Haiti e a inexorável vitória dos povos

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Mal acaba de ser eleito presidente do Haiti, René Préval — cuja posse foi adiada porque a Assembléia Legislativa que tomará o seu juramento vai se recompor somente em abril —, já se revelou até antes de assumir: quer que as tropas de intervenção permaneçam no Haiti.

A (decepcionante) alegação é de que seu governo não tem dinheiro para formar um exército nacional. Sendo assim, pede que grupos de intervenção armada — sob o nome de Minustah (sigla em francês de Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti), comandadas pela gerência FMI-PT naquele país, desde junho de 2004 (sem qualquer autorização do povo brasileiro), e que substituem os fuzileiros ianques —sejam mantidas naquele território.

Préval foge do assunto, tal como faz a ONU, protetora dos potentados e opressores em todo o mundo.

Fossem democráticas as intenções de Préval, certamente, há muito, ele estaria trabalhando — bem longe das quadrilhas fascistas que lhe asseguram o direito de ser presidente de coisa alguma — para organizar seu exército entre o povo desejoso de independência, porque para oprimir o Haiti não faltam armas em seu território, tampouco voluntários combatentes.

Eis que o povo do Haiti se mantém sublevado, enquanto sucedem cenas dramáticas nas ruas de Porto Príncipe e outras cidades, onde ele aparece denunciando ao mundo que nem o miserável voto é respeitado ali, que a nação está sitiada por tropas estrangeiras e por forças militares das classes reacionárias internas, que buscam exterminá-la de fome, sede e bala.

Só mesmo o monopólio imperialista dos meios de comunicação, na sua fase mais decadente e degenerada, é capaz de mostrar imagens e, ao mesmo tempo, distorcer com tanto cinismo e crueldade o seu significado*, ao mesmo tempo em que omite a autoria dos assassinatos em massa e os milhares de prisioneiros no Haiti, onde somente alguns foram formalmente acusados por algum crime.

Para deter o morticínio promovido pela Polícia Nacional Haitiana e o esquadrão da morte, não há nenhuma intervenção da ONU. Ao contrário, as tais tropas da paz são acusadas de cercarem lugarejos como o Cité Soleil, em Porto Príncipe, julho de 2005, enquanto assassinos passavam pelas armas adultos e crianças. Em agosto do mesmo ano repetiu-se um massacre perpetrado pela força policial militarizada, dirigida pelos marines em três bairros pobres da capital.

Para pôr fim à fome, cuja única solução é retirar das mãos criminosas do imperialismo e das classes reacionárias internas os grandes meios de produção (a terra, os bancos, as fábricas) e entregá-los ao povo trabalhador, também não há nenhuma ONU. Para explicar o anunciado suicídio de um general brasileiro, não há ONU, nem governo brasileiro.

A quem serve

Se, depois de tudo por que tem passado aquele povo irmão, fosse Préval um revolucionário, como sempre foi o seu povo, ele estaria — agora, quando a repressão chegou às últimas consequências — entre as massas, ocupado em organizá-las de maneira consequente, iniciando a luta pela posse de seu território, pela derrubada do estado burocrático-latifundiário e imperialista que oprime o Haiti. Levantaria sua voz proclamando um programa de frente única, baseado na aliança operário-camponesa e sob a hegemonia do proletariado, que um dia haverá de confiscar e nacionalizar a grande propriedade monopolista e burocrática, estatal e privada, como o sistema latifundiário e toda a dominação imperialista, notadamente ianque, que saqueia aquela nação há séculos.

Mas Préval, eleito pelo povo, tomará posse em nome do imperialismo — tal como todos esses gerentes coloniais na América Latina que arrotam apoio popular e mudam radicalmente de discurso no primeiro minuto de encerrada a apuração das urnas.

Oriundo do Movimento Lavalas, o partido de Jean Bertrand Aristide**, René Préval foi membro de seu governo.

René Préval tomou posse como presidente do Haiti, pela primeira vez, em 7 de fevereiro de 1996. Já naquela oportunidade, ele "solicitou" à ONU que mantivesse as tropas de intervenção no país, enquanto se multiplicavam as sublevações populares e os assassinatos em massa.

