O novo tempo camponês

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Goiânia, localizada na região mais ao centro do país, Goiás. Seus gerentes orgulham-se por manter o estado como um dos sustentáculos do latifúndio, tanto de velho quanto de novo tipo. Goiás é o maior produtor de soja e tomate do país. Ali também convivem trabalho escravo, coronelismo e salta aos olhos a contradição entre latifúndio e camponês pobre.

Foi assim, cercados pelo latifúndio, que os camponeses pobres do Brasil realizaram o I Encontro de Lideranças do Movimento Camponês Combativo — que representa um decisivo passo para a organização nacional camponesa.

Foram os ativistas do Movimento Estudantil Popular Revolucionário (MEPR) que conquistaram o espaço que sediou o evento camponês na Faculdade de Educação da Universidade Federal de Goiás. Entre orgulhosos e admirados, viram as dependências da Faculdade encherem-se do vigor daqueles que trazem no rosto a marca do trabalho e o ardor de quem promete modificar as estruturas deste país, com a sua revolução agrária.

Participaram do encontro cerca de 220 pessoas, representando mais de 20 entidades, reunindo as experiências de diversos movimentos independentes e de atuação regional, primeiro passo dado na direção de um movimento unificado.

As ligas de camponeses pobres de Rondônia, do Norte de Minas e do Centro-Oeste, enviaram suas delegações, bem como o Grupo da Terra (CE), a Escola Popular e a Associação dos índios Tapeba, do Ceará. Compareceram ainda o cacique Werá Tupã Leonardo, dos índios guaranis, de Santa Catarina; membros dos sindicatos dos rodoviários e da construção civil de Belo Horizonte; sindicato dos comerciários de Betim e de Juiz de Fora; a Associação dos Docentes da Universidade Federal de Uberlândia (filiada ao ANDES-SN e representada pelo professor Paulo Gomes); professora Marilsa Miranda, da Universidade Federal de Rondônia; Escola Popular Orocílio Martins Gonçalves, de Belo Horizonte; coordenação de lutas camponesas do Pará e Tocantins e Escola Popular do Pará; Liga Operária; Frente Cultural; MEPR e A Nova Democracia. Completam a lista o Socorro Popular; o Movimento Feminino Popular; o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Espigão do Oeste (RO); Luta Popular pela Moradia; o Centro Brasileiro de Solidariedade aos povos; Grupamento Estudantil Antiimperialista (Uruguai) e a Associação dos Assentados da Pedra Vermelha, de Pernambuco.

O encontro foi realizado com recursos arrecadados nas regiões onde atuam os diferentes movimentos, que asseguraram o transporte de regiões distantes, como Rondônia e Pará, até Goiânia. A organização contou com a participação decisiva dos ativistas do MEPR, que além da conquista do espaço físico, empreenderam a campanha de arrecadação, assegurando a alimentação de todos. Esses também organizaram a cozinha e a creche para os filhos dos camponeses presentes.

Em dois dias de debates, foram discutidas questões fundamentais para o desenvolvimento da luta pela terra no Brasil. Exemplos históricos se sucederam nos relatos animados dos camponeses que revelaram conhecer sua história e a estratégia do povo trabalhador e explorado.

Súbito, os debates se depararam com uma nova necessidade: a aplicação de uma tática capaz de impulsionar a luta revolucionária no campo, romper o cerco do latifúndio e da repressão do Estado nas área dos grandes latifúndios.

Nova tática

Após a abertura, às 9 horas do sábado, dia 21 de janeiro — onde os camponeses entoaram A Internacional —, a plenária iniciou o informe e os debates sobre a situação política nacional e internacional. Nesse ponto, se destacou a análise de que o imperialismo vive sua fase mais degenerada e que apenas se sustenta porque desencadeou, na década de 90, uma grande ofensiva contra-revolucionária. O USA, para garantir sua hegemonia, empreende todos os meios militares, para dar prosseguimento à sua política de agressão, sendo sintomas claros a invasão do Iraque e o triunfo do oportunismo em todos os países da América do Sul.

Os camponeses, ao discutirem a questão agrária e camponesa no Brasil, vêem em números o que sentem na própria pele: 1% dos proprietários de terras concentram 50% de todo território nacional. A enorme concentração da propriedade fundiária é um dado revelador e, com a penetração do capital financeiro no campo, com modernas máquinas e novas técnicas de produção, a tendência à concentração da terra se fortalece.

