Honras a Vergatti

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Na noite do dia 2 de julho, faleceu em São Paulo, aos 75 anos de idade, Luiz Vergatti. O nosso primeiro contato aconteceu em Belo Horizonte, durante as atividades do congresso da Liga Operária, há pouco menos de um ano. A cobertura de eventos no movimento sindical classista e combativo nos permitiu outras oportunidades, para ouvir um pouco de a imensa experiência daquele combatente do povo, filho legítimo do proletariado revolucionário.

Assim que soubemos do falecimento, partimos para São Paulo a fim de lhe render uma última homenagem. Lá, nos foi contado um Vergatti pai, avô, companheiro, incansável militante da causa operária e da independência de nosso povo, histórias de muitos amigos.

Durante sua juventude Vergatti participou ativamente das lutas do proletariado paulista. Tornou-se operário, ajustador mecânico. Ainda jovem ingressou nas fileiras dos proletários socialistas. Tornou-se marxista e, assim, encontrou a razão de sua existência, dedicando-se à militância revolucionária até o último instante de sua vida.

— O Luiz sempre foi um combatente incansável. Todas as vezes em que o procurei em sua casa, ele estava estudando. Acordava cedo e atravessava a cidade em busca dos companheiros. Voltava tarde e, no dia seguinte, já estava pronto para outra tarefas. Pontual, não permitia atrasos ou faltas. Vergatti tinha fôlego de um rapaz. Numa só semana era capaz de realizar tarefas com pessoas diferentes em todos os cantos da cidade. Seus passos curtos e o tom baixo de voz era uma contradição constante com o seu temperamento inquieto.— relatou um vizinho e companheiro.

Quando em 1962

Uma nova luta ideológica no seio do Partido Comunista do Brasil e no mundo começava a se aprofundar. Vergatti estava entre dirigentes da estirpe de Maurício Grabóis, Pedro Pomar e tantos outros.

A contra-revolução pró-ianque de 1º de abril de 1964 empurrou Luiz Vergatti para a clandestinidade. Nessas condições, esteve presente em todas as lutas que precederam a Guerrilha do Araguaia. Sua prisão ocorreu 1972.

Solto em 1978, Vergatti deparou-se com uma nova situação no Partido. Após a queda da maioria dos membros do Comitê Central na conhecida Chacina da Lapa. A linha revisionista e capitulacionista de João Amazonas iniciou um processo de isolamento da linha revolucionária e de todos que a defendiam. Repetindo os episódios de 1966, os quadros revolucionários foram expulsos. Vergatti estava entre os que romperam com o covarde Amazonas e iniciou uma dura caminhada, buscando novos e antigos companheiros para prosseguir a luta. Durante todos esses anos, o chauvinismo e oportunismo eleitoreiro, no qual se afundavam tantos partidos e organizações da "esquerda", não o desanimaram, todavia.

O Fórum permanente dos expresos e perseguidos políticos do Estado de São Paulo serviu-lhe de tribuna para condenar todas as traições e reconstituir a memória dos revolucionários autênticos.

O reencontro afinal

— Percebi que meu pai andava trabalhando mais do que de costume. Saía cedo, esquecia-se até de almoçar. Permanecia ausente nos finais de semana, e passamos a nos ver menos. De tempos em tempos aparecia e me pedia uma "ajudinha" financeira. Então pensei "Ah, ele reencontrou o que tanto procurava!"— Luiz, filho de Luiz Vergatti.

Nos últimos meses da vida do velho combatente, parecia que ninguém, a não ser ele, conseguia preencher 24 horas do dia com tanta produção política.

Alguém, no último congresso da Liga, já aventara para a possibilidade de que Vergatti construía novamente sólidas bases entre os operários.

Prossegue seu filho:

— A mais espinhosa tarefa, que qualquer um de nós levaria um mês para realizar, ele a cumpria em uma semana, e como ninguém. Ele atravessava a cidade de fora a fora para traçar planos com outros companheiros, com serenidade, mas com um ânimo insuperável. A princípio, parecia ter encontrado ao menos um círculo de camaradas, um ou outro profissional da revolução como ele. Depois, hoje penso melhor, é como se ele tivesse retomado os contatos com um braço da vanguarda da classe operária. Ele nada dizia, mas me pergunto: quem sabe, não estaria o exército de sua classe, clandestino ainda, se reconstituindo, ajustando a sua rede? Se assim for, só a gente de têmpera proletária consegue perceber.

Momento último

Após participar de uma reunião na periferia da cidade, Vergatti despediu-se dos companheiros em um trem do metrô de São Paulo. Saltou em uma estação. Iria para casa.

— Cheguei em casa, alguns minutos depois recebi um telefonema, disseram que o companheiro havia falecido. Mas como? Estávamos juntos há poucos minutos! Não acreditei. Entrei em contato com outros companheiros. Era verdade. Um infarto fulminante.— Renato, um companheiro do núcleo da Liga Operária.

Chegamos a São Paulo na fria madrugada do dia 4 de julho. Nos dirigimos diretamente ao cemitério na região de Tatuapé, conhecido como "Quarta Parada". Operários, familiares, membros do Movimento dos Vendedores Ambulantes de São Paulo, velhos companheiros que militaram em diversas organizações classistas, todos vieram se despedir de Luiz Vergatti.

A bandeira da Liga Operária cobria o seu esquife.

— Não permitam a presença de traidores e oportunistas no meu funeral.

Uma ordem de Vergatti, transmitida em tom de pilhéria certa vez, era lembrada e cumprida naquele momento amargo. Nem mesmo a faixa com as condolências de um deputado, fixada em uma coroa de flores, permaneceu na sala onde foi velado seu corpo.

Os olhares mais atentos se surpreendiam: a bandeira vermelha com a foice e o martelo também vestia o ataúde de Vergatti. Quem a trouxera? Quem tinha feito uma costura com tanto esmero e precisão?

No momento do sepultamento, uma descoberta desagradável. Não havia lugar disponível para o corpo. A prefeitura, através da administração do cemitério, costuma criar uma série de entraves para extorquir dinheiro das famílias, justamente em momentos assim. Cobraram taxa para exumar o corpo do pai de Vergatti, taxa para reparo da sepultura...

— Meu pai lutava justamente contra isso, contra a injustiça e a corrupção. Agora, eles vêm nos tirar mais dinheiro. Por isso, não podemos dar trégua na luta contra esse sistema imundo e corrupto.— protestou o filho caçula de Vergatti.

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