, 15, trompete; os gêmeos,16, Marlon Júlio, violão de sete cordas, e Mycon Júlio, bandolim, e o irmão mais velho Magno Júlio, percussão, 18; Lucas Oliveira, 15, cavaquinho; e Marcus Thadeu, 15, percussão, todos considerados prodígios por seus mestres — além de veteranos — o flautista Tadeu Santinho, 39, coordenador do grupo e o violonista Paulo Newton, professor dos meninos na Banda de Cordeiro, onde tocam.

— Tudo começou com o amigo Tadeu Santinho, da flauta, quando passou a participar da oficina de choro no Rio e conheceu o seu Álvaro, o filho Maurício Carrilho, e toda a turma. Como morava em Cordeiro e tocava conosco na banda local, teve a idéia de nos levar para fazer a oficina também. Quando começamos a conhecer e estudar o choro, passamos a amar. Em Cordeiro, nunca tínhamos ouvido alguém tocar choro, e por isso não conhecíamos nada de choro. Na banda tocávamos músicas boas, entre: sambas, dobrados, maxixes, boleros, valsas, músicas eruditas e outros, mas choro não. Agora a cidade começou a escutar choro, a conhecê-lo, porque estamos fazendo esse trabalho — diz Everson Moraes.

Muito elogiados pela família Carrilho, os meninos, que são vizinhos em Cordeiro — moram no bairro Arraial do Sapo — seguem sua carreira a todo vapor.

— Esses meninos são fantásticos. Gênios da música — garante o flautista Álvaro Carrilho, um dos maiores incentivadores dos Matutos.

Os meninos são um fruto do projeto Escola Portátil de Música, que desde o início deste ano está funcionando, todos os sábados, no Centro de Letras e Artes da Uni-Rio — Universidade do Rio de Janeiro.

Criada no ano 2000 por Maurício Carrilho, Luciana Rabello, Álvaro Carrilho, Celsinho Silva e Pedro Amorim, com o nome de Oficina do Choro, foi sediada até 2003 na Escola de Música da UFRJ, na Lapa, centro do Rio. Em 2004, mudou-se para o bairro da Glória, zona sul da cidade e recebeu o nome de Escola Portátil de Música. Expandiu a sua capacidade, atendendo a mais de 400 alunos e se consolidou como um lugar onde a música popular cultural brasileira pode respirar e crescer. Faz parte do projeto Escola Portátil de Música, um ensino de qualidade, o choro ao alcance do povo, com aulas e material didático, que são partituras de músicos como Pixinguinha e Ernesto Nazaré, gratuitos.

O CD dos Matutos, gravação independente feita na cidade de Friburgo, vizinha a Cordeiro, está repleto de choros, polcas, maxixes, etc. No disco, há desde Ernesto Nazareth, com a música Matuto, a compositores locais e outros desconhecidos do público. Muitas são músicas esquecidas ou que não se tem conhecimento de terem sido gravadas por alguém. Hoje, foram recuperadas por eles, graças a trabalho de pesquisa que fazem junto às fazendas da região onde moram.

— Vamos às fazendas e pegamos partituras que são consideradas perdidas. Pedimos e os donos nos cedem gentilmente — conta Lucas.

— As fazendas, antigamente, tinham sempre um piano e nele, partituras. Conforme foi passando o tempo, elas foram sendo deixadas de lado, juntamente com os pianos. Nós, então, recolhemos essas partituras, catalogamos e depois gravamos — completa Everson.

O caminho, o caminho...

Os meninos encontraram,nesse trabalho, muita música interessante entre choros, sambas, polcas e até a vinheta comercial Viva o Formicida Guanabara, de Enrico Borgongino, datada, na partitura, de 1888, que, segundo apuraram, era, na época, muito tocada em bailes da região.


No alto: Paulo Newton, Everson e Tadeu; no meio: Maicon, Marlon e Marcus; em baixo: Lucas, Aquiles e Magno

— É engraçado quando no meio da música o Lucas dá um grito ‘viva o Formicida Guanabara', que vem escrito na partitura — conta Everson com alegria.