Ele vem no bojo do oportunismo que floresce em meio ao sangue das massas abatidas pela repressão constante, tantas vezes promovida pelo USA. É o escolhido (embora com permanência provisória) pelo USA no (des)governo de um país onde as massas lutam sem quadros dirigentes, sem um núcleo ideológico capaz de imprimir uma estratégia revolucionária.

Pois sublevado permanecerá o povo, independente dos fluxos e refluxos do movimento de massas. Ele não tem outra escolha senão que manter-se em permanente rebelião espontânea, portanto, fácil de ser massacrada, a tal ponto que os marines ianques não se ocupam diretamente da repressão.

O fato é que os haitianos nunca se renderão. As sublevações permanecerão até que "se normalize o processo democrático", mas que, para o povo — muito diferente do que preconiza a imprensa imperialista —, só pode ser a tomada do poder e a instauração de uma democracia de novo tipo direta ao socialismo.

Por isso, o "presidente eleito", cumpre o papel que lhe dão, quando vergonhosamente pede à ONU, esse diretório do imperialismo sob a liderança ianque, que as tropas de intervenção permaneçam no Haiti. Mesmo sabendo que nenhum outro contingente é digno de transitar por um Haiti que se esvai no sangue de sua gente, senão do que aquele formado pelo próprio povo trabalhador em armas.

Não cumpre acordos

É fato que a ONU passou a perder a sua utilidade tão logo as potências capitalistas se afastaram das decisões estabelecidas pelas três grandes conferências de guerra. O primeiro momento da traição aos tratados ocorreu com a declaração de guerra não concretizada militarmente (discurso de Fulton, USA, que deu origem à Guerra Fria), em 5 de março de 1946, do qual se encarregou o indecente lorde Winston Churchill.

A partir daí, a atuação do bloco imperialista na ONU nada mais fez que burlar tratados e, ostensivamente, impor a política de agressão, tanto mais a correlação de forças apontava para o retorno ao capitalismo na URSS com as medidas adotadas por Kruschov traidor na sua política social-imperialista de conluio e pugna com o imperialismo.

As potências imperialistas então nada mais fizeram que criar e multiplicar bases militares em todo o mundo; fortalecer as corporações sofisticando os modelos do nazifascismo; promover golpes contra-revolucionários e instaurar sistemas de Estado e de governo ligados ao imperialismo, notadamente ianque; aumentar o poderio militar para garantir o livre desempenho dos monopólios e, consequentemente, dos complexos militar-industriais, realizar guerras de conquistas como resposta aos movimentos de libertação nacional, ressuscitar todas as correntes anti-comunistas, unificar a propaganda fascista e desencadear o terror no mundo.

Da antiga organização internacional de Estados soberanos (mesmo o filisteu mais desprovido de inteligência reconheceria que, hoje, não chegaria a dez o número de estados soberanos no mundo, quando 50 assinaram a Carta da ONU em 1945), não vigora na prática, sob a Nova Ordem fascista, um único princípio democrático da ONU.

Ao contrário, a ONU sequer oculta que se guia pela política da guerra total e do desarme dos agredidos, pela agressão imperialista, pela aplicação do colonialismo e do colaboracionismo. A ONU — com seus órgãos e instituições especializadas — tornou-se uma organização a serviço do fascismo, que é a política do imperialismo.

Os três encontros de representantes de Estado, que durante a Segunda Guerra "traçaram os princípios básicos" de uma futura política comum para a organização do mundo depois da guerra, foram as conferências de: Teerã (28 de novembro a 1° dezembro de 1943); de Potsdã (próximo a Berlim, de 17 de julho a 2 de agosto de 1945); de Ialta (na Criméia, 4 a 11 de fevereiro de 1945). Em todos os acordos, o proletariado internacional, representado pela URSS de Stálin não se descuidou de estabelecer o futuro das nações unidas, cujo fundamento básico era o direito à autodeterminação das nações.

Porém, os povos que lutam pela emancipação das classes oprimidas e pela libertação nacional jamais cultuaram a ilusão de que bastam reuniões de cúpula e acordos entre "grandes homens" para se decidir sobre os destinos da humanidade. De fato, jamais serão suficientes as assinaturas das partes para assegurar o tratamento correto das contradições entre as nações oprimidas e o imperialismo, a contradição entre os países imperialistas, a contradição entre os grupos de capital monopolista imperialista e a contradição entre o proletariado e a burguesia.

