O arquétipo do guerreiro sagrado

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A palavra jihad, erroneamente traduzida por guerra santa, significa, de fato, empenho no caminho de Deus ou de uma causa sagrada. Gostaríamos de abordar numa visão multicultural e, ao mesmo tempo, atenta às bases da religião islâmica, o significado deste tema, hoje, tão polêmico.

Em primeiro lugar, estamos diante de um arquétipo: o do guerreiro sagrado, ou, como afirmou São Paulo, do "bom combatente".

O guerreiro sagrado é uma clave universal. Existe na tradição xamânica dos índios americanos, entre incas e maias, junto às ordens guerreiras monásticas da China e do Japão, no ciclo celta arturiano dos Cavaleiros da Távola Redonda e na Ordem Templária medieval. Existe, evidentemente, na tradição islâmica.

A Índia define o guerreiro sagrado como pertencente à classe dos Kshatrias, destinada a defender os pobres e oprimidos, por um lado, e, por outro, à salvaguarda do conhecimento divino. Não é por acaso que na língua inglesa, a palavra knight (cavaleiro) é correlata ao verbo to Know (saber).

O sentido de guerreiro sagrado origina-se no Zend-Avesta, o livro persa do profeta Zaratustra e no Baghavad Gita (Sublime canção), texto sagrado do hinduísmo que constitui o núcleo do Mahabarata. Este conceito indo-ariano tem por base a idéia de que, num universo maniqueísta, é preciso vencer o mal imanente no mundo através de um esforço pessoal constante, até a redenção absoluta. Isto se aplica tanto ao indivíduo quanto à sociedade. O pensamento messiânico islâmico xiita também advoga que é preciso lutar até que a justiça seja restabelecida na Terra, mediante a vinda do Mahdi (Messias) ou o Enviado de Deus.

O profeta Mohammed (Maomé), no alvorecer do século VII, instituiu uma ética cavalheiresca, cuja finalidade era a proteção dos civis, admitindo a guerra apenas nos campos de batalha. Tal código influenciou a Europa, através da Espanha, sendo adotado, em parte, nas ordens de cavalaria ocidental, cujos reflexos estenderam-se à literatura, como D. Quixote de la Mancha. Cervantes, seu autor, atribuiu o livro à narrativa de um árabe "desconhecido": Cid Hamet Benegeli.

Do ponto de vista metafísico, o Alcorão não é uma obra isolada, pois seus preceitos reengendram, canonicamente, a Tradição Primordial transmitida pelas religiões reveladas.

Encontramos no Baghavad Gita o seguinte: "Felizes são os guerreiros chamados a lutar numa batalha desta natureza, que lhes vem espontaneamente como uma porta aberta para os Céus. Se fores morto em batalha, entrarás nos céus; se fores vencedor, gozarás a Terra."

Assim, no Alcorão: "Aqueles que combatem e morrem pela causa de Deus entrarão no Paraíso." Encontramos no Evangelho de S. Marcos, cap. VIII:

"O que quiser salvar sua vida perdê-la-á, mas o que perder sua vida por amor de mim (o Cristo) e da Boa Nova (Evangelho) salvá-la-á."

Estamos diante de uma identidade simbólica que aproxima diferentes correntes e cujo conteúdo sugere uma reflexão maior. No Alcorão está escrito: "Deus elucida os versículos aos perspicazes."E ainda: "Há um Alcorão original (um protótipo) o qual tocam somente os purificados". Ou seja, na medida da abertura de espírito e iluminação interior, atinge-se o cerne da mensagem.

"Morrer pela causa de Deus ou pelo Cristo", apesar da imediata evocação de martírio, significa, em essência, entregar totalmente a vida a um propósito divino. Implica abandonar as ilusões criadas pelo ego e, como fruto desta transformação, "entrar no Paraíso", isto é, alcançar a paz, integridade e plenitude interior.

Indagado por seus discípulos, Mohammed distinguiu a grande jihad da pequena jihad, alertando que esta última seria apenas uma sombra da outra. A grande jihad, segundo ele, é a "luta para submeter o eu inferior à Vontade de Deus". A pequena jihad é o combate em legítima defesa da comunidade islâmica, quando atacada por inimigos.

Já que o Alcorão reitera: "não há coação quanto à religião", a jihad jamais seria uma ofensiva forçada de conversão. É preciso lembrar que o Islã abriga, sob o conceito de tawid (unidade), o respeito a toda a cadeia espiritual que vai de Abraão a Jesus, e que encerra, com Mohammed, um ciclo profético para a Humanidade.

A metáfora das "virgens do Paraíso" reverberando da Índia à mitologia germânica, possui um valor simbólico. Representa a reunificação do Eu com sua ânima, a huri celeste.

O arquétipo do guerreiro sagrado manifestou-se em grandes heróis. Entretanto, manipular o propósito da "guerra santa", para interesse restrito de grupos ou partidos é adulterar um princípio que consiste exatamente na superação de fins personalísticos.

Nunca foi tão urgente o "empenho numa causa sagrada" levando em conta a Humanidade como um todo, a defesa dos povos oprimidos, da natureza e do diálogo das civilizações.


*Yasmin Anukit é orientalista e Professora de Estudos Orientais, autora do livro: Da Mesopotãmia ao terceiro milênio e Iraque, a ressurreição de um povo, RJ, Fissus. 2005.

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