A idéia de fazer a pesquisa nas fazendas da região surgiu, segundo os meninos, quando um amigo arrendou uma fazenda e encontrou muitas partituras abandonadas, juntamente com o piano antigo.

Explica Everson:

— Ninguém tocava mais, estava abandonado em um canto. Ele, então, recolheu tudo e sentiu que poderia nos servir para alguma coisa. Quando nos trouxe, começamos a olhar tudo e percebemos que era extremamente interessante e que em lugar nenhum existia mais. Estava perdido e recuperamos. Algumas coisas demos para o Maurício Carrilho, que é pesquisador, e outras passamos a tocar. A partir daí iniciamos as visitas às demais fazendas da região.

Cidade musical

— Cordeiro é uma cidade musical — afirma o mestre Álvaro Carrilho, uma espécie de padrinho musical dos Matutos, que já foi homenageado juntamente com o filho, o violonista Maurício Carrilho, como cidadão cordeirense.

Na cidade, existe a tradicional Sociedade Musical Fraternal Cordeirense, da qual faz parte a Banda de Cordeiro, onde os meninos tocam.

— Meu pai foi músico da banda de Cordeiro, tocando saxofone, mas quando cresceu abandonou. Essa banda é centenária. Ela se apresenta em festas populares e religiosas — comuns no interior—, em procissões e até em enterros. Risos. Paulo Nilton, que é um dos Matutos, é o nosso professor na banda — conta Lucas.

Everson dá o recado:

— Minha família morava na roça e quando mudamos para Cordeiro, um tio ficava insistindo com o nosso pai que ele nos colocasse para estudar na banda da cidade. E meu irmão, Aquiles, era bem pequeno naquela época. De tanto ouvir aquilo, começamos a criar interesse pelo negócio. Depois, conhecemos o Tadeu Santinho e o Paulo Newton, que nos ajudou e acabamos entrando mesmo na banda. E foi o começo da nossa vida musical.

O nome do grupo é o seu espelho. Eles fazem questão de dizer que são matutos do interior mesmo, inclusive, até há pouco tempo muitos deles não viviam nem na área urbana de Cordeiro, mas na zona rural, na ‘roça' como dizem com todas as letras. Apesar de serem do interior — e terem orgulho disso — o nome Matutos de Cordeiro não veio daí, mas inspirado na música Matutos de Ernesto Nazaré.

— Foi a primeira música que tocamos. E como o nome tinha a ver com roça, interior, Tadeu Santinho deu a idéia de colocarmos este nome e nós gostamos — explica Lucas.

E acrescenta Everson:

— As pessoas gostam muito e dizem que o nome combinou conosco.

Segundo Carrilho, além de tocarem muito bem, eles também compõem.

— Recentemente compus a primeira e a segunda parte de um Choro para a Escola Portátil e deixei a terceira por conta deles. Trouxeram-me pronta e ótima — conta Álvaro com alegria. Além dessa, os gêmeos Maycon e Marlon Júlio, fizeram uma composição em homenagem ao mestre Álvaro Carrilho, chamada Seu Álvaro em Cordeiro.

Como uma figura paternal, bem humorada e extremamente sábia dentro do universo do choro, seu Álvaro, como é conhecido, é muito amado não só pelos Matutos, mas por todos os alunos, e afirma:

— Quero que eles aprendam não somente a tocar, executar as partituras, mas a compor, para dar continuidade ao choro. Falo com eles sobre isso, incentivo. As composições dos Matutos são excelentes. Ficamos impressionados com tudo que fizeram.

Por sua vez, Tadeu Santinho, o líder do grupo, tem procurado trabalhar a música popular cultural brasileira na vida musical dos meninos:

— Eu não ouço esses modismos que andam tocando nas rádios por aí. Prefiro as músicas genuinamente brasileiras, seja choro, samba ou outro ritmo nacional e tenho procurado passar os CDs que tenho para os meninos. Além do choro e do samba, os meninos têm ouvido Elomar, Antônio Nóbrega, Renato Braz, Pena Branca e Xavantinho e outras coisas genuínas da música brasileira.

