Os limites do pensamento burguês

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Na Associação de Amigos do Le Monde diplomatique descobre-se que a linha editorial da publicação mensal social-democrata tem os mesmos limites que o pensamento de Noam Chomsky: "Não toquem no sionismo!". A crise alcançou seu paroxismo com a publicação de um artigo do falecido Edward Said onde faltavam frases que criticavam a solução dos dois Estados e os acordos de Oslo. Numerosos são os autores ianques que se interrogam a respeito do tipo e da intensidade da influência entre Israel e o USA, mas também entre intelectuais e respeitados diários que difundem suas idéias.

A invasão do Iraque por parte de uma coalizão anglo-saxã iniciou o debate sobre as relações que mantém o chamado campo ocidental e Israel. É uma guerra inutilmente custosa para o USA e o Reino Unido, enquanto satisfaz os objetivos sionistas de sempre, enunciados em 1943 pela "Declaração de Biltmore ampliada".

Numerosos são os autores estadunidenses que se interrogam sobre o tipo e intensidade da influência de Tel Aviv sobre Washington, enquanto que seus homólogos britânicos o fazem acerca do incondicionalismo de Londres com relação a Washington.

O debate se amplia hoje a um questionamento sobre o imperialismo ianque: acaso ele utiliza Israel como mercenário ou o obedece? A partir daí, importantes intelectuais, como John Mearsheimer e Stephen Walt, de Harvard, se dedicam a estudar o lobby sionista no USA, um tema até agora tabu no meio acadêmico.

Igualmente se descobrem os limites das explicações sobre o imperialismo ianque, até agora consideradas como certas e suficientes. Assim, Jeff Blankfort trouxe à luz uma zona de silêncio no pensamento de Noam Chomsky: durante 30 anos, o mestre exonerou sistematicamente os israelenses de suas responsabilidades, fazendo o imperialismo ianque arcar com toda a culpa.

O debate chega agora ao Le Monde diplomatique. A publicação francesa parece debater-se entre as turbulências que agitam a diplomacia de seu país. Um dia Paris proclama sua independência segundo o modo gaullista e critica o imperialismo ianque, inclusive no Conselho de Segurança, e no outro, com a mesma força, jura fidelidade à OTAN e presta juras ao Tio Sam para derrotar um presidente na Geórgia, sequestrar outro no Haiti e ameaçar a um terceiro na Síria.

Mesmo assim, as contradições retornam imanejáveis quando o assunto se aproxima de Israel. Assim, a França deixa de ser solidária à OTAN e à União Européia para apoiar o povo palestino e a seu governo eleito, formado pelo Hamas, mas nega vistos aos membros desse mesmo governo eleito. Alguns, erroneamente, aludem hipocrisia.

Na realidade já não existe diplomacia francesa, tampouco governo francês. Destes há dois: os gaullistas de Jacques Chirac e Dominique de Villepin, e os atlântico-sionistas de Nicolas Sarkozy. A batalha causa estragos nas altas esferas do Estado e tem como pano de fundo denúncias caluniosas e registros em escritórios ministeriais.

Neste contexto, alguns diretores da Associação de Amigos do Le Monde diplomatique descobrem que a linha editorial da publicação mensal tem os mesmos limites do pensamentode NaumChomsky: "Não toquem no sionismo!" Assim, se projetam publicamente e provocam uma crise que está longe de se esgotar.

Também a direção lhes respondeu publicamente, mediante uma profissão de fé antiimperialista que encantou aos leitores. Sem dúvida, esta resposta está marcada pela dualidade do compromisso político de seus redatores, um reflexo exato das contradições dos diplomatas franceses.

Um inesperado incidente teve lugar durante a assembléia geral de 2005 dos Amigos do Le Monde diplomatique, quando algumas pessoas atacaram uma das diretoras porque esta, de cultura muçulmana, levava um chale que lhe cobria a cabeça, o que havia sido interpretado como uma manifestação de proselitismo islamita. Os dirigentes do periódico deixaram que a insultassem sem restabelecer a ordem para concluir finalmente que deploravam tal condição em que se viram.

Logo, a direção do periódico proibiu aos Amigos a organização de reuniões de discussão sobre o 11 de setembro ou do sionismo e, finalmente, vieram as medidas contra os infratores que convidaram Alain Ménargue, ex-diretor de informação da Rádio França Internacional, a quem pensavam conceder o Prêmio Le Monde diplomatique por seu livro crítico sobre o muro de Sharon. A crise alcançou seu paroxismo com a publicação em julho de um artigo do falecido Edward Said.