A verdade é que a destruição do latifúndio, de novo ou velho tipo, é uma necessidade cada vez mais urgente, sem a qual os camponeses não podem possuir sua própria terra, e tampouco o Brasil começar a empreender o caminho da independência nacional. Foi esclarecida a política demagógica de reforma agrária promovida pelo Estado, que além da própria insuficiência de projetos, divulga números que são contestados até mesmo pelas direções oportunistas infiltradas no movimento camponês.

O agravamento da situação dos camponeses pobres, a existência de movimentos ainda espontâneos e o aumento da repressão do Estado e dos latifundiários impõe a aplicação de uma nova tática para o movimento camponês. Ao mesmo tempo, a nova tática prevê que as formas regionais de organização devem evoluir para o desenvolvimento de uma coordenação nacional para o movimento camponês revolucionário, afirma o documento distribuído no Encontro.

A noite chegou. O debate, que só conheceu uma pausa para o almoço, foi novamente interrompido para o jantar — quando o ambiente se tornou repleto de canções populares interpretadas pela Frente Cultural e por alguns camponeses, que mostraram composições feitas dentro das áreas conquistadas ao latifúndio. As composições mostravam desde o momento da entrada dos camponeses na terra até o cotidiano de um acampamento, com ritmos que empolgaram a platéia.

O povo Tapeba representou, através de uma peça, a vitória da tribo na expulsão dos posseiros de suas terras. Cantaram e dançaram as músicas de sua gente.

O domingo encontrou os camponeses de pé antes do sol nascer. A primeira atividade após o café foi a formação de grupos para a discussão aprofundada do documento Nosso Caminho, produzido pelas ligas dos camponeses pobres. Neste documento está exposta a história do movimento camponês no Brasil, seus êxitos e derrotas, o papel desempenhado pelo Estado na eterna proteção do latifúndio que é uma das bases de sua sustentação, a necessidade da conformação de um movimento camponês revolucionário e as novas formas de organização. Em seguida, na plenária, foram abertas concorridas inscrições para as falas sobre o documento.

A diferença é a atitude

AND entrevistou o camponês José Sérgio de Oliveira Rodrigues, de Quipapá, Pernambuco, que deu um depoimento sobre a situação em que estão seu irmão, José Ricardo Rodrigues e os outros camponeses presos acusados de matar um policial em janeiro de 2005 (nesta edição, pag. 15). Na ocasião, José Sérgio deu sua opinião sobre o Encontro e discorreu suas impressões sobre a Liga dos Camponeses Pobres:

— Conheço a Liga há um ano. Eu estou achando interessante porque não tem acordo. O trabalhador não é submisso a nenhum latifundiário, mas ao seu próprio objetivo, que é a conquista da terra, a luta por uma sociedade mais justa. Esse encontro é um passo inicial para mostrar uma nova oportunidade aos trabalhadores que não confiam no movimento, tanto o MST, que é referência em nível nacional e internacional e está perdendo sua credibilidade, quanto outros, como a CUT. É a oportunidade de expandir esse diálogo para outros estados como foi feito em Rondônia, Minas, Pará, e mostrar para os oportunistas que a Liga é o momento. Para os militantes sem esperanças nos outros movimentos posso dizer que a Liga é o momento. Sobretudo, para mostrar para o Nordeste, que desconhece a Liga. Mostrar que a diferença está na atitude e não no discurso.

A proposta aprovada no encontro revela claramente que as ligas de camponeses pobres não estão interessadas em fazer discursos, simplesmente, mas em colocar em ação a consigna de conquistar a terra. Por isso, decidem: implantar um programa agrário que consiste em tomar a terra, distribuí-la aos camponeses pobres sem terra ou com pouca terra; modificar as relações de produção e libertar as forças produtivas no campo, e organizar o poder político nestas áreas. Em suma, destruir o latifúndio e todo esse sistema de fome, miséria e exploração, para edificar uma democracia de novo tipo no país.

Questão indígena

Mais um almoço e retorno à plenária, desta vez para discutir a questão indígena. O que se depreendeu das falas dos representantes indígenas e dos camponeses é que a necessidade dos povos indígenas é a da posse da terra, mas é também da territorialidade, ou seja, de que eles, como povo que são, têm direito a um território seu, onde possam exercer livremente sua autodeterminação.

