Contrafogos da França rebelde

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“Queimar é o único meio que temos para nos fazer entender. Se não queimamos, ninguém se interessa pelo que acontece aqui”. Assim o jovem Mohammed resume para o jornal l’Humanité os motivos da revolta incendiária na França contra o desemprego, o agravamento da pobreza nas periferias e a repressão policial aos habitantes dos subúrbios pobres. Neto de imigrantes — ou “imigrante de terceira geração”, na expressão predileta de certa elite racista da sociedade francesa — Mohammed é morador da cidade de Montfermeil, nos arredores de Paris, onde no início de maio recrudesceram as lutas da população discriminada no mercado de trabalho, cotidianamente humilhada e sem perspectivas quanto ao futuro.

Em novembro e dezembro de 2005, jovens de origem árabe e africana se insurgiram por toda a França, depois que dois adolescentes pobres morreram carbonizados e outro ficou gravemente ferido quando tentavam se esconder da polícia numa subestação elétrica, na cidade de Clichy-sous-Bois, em 27 de outubro. Um pouco antes, prédios que abrigavam imigrantes em algumas cidades européias passaram a ser sistematicamente incendiados à noite.

Súbito, imagens de milhares de carros e prédios públicos incendiados em todo país percorreram o mundo.

Os rebeldes logo foram enquadrados como vândalos e delinqüentes, e o governo não tardou em fazer valer sua vocação autoritária, declarando "estado de emergência", este mero eufemismo para a supressão das liberdades civis, como toque de recolher e prisões arbitrárias. Durante o levante, quase três mil pessoas foram detidas, e depois cerca de 400 acabaram condenadas à reclusão.

Sete meses depois, em Montfermeil — cidade vizinha de Clichy-sous-Bois — vários carros voltaram a ser queimados, delegacias de polícia foram apedrejadas e a casa do prefeito foi atacada por pessoas armadas de pedras e tacos de beisebol, fartas de receberem tratamento de inúteis e indesejáveis.

Entre os detidos em um desses novos protestos estava Muhittin Altun, sobrevivente do transformador onde seus amigos Zyed Bena e Bouna Traore morreram acossados pelos guardas. No dia seguinte à sua prisão em Mont-fermeil, Altun participaria da reconstituição do incidente em Clichy-sous-Bois. Uma coincidência providencial para desqualificar a testemunha-chave não apenas da morte dos dois rapazes, mas da tragédia de miséria e violência que se abate sobre a periferia francesa — uma coincidência que se mostrou ainda mais miraculosa porque o jovem sobrevivente negou veementemente qualquer ato que pudesse justificar sua prisão.

Em Montfermeil, o ressurgimento dos protestos não foi surpresa para quem vive no bairro de Bosquets, onde se concentram — ou onde foram excluídos — os imigrantes que vivem na cidade: 20% da população e apenas 10% dos eleitores. Desde abril, o prefeito Xavier Lemone, da União para um Movimento Popular (UMP — partido do presidente Jacques Chirac), promoveu deliberadamente uma escalada repressiva dirigida aos habitantes do bairro, sustentando-se em estudos oportunistas segundo os quais o índice de delinqüência na cidade havia crescido em cerca de 90%.

Decretos fascistas

Além de reforço aos cercos policiais e revistas diárias aos habitantes de Bosquets, Lemoine publicou um decreto proibindo a reunião de mais de três adolescentes no centro da cidade sem a supervisão de um adulto. O arroubo nazi foi suspenso um mês depois por decisão judicial, mas a provocação valeu como um novo estigma acrescentado contra os pobres e desempregados, além de mais uma das inúmeras provocações de uma direita interessada em dividendos eleitorais das tensões sociais.

Na última semana de maio, uma mulher foi agredida por policiais quando tentava defender seu filho de uma humilhação imputada pelas forças da ordem aos habitantes de um bairro no qual o índice de desemprego chega aos 40%. Foi o estopim que desencadeou os novos confrontos.

Mas, para além dos estopins — tão ressaltados pelo oligopólio das agências de notícias internacionais — os jovens marginalizados da periferia francesa voltaram a se levantar contra um governo fascista-policial, contra uma "esquerda" punitiva ansiosa por assumir o posto de caçadora eleita dos resistentes, e uma imprensa que não se faz de rogada em escancarar seus vínculos estreitos com o receituário do desemprego, da dilapidação de direitos e garantias, da segregação, ou do gerenciamento carcerário dos refugos humanos produzidos pelo capital.

