O tempo novo de Olga camarada

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Luiz Fernando Lobo, diretor da Companhia Ensaio Aberto de teatro, recebeu a reportagem de A Nova Democracia no meio de um ensaio de Olga, um breve futuro, que estreou no dia 5 de agosto no Caixa Cultural Rio, na esquina da Avenida Rio Branco com a Almirante Barroso, no centro do Rio de Janeiro.


Cenas de várias peças montadas pela companhia

A Companhia Ensaio Aberto foi fundada em 1992, por um grupo de profissionais insatisfeitos com o "teatro de mercado".

— A companhia foi fundada em 1992, exatamente para tentar a retomada de um teatro político, de um teatro que existiu numa determinada época no Brasil e que com a ditadura [gerência militar], mais especificamente a partir de 1968, ele acabou. E quando esse teatro acabou a consequência direta foi o fim dos grupos, como Arena, Oficina, Opinião. Foi o que significou, a médio e a longo prazo. No início dos anos 90 começou a existir uma retomada de alguns grupos, tentando resgatar este tipo de teatro que havia deixado de ser feito no Brasil — diz Luiz Fernando, e explica:

— Quando fundamos a companhia Ensaio Aberto, eram já diversos profissionais atuantes desde há algum tempo. Ao contrário de outras companhias que se formaram com pessoas no início de profissão. Conosco estavam pessoas insatisfeitas com a forma de organização e produção do mercado, forma que determina o produto final, o público, o tipo de sala de espetáculo que pode ser utilizado, enfim.

A empreitada de encenar espetáculos mais politizados, no entanto, impunha o encontro da companhia com outro público, com os trabalhadores do campo e da cidade e outras classes progressistas que anseiam por mudanças na sociedade. Fazer teatro para a burguesia seria no mínimo anacrônico quando se busca revolucionar.

— Para retomar este tipo de teatro não adiantava tentar falar para aquele público que estava indo ao teatro, porque era um público muito ruim, muito burguês, em busca de um tipo de espetáculo muito burguês. Então, nós tivemos que descobrir ao mesmo tempo um outro público. Inventar um outro teatro, uma nova forma de produzir, novos mecanismos de conseguir dinheiro para a produção -, porque, obviamente, os mecanismos que estavam válidos naquele momento não dariam dinheiro para o tipo de teatro que a gente queria fazer — e buscar um novo público.


Luiz Fernando Lobo

A Ensaio Aberto queria mostrar que viera para ficar e logo depois da fundação, em 1993, já fez três espetáculos, sempre contra a corrente do "mercado cultural", contando com uma grande estrutura e um elenco de 20 a 30 pessoas em cena.

— Isso para mostrar que era possível, que tinha que acabar com aquela "conversa de gabinete" com duas, três pessoas, um cenário "simples" e outras coisas do tipo. Para isso, o público não precisa ir ao teatro, porque tem dezenas de outras maneiras de entretenimento. Primeiro: Nós não queríamos fazer um teatro de entretenimento; e segundo: queríamos fazer um teatro rico em todas as suas possibilidades, tanto do ponto de vista teatral quanto, sobretudo, na questão do conteúdo — expõe o diretor da companhia.

A que público se dedicar

No início de sua história, a Companhia Ensaio Aberto organizava também, junto aos espetáculos, alguns círculos de debates, sempre com os temas das lutas populares e com pessoas ligadas aos movimentos sociais. Os debates, por sua vez, atraiam também um público diferenciado, o que já marcava a mudança buscada pela companhia, porque essas pessoas se tornaram o público da Ensaio Aberto.

— De cara começamos a buscar os movimentos atuantes e os operários. Claro que demorou algum tempo, porque essa tradição tinha sido interrompida no teatro brasileiro. Isso começou a acontecer mais fortemente em 1996, quando estávamos encenando a peça A Mãe, de Brecht/Gorki. Em 1999 começamos a trabalhar com o movimento camponês, inclusive com o MST, levando espetáculos para eles e participando de atividades com eles. No fim, no que nos toca, influenciamos os movimentos e, com certeza, recebemos também muita influência deles no nosso fazer teatral — o que começa a determinar um tipo de repertório. No começo fazíamos espetáculos para 100, 150 pessoas e começamos a ter que fazer para mil, duas mil pessoas. A presença desse público determinou algumas necessidades estéticas e da própria estrutura de produção para realizarmos este teatro mais largo — diz Luiz Fernando.