O imperialismo ianque é o mais feroz inimigo da humanidade. Hoje, ele conquistou o mundo e entre as suas mais terríveis armas de guerra estão o oportunismo e o revisionismo. Sob as botas do fascismo mais sofisticado e cruel os povos padecem de mil atrocidades. Porém, o que mais importa é que cada povo escorrace o imperialismo para fora de suas fronteiras, que se una aos demais povos e destrua o imperialismo.

E só há uma única forma de fazê-lo. É eliminar as relações de exploração do homem pelo homem na face da terra. Dessa vez, para sempre.


*Há denúncias que, ao longo de 2005, tropas estrangeiras, entre elas as que indevidamente agem sob a bandeira brasileira, Jordânia e Sri Lanka — apoiadas pela força aérea do Chile e equipes médicas da Argentina —, entraram em seguidos confrontos com milícias armadas no Haiti. A resistência, todavia, prossegue.
**Luis Arce Borja é diretor de elDiario Internacional, órgão que figura entre os mais valorosos da imprensa popular e democrática em todo o mundo. Ele explica que Jean Bertrand Aristide, umbilicalmente ligado aos cartéis oportunistas no Continente, foi um dos sacerdotes chefes para a América Latina da antiga doutrina do Vaticano conhecida como teologia da libertação. Ao sagrar-se vencedor da disputa eleitoral no Haiti, em 1990 (o santo papa já havia adotado um discurso mais adaptado a nova ordem, o da igreja carismática), Aristide foi aclamado "homem da liberdade", da justiça e da democracia. Tomou posse em 1991. Destituído após oito meses por um golpe militar, mudou-se para Washington e, autorizado pelo governo ianque, utilizou fundos do Estado haitiano até esgotar 50 milhões. Reconduzido ao poder pelas mãos do USA, em 1994 permaneceu até 1996. Reelegeu-se ao final de 2000, governando, a partir de 2001, à base da corrupção, fome, miséria e morte, até 2004, quando foi derrubado.

Enquanto os ianques descansam

Apenas no período de dezembro de 1991 a março de 2006, o imperialismo ianque interveio cinco vezes no Haiti, com armas e bloqueios econômicos, até mesmo sob o pretexto de "ajustes estruturais".

Em 1991, o governo ianque (juntamente com a OEA e a ONU) impôs sanções econômicas ao país para forçar o retorno de Aristide, o presidente que oito meses depois de eleito é deposto, mas que continuou usando fundos do Estado haitiano autorizados pelo USA (!) enquanto permanecia exilado por lá. Em 1993, o exército chefiado por Raul Cedras — enquanto assassinou mais de 426 membros do partido Lavalas (entre 1993 a 1994) — impede que tropas ianques e as cinicamente chamadas "forças da paz", da ONU, desembarquem no Haiti.

O "imparcial" Conselho de Segurança da ONU, em 1994, decreta o bloqueio total do Haiti e em julho do mesmo ano é autorizado o desembarque liderado por tropas ianques. No mês de setembro do mesmo ano, 10 mil ianques desembarcam no Haiti e assumem o controle do país, mediante acordo de intervenção entre Jimmy Carter e Cedras.

Um bloqueio ianque e "ajustes estruturais" do Fundo Monetário Internacional — FMI entram em vigor e fazem afundar ainda mais a economia do país, lançando milhões à morte por inanição.

Tropas ianques são substituídas em março de 1995 por 6 mil soldados "capacetes azuis" da ONU, sob o comando de um general ianque. Nada mudou.

Em 7 de fevereiro de 1996, as tropas estrangeiras são solicitadas por René Préval a permanecer no Haiti, retirando-se apenas em janeiro de 2000. Aristide, do mesmo partido Lavalas, assume pela terceira vez a Presidência da República, em 2001.

Tropas de intervenção da ONU chegam em 2004, enquanto proclamavam que Aristide não tinha renunciado por pressão das massas, mas por golpe militar. O que o USA, através da obediente ONU procurou evitar, foi a consagração da vitória popular com um futuro (embora frágil) governo democrático, realizado à base de conselhos populares.

O imperialismo invadiu o país com o programa de missão de paz para a estabilização, cujas tropas impuseram um governo tecnocrático. Recomeçam as ações de extermínio, de saque e pirataria.

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