A plenária concentrou toda a sua atenção nos relatos dos representantes indígenas sobre suas experiências na luta pela demarcação das terras, pela direção de suas escolas e contra a perda de sua cultura (ver matéria de Rosana Bond, pág.13, nesta edição). Também foi ressaltada a importância do apoio mútuo entre os indígenas e camponeses, já que se encontram pontos comuns na sua luta: a posse da terra que lhes é de direito.

Essa terra é nossa

Quase ao final do Encontro e eis que há uma surpresa. As crianças —muitas delas nascidas sob o fogo da luta pela terra — emocionaram a todos com a apresentação de um musical. Cantaram, dançaram, encenaram e soltaram um grito engasgado em suas pequenas gargantas: "Nem que a coisa engrossa, essa terra é nossa!".

O encerramento do Encontro foi ainda precedido da eleição de uma coordenação nacional do movimento camponês combativo. Os eleitos se perfilaram diante da mesa e de lá pronunciaram, em coro com todo o auditório, o juramento de honrar o sangue dos companheiros tombados na luta pela terra até a destruição completa do latifúndio e o triunfo da revolução agrária.

Libertar a terra toda

Presentes no I Encontro de dirigentes do movimento camponês combativo, os ativistas da Liga dos Camponeses Pobres do Centro-Oeste fizeram um relato sobre a atual situação de algumas áreas dirigidas pelo movimento, principalmente na região do Triângulo Mineiro.

AND publicou em março de 2004, nº 17, matéria que tinha por título Voltaremos para nossa terra - dizem os bravos camponeses. O texto contava a saga de um grupo de famílias de camponeses pobres que havia sido expulso do latifúndio conhecido como Fazenda Salitre. Cumprindo a promessa, a LCP-CO voltou a entrar no latifúndio, sendo novamente retiradas de lá em 19 de agosto de 2004. Esse segundo despejo foi realizado com a brutalidade típica da polícia, que derrubou os barracos, destruiu a plantação e matou os animais dos camponeses.

Acampados em área próxima do latifúndio, os camponeses se cansaram de esperar pelas promessas do Incra e de novo se aproximaram da cerca da fazenda. O Estado, entretanto, se antecipou e ofereceu outra área para "assentar" os camponeses.

— Em julho de 2005, eles tentaram colocar povo contra povo e contra o próprio movimento, oferecendo uma fazenda (a Califórnia, situada no município de Veríssimo). Quando a comissão chegou para avaliar o local, já tinha outra organização camponesa lá dentro. E o Marcos Heleno [superintendente do INCRA em Minas Gerais], mais dissimulado do que nunca, incitou: "Vão lá que aquela terra é de vocês e faremos a reintegração de posse". Identificamos essa prática em outras regiões e não caímos nessa armadilha, assegurando-se mais ainda na nossa exigência da terra — diz a camponesa Maria do Socorro Silva.

Os camponeses acabaram permanecendo numa terra ao lado da primeira oferecida pelo Incra, onde promoveram o chamado corte popular, em que os próprios camponeses demarcaram as terras e iniciaram a produção a tempo de, no início de 2006, já estarem colhendo hortaliças, milho, abóbora, feijão, amendoim e outra culturas.

Conquistada a terra, outros problemas aparecem e o primeiro ao qual se dedicaram os camponeses foi o transporte das crianças para a escola, que fica no município de Campina Verde (MG), a 35 quilômetros da área conquistada.

O problema do transporte das crianças só foi resolvido depois que as famílias bloquearam a passagem do ônibus que levava os estudantes da região para a escola e obrigaram ao motorista levar também as suas crianças. O prefeito tentou intimidar os camponeses, ameaçando tomar "providências", caso fizessem aquilo novamente. A resposta foi que enquanto o problema não fosse resolvido definitivamente, essa iria ser a solução temporária. Diante de tal decisão, o prefeito cedeu e liberou o transporte das crianças.

Os camponeses da Fazenda Salitre continuam dando grandes mostras de firmeza e resistência na luta pela terra onde poderão criar seus filhos, além de libertar mais uma parte do território nacional das garras do latifúndio.

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