Este panorama da sociedade francesa é um dos temas do novo livro de Loïc Wacquant, professor de sociologia da Universidade de Berkeley, na Califórnia, e pesquisador do Collége de France. Em Parias Urbains — que acaba de ser lançado na França — ele faz uma ampla revisão de um trabalho anterior, publicado no Brasil sob o título Os condenados da cidade. Wacquant é autor de vários trabalhos que tratam da importação européia do modo estadunidense de ver a questão social como caso de polícia, relegando a um conveniente silêncio as raízes históricas e classistas de grande parte dos conflitos urbanos. Segundo ele, é o que vem acontecendo em relação aos "banlieues":

— Há duas décadas a animosidade e os conflitos de aparência racial que eclodem nos subúrbios franceses em decadência são a expressão de uma crise social provocada pelo desemprego e pelo subemprego, bem como pela conjugação espacial da pobreza em zonas onde famílias de imigrantes e da classe média empobrecida estão em concorrência pelo acesso a recursos cada vez mais escassos. Promovido pela política econômica dos governos de direita e esquerda dos últimos anos, o encontro entre integrantes de uma classe operária desamparada pelo Estado, de um lado, e de outro, jovens descendentes de imigrações pós-coloniais, alimentam as tensões sociais e a hostilidade xenófoba. É porque os imigrantes se aproximaram culturalmente e espacialmente dos cidadãos das camadas mais inferiores da estrutura de classes que se tornaram alvo de reações agressivas e a temática da imigração invadiu o espaço público.

Só na região de Seine-Saint-Denis, onde ficam as cidades de Montfermeil e Clichy-sous-Bois, existem 100 mil desempregados e 194 mil pessoas que vivem na mais completa miséria. Uma amostra viva da precarização econômica e moral à qual vêm sendo submetidas significativas parcelas do povo francês, e cujas razões raras vezes são levadas em consideração. Mas Wacquant lembra:

— Quando se fala em famílias de origem estrangeira, fala-se em famílias oriundas de países do antigo império francês. Quando se fala do "problema da imigração", é da imigração pós-colonial que se trata, e não de imigrantes ingleses, polacos ou portugueses. Quando observamos os subúrbios populares decadentes, vemos o resultado de décadas de privatização e desregulação promovidas pelo Estado.

Super-exploração é lei

Após as insurreições de novembro de 2005, o governo conservador completado pelo primeiro-ministro Dominique de Villepin anunciou uma nova lei de imigração, escamoteando o real significado dos acontecimentos e minimizando as verdadeiras causas pelas quais lutou o povo francês no final de 2005. A mensagem era clara: aos estrangeiros (de primeira, segunda, ou terceira geração) não cabem políticas públicas contra o desemprego ou qualquer providência por parte do Estado que ofereça alguma resposta ao nível de suas legítimas necessidades.

A amplitude e o apelo da imprensa contra as mobilizações populares escancararam uma catástrofe social cujos protagonistas polarizados são jovens sem rumo aos quais, segundo eles próprios, só resta queimar, e um governo que aposta em provocações, balas de borracha, cassetetes e gás lacrimogêneo para sair dos incômodos índices recordes de desaprovação, com vistas à campanha presidencial de 2007.

De um lado, as lutas e as esperanças das classes populares, suas legítimas reivindicações por condições mínimas de respeito e sobrevivência; de outro, um governo que trabalha laboriosamente em prol do patronato, contando com a cumplicidade do monopólio da imprensa dirigida pelas oligarquias para solapar garantias sociais conquistadas e tratar os descontentamentos populares com atenção exclusivamente repressiva.

O ministro do interior, Nicholas Sarkozy, por exemplo, lançou mão de uma metáfora fétida para manifestar seu ódio contra os pobres, dizendo que pretendia limpar as "imundícies" que "contaminam" as ruas com "mangueiras de água a pressão".

O insulto de Sarkozy não refletiu um comportamento despropositado diante das câmeras e microfones. Ao contrário: foi proposital, dito para sair nos jornais e telejornais, sem que fosse preciso qualquer contemporização por parte de sua assessoria de imprensa. O objetivo do Ministro do Interior é ressaltar o fato de que os habitantes dos subúrbios são pessoas de "etnias diferentes", a fim de tentar convencer os franceses dos iluminados centros de que as raízes dos distúrbios nas periferias estão em questões raciais e religiosas. Assim, o partido da tríade Sarkozy-Chirac-Villepin conseguiria pautar as eleições de 2007 pelo signo da segurança pública, desviando-se das urgências sociais.

A pré-candidata do Partido Socialista Francês à Presidência da República, Ségolène Real, não se contentou em reproduzir a velha incapacidade da falsa esquerda de conciliar condenação da violência gratuita com compreensão política dos fenômenos sociais. Mas Ségolène foi ainda mais longe. Após os acontecimentos em Montfermeil, ela sugeriu o enquadramento dos "delinquentes" pelas forças armadas, regimes de internato, penalização de suas famílias através da suspensão de subsídios sociais, e acompanhamentos compulsórios para os pais a partir do primeiro ato de indisciplina de seus filhos, mesmo que a pirraça aconteça na mais tenra infância.