E continua:

— Desde a época em que começamos a trabalhar, as perguntas eram assim: "como é que você vai fazer um teatro de esquerda, quando o teatro está completamente longe disso?" Eu respondia que era exatamente por haver um público ávido de teatro -"os meus amigos não vão ao teatro e a culpa não é dos meus melhores amigos" -, um público que quer ver um outro tipo de coisa. De fato essa aposta foi o grande ás na manga da companhia, porque hoje em dia, quando todo mundo reclama de público a gente não tem esse problema. Temos um público bastante fiel; conseguimos estabelecer uma relação diferente com o nosso público. Não é uma relação de consumo: "a gente faz, o cara vem, paga e vê". Os que são realmente bons espectadores, sabem que são co-responsáveis para que este trabalho vá à frente, que faz parte de uma luta, de uma estratégia de luta política, uma forma de escolha de luta política. Claramente, a companhia foi fundada para ser uma forma de luta política.

Essa é uma compreensão de que a arte, particularmente o teatro, é necessária e que o povo anseia por ela. Desde tempos imemoriais o homem se utiliza da arte para suas representações. Como toda a expressão ideológica, a arte está ligada à luta pela produção, à luta de classes e à experimentação científica. Sendo assim, as diferentes classes se utilizam dela para retratar suas relações com esses aspectos. Dessa forma, Luiz Fernando resume a questão:

— Essa história de que povo brasileiro não gosta de teatro é tolice. Se der uma olhada nessas coisas bobas, do tipo Theatro Municipal [do Rio de Janeiro] a um real, tem filas gigantescas. A questão é falta de acesso mesmo. Além da falta de acesso tem o problema de você colocar em cena algum espetáculo de comprovado interesse público, mostrar que a realidade está no palco. Se eles quiserem sonhar com uma realidade burguesa, basta ligarem a televisão e assistirem a uma novela. Se quiserem ver a sua vida discutida no palco, refletir sobre o seu fazer cotidiano, eles precisam buscar outro tipo de coisa. Eu acho que temos conseguido ocupar esse espaço, mas é uma luta constante. Não é impossível, é certo, mas a gente enfrenta sempre uma nova contradição, articulando o que fazer para não levar uma cacetada na cabeça, porque se alguém puder dar uma cacetada vai dar.

A Companhia Ensaio Aberto, em seus espetáculos, utiliza recursos que não são tradicionais em teatro. É o caso de fotografias e filmes projetados diretamente no palco e, até mesmo, sobre os atores. Tais meios, no entanto, não visam substituir a atuação teatral, mas fornecer ao espectador uma maior dimensão do real que aquele espetáculo reflete.

— A pesquisa de linguagem, especialmente num teatro comprometido politicamente deve estar muito presente. Impossível falar sobre novos conteúdos se não buscar novas formas. Não é uma busca formalista, da linguagem pela linguagem, mas se trata de encontrar formas novas para discutir novos problemas. Por isso que temos uma linha de espetáculos na companhia em que trabalhamos com fotografia, cinema em cena... Nosso teatro é muito colado com a realidade. Em alguns casos a apresentação desses documentos é decisiva. Foi o caso do espetáculo Bósnia, Bósnia, que fizemos em 1994, enquanto a guerra estava acontecendo, e tínhamos uma correspondente lá, que nos mandava as imagens e nós trabalhávamos em cima delas — fala Luiz Fernando

Olga tão atual

O espetáculo Olga, um breve futuro é totalmente baseado em pesquisa de documentos primários, na Alemanha, Rússia e Brasil. A vida da militante comunista Olga Benário, apresentada com alguns lapsos por quem se arriscou a escrever sobre ela, se revelou aos pesquisadores da Companhia uma fartura de documentos muito grande, o que certamente resultará em um espetáculo igualmente rico. A respeito disso, Luiz Fernando alfineta:

— É uma pesquisa muito rica e inclusive encontramos algumas coisas que contradizem os autores — ao dizerem que têm pouco material sobre isso. Não é verdade. Falta mesmo é pesquisa, metodologia; querer contar a história da esquerda de outro ponto de vista.