No texto do falecido professor universitário palestino, apresentado como integral, faltavam frases que criticavam a solução dos dois Estados e os acordos de Oslo. Depois de ter censurado a expressão de algumas pessoas e também proibido alguns temas de debate, a direção do periódico falsificava as palavras de um de seus mais célebres autores.

Para justificar-se, a direção do periódico assegura que só se trata de querelas pessoais e que sua posição política nunca mudou: "seguimos sendo partidários convencidos da paz no Oriente Próximo, baseada na criação de um Estado palestino independente e factível com Jerusalém oriental como capital, que viva junto ao Estado de Israel, cuja segurança seria garantida." Mas os tempos mudaram. Esta resposta chomskyana não é suficiente. Na própria redação, alguns destacaram que, para os progressistas, a questão principal é a afirmação da igualdade humana e a luta contra o apartheid.

Assim como não podiam admitir a presença do regime afrikáner na África do Sul ao lado dos bantustanes independentes, não podem apoiar a manutenção do regime sionista junto a um ou dois bantustanes palestinos.

Para encerrar o debate, a direção do Le Monde diplomatique esgrimiu um segundo argumento: a publicação apóia as revoluções latino-americanas e seu redator-chefe, Ignacio Ramonet, acaba de publicar uma entrevista em forma de livro com Fidel Castro.

Os tempos para isto também terminaram e a resposta não é suficiente. Ao conceder uma entrevista ao Le Monde diplomatique, Fidel não lhe deu um certificado de revolucionário, assim como também não deu a Larry King, quando este o entrevistou para a CNN.

A menos que se considere que Fidel Castro é um ditador que só fala com periodistas às suas ordens. Esta é a posição dos Repórteres sem Fronteiras desde que assinou um contrato com Otto Reich. E precisamente o vice-presidente de Repórteres sem Fronteiras, Daniel Junqua, alterna suas funções com as de vice-presidente dos Amigos do Le Monde diplomatique .

Como perfeito reflexo dos diplomatas franceses, Le Monde diplomatique apoiou sem reservas a revolução bolivariana de Hugo Chavez, enquanto abandonou Jean-Bertrand Aristide quando Paris decidiu entregá-lo a Washington. Um dos colaboradores e executivos, Christophe Wargny, é um antigo acessor de Aristide que virou a casaca e apoiou seu sequestro por parte dos marines ianques. Mais significativo ainda: a publicação que nos ocupa organizou uma grande festa por ocasião de seu quinquagésimo aniversário em maio de 2004.

Seu mais precioso hóspede era o filósofo Regis Debray. Segundo Jean-Bertrand Aristide, foi este mesmo Regis Debray que o ameaçou de ser destituído se não renunciasse e que supervisionou a ajuda francesa à intervenção militar ianque para derrotá-lo. E já que decididamente Israel tem o dom de revelar, Regis Debray e a direção do Le Monde diplomatique aproveitaram a ocasião que lhes brindava a festa para fazer uma grande proposta: transferir a sede da ONU para a cidade santa de Jerusalém! Uma idéia descabida que, além de vincular a busca pela paz unicamente com as religiões do Livro, tornava definitivamente impossível o regresso dos palestinos a seus lares.

Os franceses gostam dessas querelas excessivas e estas turbulências não deixam de ter consequências. A venda de Le Monde diplomatique diminuiu 25% em dois anos em seu país. Queimam o que adoraram e não tardarão a reprovar as obras de Noam Chomsky. Mais sábios, conservaremos nossos velhos livros entre outros documentos, tendo em conta seus limites.


*El Diario Internacional é um periódico internacionalista dirigido por Luis Arce Borja, um dos mais notáveis e corajosos jornalistas da atualidade. 
Durante boa parte de maio último, a página eletrônica de El Diário Internacional foi apagada do servidor onde estava, permanecendo fora do ar neste período. A evidente sabotagem a El Diário aconteceu logo após seu editor, Luis Arce Borja ter recebido várias ameaças. Em resposta às ameaças e ao boicote à página na Internet, Luis Arce declarou que "nada pode mudar o caráter político de nosso periódico", e anunciou para breve a melhora da qualidade e maior velocidade nas edições.
www.eldiariointernacional.com

 

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