Ségolène já havia deixado os militantes do PS enrubescidos quando, em plena campanha pelo posto de candidata do PS, disse ter "reservas" quanto à semana de trabalho de 35 horas, uma conquista da época do governo de Lionel Jospin.

O presidente regional da UMP em Seine-Saint-Denis não perdeu a oportunidade de ironizar o desespero da esquerda eleitoreira em não perder o bonde dos serviços oferecidos pelo monopólio da imprensa : "Bem-vindos ao clube!", disse.

Na mesma ocasião em que prometeu milicos para dar conta dos jovens pobres e enfurecidos, Ségolène cobrou "maior firmeza" do atual governo, para divertimento de Sarkozy, que prometeu não decepcionar a mais nova adepta das políticas sociais com derramamento de sangue, e se deu ao luxo de criticar a severidade do PS, dizendo que não chegaria ao ponto de "pôr a juventude na caserna".

Segregar para normalizar

A concordância entre Ségolène e Sarkozy quanto ao uso da força como solução para a crise social é apenas, como se diz, a ponta de um iceberg onde a minimização de divergências com a direita muito revela sobre a natureza fraudulenta e traidora de certa esquerda, outrora ancorada nas demandas populares. Encarar as manifestações de insatisfação das regiões pobres da França sob o ângulo exclusivo da violência e da delinqüência foi o tom adotado desde Jospin a Jean-Marie Le Pen nas eleições presidenciais de 2002.

O resultado devastador do pânico social como estratagema eleitoral é conhecido: por um triz o fascista Le Pen não se elege com os votos de uma pequena burguesia apavorada. Mais do que tudo, ele foi vencido apenas pelo desmoralizado slogan: "Vote no ladrão, não vote no fascista", como se os grandes ladrões não fôssem filhos da mesma mãe fascista.

Não por acaso, Le Pen foi a público manifestar solidariedade a Xavier Lemone, o prefeito de Montfermeil que adota como principal política de governo a perseguição e a humilhação dos habitantes de um bairro miserável. Novamente candidato no pleito de 2007, Le Pen foi mais um que não perdeu a oportunidade de fazer do Partido Socialista francês motivo de chacota. Após as declarações de Ségolène, disse: "A Torre Eiffel teria caído e eu teria sido assassinado pela imprensa se tivesse sido eu a falar em enquadramento militar dos delinquentes da periferia". E acrescentou: "Ségolène Real é uma falsa mulher de esquerda, que pensa como se fosse um marine ianque".

No dia seguinte às declarações reacionárias da pré-candidata socialista Ségolène Real, um jornal parisiense estampava na manchete a pergunta inquietante: "Pen outra vez no segundo turno?".

Mas se a miséria da política-partidária francesa apenas faz eco à exigência da mídia liberal por mais e mais segurança, as ruas em chamas desnudam um modelo de sociedade fadado à insegurança generalizada, no qual "liberdade, igualdade e fraternidade" se transformam em deboches históricos.

O falecido Pierre Bourdieu apelidou de "contrafogos" as táticas e as lutas de resistência à supremacia do mercado* e à ditadura da imprensa imperialista. Parceiro de escritos de Bourdieu e um dos raros intelectuais despreocupados em oferecer valiosas contribuições integradas em estúdios de TV, Loïc Wacquant ressalta a importância dos significados que vêm sendo deixados pela luta do povo francês:

— O recado deixado pela juventude da França é que não há fatalidade no empobrecimento dos subúrbios populares, na precariedade salarial, e no abandono deliberado das políticas públicas por parte do Estado. Foi o que revelaram os jovens em novembro de 2005, revoltando-se abertamente contra os abusos policiais nos subúrbios e o despeito dos líderes políticos, e em abril de 2006, mobilizando-se maciçamente contra a política de naturalização da insegurança trabalhista do governo de Villepin.


Nota da redação: Mercado — Não se trata de um espaço onde se verificam trocas livres de mercadorias. No período imperialista o mercado é um aparato das grandes operações financeiras destinado a impor relações do mais cruel domínio, de escravização econômica dos trabalhadores e das nações. O capital monopolista leva às últimas consequências as contradições antagônicas entre o caráter social da produção e a forma privada de expropriação. Dessa forma, os estreitos limites do mercado obrigam os monopólios a buscar e conquistar outras novas fontes de matéria-prima e de força de trabalho não pagas, quando as potências imperialistas aprofundam e agravam a partilha do mundo segundo os interesses desses mesmos grandes monopólios.

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