O ecologista e a mula

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Aconteceu na comunidade de Pau Preto, em Matias Cardoso, "nortão" de Minas, divisa com a Bahia. São mais ou menos 40 famílias, que vivem num triângulo formado pelo São Francisco e Rio Verde. Do outro lado do São Francisco, à esquerda, a cidade de Manga. À direita do Rio Verde, um pouco antes da confluência das águas, Matias Cardoso, Gado Bravo, Jaíba. De onde se juntam os rios para a frente, Malhada, Bahia. No vértice do triângulo, latifúndio abandonado. Na base, latifúndio dos Diários Associados.

Nesta pequena faixa de terra, cercada por dois rios, foram se acomodando famílias camponesas nos últimos 30 anos, descendentes de negros e índios, antigos posseiros, ex-funcionários dos latifúndios. Cada qual com pouco mais de 20 hectares, as cercas, mais para proteger a roça da criação que vive solta, do que para demarcar posse. A pobreza é compensada pela natureza generosa, pescar e banhar no rio, colher milho, feijão e mandioca, fazer uma farinha deliciosa, comer pirão com galinha d'angola. Das frutas, mamão, banana melancia, o doce, e a satisfação de no período das águas servirem com fartura os visitantes bem vindos.

Foi por volta de agosto de 1999, quando chegou a notícia: teriam de se mudar. A área fora decretada Parque Estadual, e o IEF não os aceitaria onde estavam. Mandaram primeiro os recados, por técnicos do Estado que visitavam a região, como quem não quer nada: - "acho que vocês vão ter de sair mesmo!", — "vão lhes dar áreas boas, com recursos, em assentamentos do Incra", - "ouvi dizer que vão ser lotes no Mocambinho". E a notícia de boca em boca crescia, alguns já esmoreciam no preparo da roça.

Mas o mesmo vento que levava as ameaças do Estado, encontrou quem já as havia enfrentado. Bem pertinho dali, em Matias, resistiam e lutavam pela terra 40 famílias, apoiadas pela Liga dos Camponeses Pobres do Norte de Minas. E não houve polícia que não esteve por lá: civil, militar, florestal e federal. O pároco local amaldiçoou os camponeses. Mas as famílias permaneciam na terra, faziam passeatas, experimentavam nos olhares e gestos na cidade a mudança no tom com que lhes chamavam "sem terra", da ironia e do querer o impossível, ao respeito e admiração.

— "Conversem com a Liga", asseverou um camponês que morava no acampamento. Um dos posseiros do Pau Preto conhecia a Liga. Do outro lado do São Francisco, em Manga, já participara de uma ocupação. Saíra naquela interminável espera por recursos, para assumir o lote de seu pai no Pau Preto, pois o mesmo se mudava para outra região. A sugestão, no meio de muita gente, os companheiros da Associação, encontrou um sorriso no rosto do companheiro que conhecia a Liga, que por diversas vezes havia deixado de lado a proposta, ante o temor dos mais antigos de que a presença da organização dos camponeses pobres significasse conflito.

Foi marcada a reunião. Antes, visitaram a área um companheiro da direção da Liga, ou melhor, dois companheiros, um da direção regional e um da direção local, e os companheiros dos acampamentos de Manga e de Matias. Ficou tudo acertado, os companheiros participariam da reunião com os órgãos do governo. Os posseiros do Pau Preto ouviram da Liga o que queriam escutar: — "Fiquem, este lugar é de vocês!" – "Nada do que o Incra pode oferecer é melhor, aqui vocês são donos, lá são filas intermináveis de espera!" —"Quem preservou esta área foram os camponeses pobres, com suas culturas de sobrevivência e criação, e quem as destruiu foi o latifúndio, financiado pelo Estado, que decretando preservação vai dar ainda mais dinheiro para o latifúndio a título de indenização, além de criar um cinturão em volta dos milhões de dólares desperdiçados pelo Banco Mundial no Mocambinho, o "maior Projeto de Irrigação da América Latina".

Os companheiros da Liga chegaram um pouco mais cedo, foram tomar café na casa de um dos posseiros. Nem todos davam atenção por igual. O presidente da Associação, por exemplo, cheio de responsabilidades institucionais, demonstrava certo receio de parecer muito íntimo dos companheiros convidados. Chegou então a "caravana" do governo: um jipe Toyota, da Florestal, uma Ranger cabine dupla do IEF, um Fiat Uno novinho, da Ruralminas. Chefiava a delegação um superintendente do IEF de Belo Horizonte, pouco mais de 40 anos, pançudo, ridiculamente apertado numa dessas camisetas de malha de campanhas de preserv ação ambiental, bota e chapéu de couro. Junto com o dito, um técnico da Ruralminas, menos espalhafatoso mas também fantasiado de "cowboy", e uma pequena fauna de ambientalistas, engenheiros florestais, assistentes sociais e etc..