E foi só conhecer o choro e outros ritmos da música popular cultural brasileira para que os meninos não desejassem nem ouvir falar em pagodes, funks ou os sertanejos texanos, mesmo fazendo parte dessa geração que foi criada na obrigação de ouvir lixo.

— Não dá para ouvir essas músicas, porque são muito ruins.Pegamos um rock desses que toca nas rádios e o que vemos são dois ou três acordes em uma música de cinco minutos. Difícil de aguentar — reclama Everson.

Acrescenta Lucas:

— Eu acho que depois que uma pessoa conhece o choro e outros ritmos igualmente de qualidade, não consegue mais escutar essas coisas, porque o choro, por exemplo, é muito rico.

Músicos e proletários

Apesar das muitas dificuldades, nada é considerado problema para esses meninos. Em geral, eles desejam fazer faculdade de música, que é a grande paixão de suas vidas, e seguir como músicos profissionais, mesmo não sabendo como poderão conseguir: de família assalariada, não podem custear a vinda diária para estudar no Rio, já que o curso mais próximo, em Friburgo, não é público .

Entre os meninos, Everson é o único que já terminou o ensino médio, mas não vai poder ingressar em uma faculdade, no momento, por dificuldades financeiras:

— Faculdade, só quando eu tiver mais estabilidade e emprego fixo, porque vir para o Rio todos os dias não dá para mim. No momento, pretendo fazer prova para a Marinha.

— Se der, vamos tentar uma faculdade de música, porque é lógico que não dá para fazer outra coisa. É o que amamos — fala Aquiles.

Os meninos concordam que a vida de músico não é fácil, porque não dá para ficar bancando viagens constantes em busca de ensino de qualidade, e, além disso, muitos garotos na faixa dos quinze anos desistem da idéia de ser músicos quando se deparam com o preço dos instrumentos: acima da realidade da maioria dos brasileiros, ou seja, dos que vivem de um salário que não repõe a força de trabalho de ninguém.

É Everson quem explica:

— Apesar de nossos pais não terem boa condição financeira, eles nos incentivam a batalhar pelo nosso desejo de sermos músicos profissionais e fazem tudo para isso. O que os meus pais ganham, por exemplo, só dá para fazer as compras lá de casa. Ele é pedreiro e minha mãe é servente de uma escola pública.

— O pai dos gêmeos e do Marlon é aposentado e a mãe é vistoriadora do Detran. O pai do Lucas é servidor público e a mãe é dona de casa. O pai do Marcus Thadeu é ferreiro e a mãe trabalha na prefeitura de Cantagalo. Os mais velhos também lutam com dificuldades. O Tadeu é servidor público e o Paulo Newton é professor de música, vive de dar aulas. O pessoal é bem humilde mesmo — continua Everson.

Para conseguir os seus primeiros instrumentos não foi nada fácil.

— Começamos devagar, tocando com instrumentos razoáveis, ruins mesmo (Risos). O meu primeiro cavaquinho, por exemplo, custou cem reais — declara Lucas.

— Já o meu trombone e o trompete do meu irmão eram emprestados pela Banda de Cordeiro. Levávamos para a oficina de choro, estudávamos e depois devolvíamos. Hoje, os que temos nos foram doados. A maior parte dos instrumentos do grupo foi doada pela Escola Portátil de Música — o violão de sete cordas, o pandeiro, o cavaquinho, o trombone — fala Everson.

E os meninos seguem à frente passando todos os obstáculos, fazendo shows e apresentando o CD.

— Atualmente, nós temos nos apresentado em lugares consagrados em choro, como espaços na Lapa e a Cobal do Humaitá. Estamos fazendo os nossos shows sozinhos, independentes. Além disso, os nossos professores da Escola Portátil nos chamam para abrir os shows deles. E isso é o que desejamos continuar fazendo — finaliza Lucas.

Para adquirir o CD Matutos de Cordeiro, ligue para:
(22) 2551-3159 / (22) 2551-1974 / (21) 2225 - 1014 (Luizinho)
ou vá até a Escola Portátil de Música, na Av. Pasteur, 458, Urca, Rio de Janeiro, e procure César Carrilho.
Também à venda no Paço Imperial, Rio de Janeiro, na Loja Arlequim.

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