Ao contrário da onda de mostrar a vida de grandes lutadores pela liberdade de uma perspectiva melancólica e pessimista, envolta em brumas e trevas, para no final deixar a mensagem de que não valeu a pena, o espetáculo Olga pretende apresentar uma outra abordagem. A pesquisa primária foi fundamental para isso, porque urgia desmentir a historiografia oficial, que teima em manter fatos importantes nas gavetas.

— É importante fazer um espetáculo para desmistificar a história oficial burguesa, revelar que ela é enganosa, deliberadamente, por todos esses anos. Especificamente, no caso da revolução de 35, envolvendo boa parte da vida do Prestes e toda a parte da vida da Olga no Brasil, começou a ser pesquisada em nosso país a partir da década de 80, porque tudo que foi produzido antes é extremamente comprometido com a história oficial, como a lenda reacionária do "ouro de Moscou", "intentona comunista" etc. — ataca o diretor da Ensaio Aberto, e emenda:

— Primeiro objetivo do espetáculo é ir contra a história oficial, começar a fazer a história dos leões e não dos caçadores. Se conseguirmos isso já será muita coisa, mas queremos ir além, pensando a idéia da revolução e as possibilidades da revolução. Tudo isso recordando Olga a partir do presente e captar o que o passado tem para nos ensinar, para a construção do futuro. Tanto que o título do espetáculo é Olga, um breve futuro.

Nas palavras de Luiz Fernando, o espetáculo A mãe, roteiro do dramaturgo alemão Bertolt Brecht sobre texto de livro do grande escritor soviético Máximo Gorki, foi um dos momentos mais marcantes da história da companhia.

— A mãe, de Brecht/Gorki, em 96, foi um marco para a companhia. É incrível constatar que o livro do Gorki ainda tem uma importância muito grande, o mesmo que a gente sempre ouviu por parte dos velhos militantes. Operários foram assistir o espetáculo, dizendo que tinham lido o livro do Gorki!!! Como é importante a batalha das idéias! Os escritores e teatrólogos que realizaram essa obra realmente deixaram um traço diferencial que atravessa gerações — diz animado Luiz Fernando.

Em defesa do proletariado

Duas outras experiências também são importantes na história da Companhia Ensaio Aberto. Ainda na linha de se conquistar um novo público para seus espetáculos, a companhia elaborou uma teoria, chamada de Ciência do Novo Público, que não se resume a diminuir os preços dos ingressos. Luiz Fernando explica:

— Os ingressos mais baratos são parte integrante da nossa política. Para se conseguir um novo público precisa ter ciência, não adianta baixar o preço do ingresso para R$ 5,00. Quando nós ocupamos o teatro Glauce Rocha, no centro do Rio de Janeiro, o ingresso custava 15 reais, mas quem comprasse com 24 horas de antecedência pagava 5 reais. Com isso nós conseguimos fazer com que o espectador se programasse para ir ao teatro, o que já muda um pouco o comportamento. De repente, começaram a nos procurar dizendo: "Olha, eu tenho um grupo de 20 pessoas que quer ir ao teatro, mas não temos 5 reais". E nunca recusamos esse público. Nós podemos cobrar um real ou até não cobrar nada, mas o público deveria vir de uma maneira organizada, grupos de favelas, fábricas, escolas, etc. Então, conseguimos um público fantástico, numericamente (numericamente é fácil de entender num país tão carente de bens culturais) e de qualidade, sobretudo.

A ocupação do Teatro Glauce Rocha é a outra experiência marcante. Através de um documento encaminhado aos poderes públicos federal, estadual e municipal, a companhia reclamou o direito de ocupar espaço nos teatros e utilizar aqueles subvencionados de uma outra forma.

— Por incrível que pareça, conseguimos um canal de negociação com o governo federal. Não pelo Cardoso, mas há sempre algum funcionário de carreira, ligado aos movimentos de antes da gerência militar, que percebeu a necessidade daquilo e de fato foi um momento importantíssimo. Ocupamos esse teatro, que é federal, de 1998 até o final de 2000 — diz Luiz Fernando, para em seguida explicar como encerrou a história:

— Estávamos fazendo um sucesso enorme quando participamos de alguns eventos, como o julgamento do José Rainha e outras coisas ligadas às lutas das massas. Fomos convidados a nos retirar do teatro com uma carta que reconhecia ser aquela "a melhor ocupação da década", mas que eles tinham outros planos para o teatro. E quando a gente saiu, o teatro ficou fechado por seis meses. Ficou claro, eles queriam era nos tirar de lá.

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