O presidente da Associação abriu a reunião. A caravana do governo ficou na frente, na pequena sala de aula da comunidade. Os dirigentes da Liga se misturaram entre os posseiros, para que os mais parecidos com a gente da região pudessem, se necessário, intervir. Todos se apresentaram: - "Eu sou especialista, mexo com plantas", afirmou um dos do governo; — "Eu mexo com animais", continuou outro; — "Olha moço, nós da Liga, mexemos com gente", respondeu de pronto o representante da Liga dos Camponeses Pobres. O superintendente do IEF tomou da palavra.

Ressaltando sua disposição democrática, de vir discutir com os camponeses, o "doutor" apresentou suas razões: as características do serrado na região são únicas no Brasil, de uma riqueza e diversidade imensa. Precisamos preservar as espécies animais. Vamos lhes arranjar terras boas, viemos aqui discutir isso. Queremos negociar essa saída, e apesar de vocês não terem os documentos da área, que vai ser indenizada ao proprietário, garantimos que terão terras melhores. Um dos posseiros retruca, ainda com certa timidez, ter direito adquirido, pois parte das terras fora doada pelo latifundiário, no instante em que abandonava a região.

O técnico da Ruralminas interveio: as terras não seriam do latifundiário doador, mas de um outro, que as reclamava e seria indenizado, já estaria em negociação com o governo. O assunto rende. Um dirigente da Liga toma a palavra.

Contesta o superintendente: "— Se as terras são tão ricas, então os posseiros o são! Têm o direito de permanecer! As terras prometidas não existem na região, que o digam os camponeses que ocuparam terras e aguardam solução do INCRA! O "Mocambinho" é um cativeiro de camponeses pobres, que amansam o mato para os empresários! Se a região tem de ser preservada, seus donos, seus habitantes, principalmente, têm este direito!" E lembrou a história de devastação levada a cabo pela Ruralminas e Sudene na região, iniciada pelos governos militares e até hoje em prática.

O "doutor" se agita, se irrita: só estou ouvindo a Liga. Vim aqui para escutar vocês! Não precisava fazê-lo. Se entrarem outros, farão pior (na verdade o IEF, dirigido pelo PT no governo Itamar, havia sido atacado pela Liga, bem como o governo, o Estado, etc.). O dirigente da Liga prefere se calar. Um dos companheiros do acampamento de Matias Cardoso fala. Alguns posseiros intervêm, tentando conciliar, queremos a Liga, o IEF, ficar na terra. Se levanta a esposa de um dos posseiros. Mais clara, não se parece com a gente da região. É professora primária, está iniciando um dos cursos superiores realizados em Manga. Pede a palavra. A reunião estava empatada!

Suas palavras retumbam na sala: — "o que o companheiro da Liga está falando é o que nós todos queríamos falar!". O zumbido dos cochichos dá lugar ao silêncio atento. Ela fala, e argumenta, e coloca na boca e na alma da comunidade tudo o que os companheiros da Liga haviam falado.

Já não falam mais os representantes da comunidade, da Associação. Falam todos, do mais velhinho, primeiro morador, às companheiras, muitas vezes tão tímidas. A presença do Estado não os intimida mais. Não vamos sair, passam a repetir um por um. O "doutor" calou. Uma das assistentes sociais do IEF, de Montes Claros, pede a palavra. Sotaque estrangeiro, espalma suas mãos viradas para cima, pede que uma camponesa lhe dê um tapa na palma da mão. Diz que queria representar estar dando a mão à palmatória, que realmente o IEF errou em não saber que existia na área aquela comunidade, que era possível pensar como em outros países, em preservar e manter os habitantes da área preservada na mesma, etc., etc., etc..

Alguns dos companheiros da Liga estavam já fora da reunião, em animadas rodinhas na área comunitária ao redor da escola, os camponeses riam, pensavam na resistência, faziam planos, contavam casos, quando a assistente social propôs que todos se dessem as mãos e rezassem o Pai Nosso, para encerrar a reunião. O companheiro da Liga que permanecera na sala arrumou um álibi, perguntando baixinho a um "cúmplice": — "onde é mesmo que eu posso dar uma ‘mijadinha', estou muito apertado!", e saiu.

Mas os camponeses ainda queriam mais. Meio que desiludido com a "fraqueza" do IEF, o técnico da Rural-minas tentava se distrair puxando conversa com um dos companheiros de um dos acampamentos, que acabava de negociar uma mula. Procurando pelo preço, recebeu na lata: — "eu troco pelo Fiat!", respondeu o camponês, que não perdeu tempo ante os muxoxos e o sorriso amarelo do técnico: — "ela está em extinção!"

Não houve mais reuniões deste tipo. Os posseiros permaneceram na terra, conseguiram créditos, plantaram, mas estão pendurados no banco... a resistência continua. A luta se espalhou por toda a região.


 *Estudante de Agronomia da Unimontes - Universidade de Montes Claros

 

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